segunda-feira, março 12, 2007

Aquando dos primeiros contactos entre a expedição de Cortés e os nativos da Mesoamérica, a cupidez dos espanhóis engendrou um esquema puerilmente freudiano para roubar os seus anfitriões com a concordância destes últimos. Cortés e os seus guerreiros pediram aos nativos (que os receberam ricamente ornamentados) que lhes trouxessem ouro pois essa era a única medicina eficiente para a sua alegada doença de coração…
A versão caucasiana que se tornou na história oficial impingida nas nossas salas de aulas enaltece o feito militar de Cortés (Cortez) quase como se um punhado de espanhóis gananciosamente impiedosos e traiçoeiros tivesse poderes sobrenaturais que lhes permitiu destruir um império apenas pelos seus meios. Assim, enfatizam a ideia de uma extraordinária superioridade étnico-cultural face a uns ameríndios subdesenvolvidos, que foram vítimas da sua estupidez e medo supersticioso. Há uns 5 séculos que essa propaganda execrável pretende que acreditemos que nenhum povo ou nação entregue às trevas do paganismo e dos “genes inferiores” poderá ser páreo para a religião, a tecnologia de guerra e , aparentemente, também a divina providência que protegem o cancro ideológico eurocêntrico.
Na verdade, os espanhóis teriam pouca esperança de sobreviver a essa empreitada militar sem a ajuda de várias tribos rebeldes que estavam cansadas do jugo dos mexican (aztecas) e conheciam bem os pontos fracos destes últimos.
As doenças trazidas da Europa (com destaque para a varíola, gripe e várias doenças do gado) dizimaram mais indígenas do que o aço espanhol.
Após a conquista de Tenochtitlan (a capital-ilha dos mexican) em 1521, e tendo deitado mão a uma enorme quantidade das almejadas pedras preciosas, não tardou muito a que os espanhóis se tornassem sorumbáticos, entregues ao álcool e, por fim, presas fáceis das enfermidades fatais ( a maioria das quais levaram consigo para o “Novo Mundo”).
Até os líderes destas expedições militares colonialistas (começando por Colombo), apesar de terem conquistado um lugar de destaque nos livros de história e a sua anatomia reproduzida em monumentos, caíram em desgraça ainda em vida, morrendo consumidos pela frustração e pelo ódio de terem sido “injustiçados” pelos seus superiores hierárquicos.
À semelhança do que tinha feito (em 1454) o Papa Nicolau V, dando ao Rei português Afonso V a aprovação do Vaticano à política de saque, genocídio e escravatura que se esperava tivesse como ponta de lança o Infante D. Henrique, logo que se soube da descoberta do Continente Americano (que ainda se julgava tratar-se da Índia), o Papa Alexandre VI foi expedito em exarar um édito [papal] cujas intenções podem ser resumidas no seguinte parágrafo (extraído do documento original): «A Fé Cristã e a Religião Católica será especialmente exaltada no nosso tempo, espalhada e engrandecida por todas as partes do mundo, a salvação está ao alcance de todas as almas, as nações bárbaras serão subjugadas e conduzidas à [verdadeira] fé.» (Wayne Ellwood, 1991)
Na obra «Breve História da destruição das Índias», da autoria do padre Bartolomé de Las Casas (que remava contra a corrente ideológica que conduziu o colonialismo europeu), pululam descrições tão pungentes quanto abomináveis dos massacres perpetrados pelos espanhóis – com o aval do poder secular e do poder temporal. O fanatismo religioso desta força invasora assumia contornos grotescos. Mesmo antes das fogueiras da Inquisição começarem a queimar indígenas em massa com o intuito de purificar pelo fogo os seus corpos e almas de pagãos, já o grupo de Cortez passou dias a enforcar mexicans separados em grupos de 13 – que, de alguma forma, para os algozes simbolizava uma infame homenagem a Cristo e aos 12 apóstolos!...


Quando Pizarro e os seus (180) homens conseguiram aprisionar o imperador inca Ataualpa, este último negociou o seu resgate fazendo-lhes uma proposta irrecusável: em troca da sua liberdade ordenaria aos seus súbditos que trouxessem de todo o império ouro e prata em quantidades suficientes para encher duas divisões (uma delas era onde se encontrava aprisionado, e marcou a quantidade acordada até à altura em que conseguia esticar o braço em direcção ao teto). Demorou 7 meses, mas, ao contrário dos espanhóis, os incas cumpriram a sua parte do acordo.
Ao verem aquela imensa fortuna em ouro e prata – num total calculado em 24 toneladas, das quais 6 eram de arte sacra e de raros objectos de adorno-, os espanhóis extasiaram e descreveram-na como «saída de um sonho! Os objectos pareciam demasiado belos e resplandecentes (como) para terem sido feitos por mãos humanas!» (sic) Mas como a sua ganância rapace e o pragmatismo administrativo não podiam fazer concessões à sensibilidade estética e, menos ainda, ao respeito pela liberdade de culto, todo aquele ouro foi logo derretido e convertido em barras (das quais apenas um quinto foi enviado para Espanha…). Numa das maiores e mais explicitas demonstrações formais de xenofobia e de prepotência colonialista, Ataualpa foi executado (em 1583) sob a acusação de «ser um inca»(sic)… Como demonstração de “clemência magnânime”, os espanhóis revogaram a traiçoeira sentença de matar o imperador queimando-o vivo, contentando-se em estrangulá-lo...

Neste contexto, a hecatombe subsequente era inevitável. ( só no Brasil, em 500 anos de ocupação europeia, uma população estimada em 5 milhões de ameríndios ficou reduzida aos 200 mil actuais…)
PB

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