segunda-feira, maio 14, 2007

A imaginação masculina conjurava e projectava sobre a conduta feminina os seus próprios demónios, ao menor sinal de realização independente por parte delas. A Grécia antiga, considerada o "berço da democracia" (algo de que eu discordo), não era excepção a esta regra. Vejamos: quando hoje falamos em homossexualidade feminina, utilizamos as designações «lesbianismo» e/ou «relações sáficas». Pois bem, tal são alusões à poetisa grega chamada Safo (séc. VII a.C.) que vivia na ilha de Lesbos, onde tinha uma escola para mulheres. Estas eram essencialmente ensinadas a ter algum domínio sobre as suas paixões, a tornarem-se mais sensuais e a explorarem o prazer físico (começando por conhecer melhor a sua anatomia, passando por técnicas de relações sexuais – adaptadas a ambos os géneros!).

Em Lesbos as iniciadas eram livres para explorar e potencializar as idiossincráticas orientações sexuais e a libido. Obviamente, às mulheres que assim o desejassem, mesmo que por mera curiosidade, era permitido ter relações homossexuais (ou unissexuais, se preferirem o preciosismo técnico). Mas as heterossexuais convictas, recebiam um treino semelhante, a fim de virem a tirar o melhor partido da intimidade com os homens.

Para a história (escrita exclusivamente por homens até ao séc. XX) ficou a ideia que Safo era uma depravada empenhada em converter todas jovenzinhas ingénuas em lésbicas.

Ainda na Grécia, durante o séc. V a.C. , quando Péricles reinava Atenas (durante o auge politico e intelectual dessa cidade), as mulheres tinham o direito de, apenas durante uns dias de Inverno, darem rédea solta às suas paixões e aos apelos telúricos. A fim de honrarem Dionísio (deus do vinho, de todas as coisas deliciosas e do êxtase espiritual), subiam o monte Parnaso (sobranceiro ao oráculo de Delfos) e celebravam a sua religiosidade e feminilidade com danças, música, poesia, ágapes campestres e outras manifestações de convivência emancipada. Esta é a versão mais consensual dos actuais historiadores. Mas os atenienses que eram excluídos destas festividade "bizarras" cogitavam o pior e não se coibiam de maldizer as suas companheiras, como se não bastasse oprimi-las quotidianamente. Assim se consolidaram os prolixos e tenebrosos rumores que aludiam a esses rituais femininos como se se tratassem de orgias, em que divindades silvestres convertiam respeitáveis e comedidas donas de casa em ninfomaníacas aluadas, putas ébrias e comedoras de carne crua…

PB

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