http://www.icn.pt/pnc_flora
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Um dos exemplos mais dramáticos e melhor documentados de como os interesses das corporações são opostos aos das populações e de como estas últimas, por mais pobres que sejam, podem organizar-se e fazer valer os seus direitos, ocorreu na Bolívia, na viragem do novo milénio.
Decorria o ano de 1999 quando o governo boliviano - fortemente pressionado
pelo BM e pelo FMI - decidiu privatizar o sistema de abastecimento público
de água. A cidade de Cochabamba (a terceira maior do país) foi a escolhida
para iniciar o processo. Quem ganhou o concurso público foi a empresa Aguas del Tunari, que é apenas um ramo de um consórcio (sedeado em Londres) chamado International Water Limited (IWL) que, por sua vez, está sob controlo da corporação Bechtel (sedeada em S. Francisco, EUA).
A Bechtel é a cabeça de um conglomerado que, só no ano de 1998, 12,6 mil
milhões de dólares. No ano seguinte aumentou os seus lucros para 14 biliões
de dólares (que é quase o dobro do PIB da Bolívia). Estes lucros obteve-os
explorando o abastecimento de água a 6 milhões de pessoas em vários países
e, na altura dos acontecimentos que irei de seguida relatar, preparava-se para conquistar mais um milhão de clientes.
Fontes não oficiais junto do governo boliviano afirmaram que a água de
Cochabamba tinha sido negociada por 200 milhões de dólares, ficando a Bechtel na posse até da água da chuva - que população passou a ser proibida de armazenar; até as comunidades rurais daquele município não podiam utilizar gratuitamente a água dos seus poços nem os seculares sistemas de rega. Não é este um género de poder que atribuímos aos deuses?!
A corporação tinha avidez em recuperar o seu investimento o mais cedo
possível, aumentado logo as taxas até 35%. Os cochabambinos foram
drasticamente afectados por estas medidas. A maioria (dois terços) da
população vive abaixo do “limiar de pobreza”. O salário mínimo na Bolívia
não chegava aos 60 dólares. Muitas famílias que tinham rendimentos médios
na ordem dos 100 dólares mensais passaram a ser obrigados a pagar até 20
dólares pelo abastecimento de água. A onda de indignação popular cresceu ,
tomando a forma de greves, desobediência civil, manifestações - pacíficas
- nas ruas e, ante a recusa do governo em dialogar e rever a sua posição
(saindo em defesa dos mais desfavorecidos, como lhe competia), sucederam-se bloqueios de várias vias rodoviárias. O governo lidou com esta situação
declarando o estado de emergência sob lei marcial, e ordenou a carga dos
soldados sobre os manifestantes. As forças armadas não se fizeram rogadas, e, após dois dias a distribuir bastonadas e a lançarem gás lacrimogéneo sobrea multidão (tendo ferido 177 pessoas, duas das quais ficaram permanentemente cegas), decidiram disparar munição real. Um jovem de 17 anos, de seu nome
Victor Hugo Daza, recebeu um tiro na cara e morreu. Houve muitos outros
feridos; alguns ficaram paralíticos , outros acabaram por morrer nas semanas seguintes.
A Bechtel e o governo fizeram declarações públicas tão estapafúrdias quanto ofensivas, transferindo as responsabilidades dos acontecimentos para os narcotraficantes que, segundo eles, "financiaram as actividades agitadoras dos subversivos"(sic). É certo que o BM e o FMI mostraram-se igualmente inflexíveis nas suas posições de exploração dos pobres, mas convém perscrutarmos que tipo de governantes apara o jogo destes poderosíssimos piratas que usam fato e gravata.
Hugo Banzer era o presidente da Bolívia na altura dos referidos tumultos, mas já tinha ocupado a cadeira do poder entre 1971 e 1978 e fê-lo de forma
autoritária, praticamente ditatorial. Por isso não lhe deve ter custado muito
negar a população queixosa a maioria dos seus direitos civis, incluindo o de
se juntarem mais de quatro pessoas em espaços públicos e o de terem acesso ainformação livre de censura. Os líderes da revolta viram-se assim vítimas de arbitrariedades violentas, tais como: perseguições, detenções ,
torturas, ameaças às famílias e deportações para cadeias no meio da selva.
O governo de emergência instituído por este ditadorzeco incluía, além dele
próprio, o governador do estado (que antes da crise era chefe da polícia
local), Walter Cespedes, e o presidente do município, Manfred Reyes Villa.
Suponho que esta reunião dos "irmãos metralha" também serviu para matar
saudades dos tempos em que eram universitários, visto que todos eles foram diplomados pela School of the Americas em Forte Benning (Georgia), reputada por providenciar a militares estrangeiros um treino muito especializado nas
técnicas de terror despótico, tortura e assassinato. (Por lá passaram, entre
muitos outros criminosos, militares indonésios de alta patente, que aplicaram
esses doutos conhecimentos nos massacres aos timorenses durante as
administrações de Bush pai e de Clinton... "God bless America!"...)
Os populares acabaram por vencer. Sem terem disparado um único tiro de
retaliação, encurralaram e expulsaram os maus governantes, dando uma
lição ao mundo - se é que estamos receptivos a aprender as lições
correctas...
Esta vitória esperançada provavelmente não teria sido possível sem a ajuda
concertada que afluiu de vários sectores da sociedade de vários países (mais
uma vez, a liberdade e rapidez de comunicação da Internet foi essencial) e
que se reuniu na coligação chamada Coordenadora de Defesa da Água e da Vida
(CDAV).
O abastecimento de água em Cochabamba é actualmente assegurado por uma empresa
pública de gestão popular. Herdaram-na cheia de problemas, mas a nova
administração está a dar conta do recado. A luta apensa começou, pois,
antes de vender a água à Bechtel, o governo deposto tinha privatizado quase
todos os sectores essenciais à estabilidade económica do país (ex.:
petróleo, electricidade, telefones, caminhos de ferro, etc...) e o povo
quere-los de volta, tentando renegocia-los pacificamente.
Nem o BM, nem o FMI, nem a Bechtel se deram por vencidos -e têm a seu favor
os meios de poder coercivo - menos a razão. As duas primeiras instituições
cortaram os subsídios destinados à melhoria das infra-estruturas básicas, e
a corporação vilã exige uma indemnização multimilionária por perda de
contrato. (Claro que não menciona que o seu administrador destacado para a
Bolívia, antes de fugir, deu um desfalque nas contas bancárias da empresa,
roubou todos os computadores que já existiam antes da Bechtel tomar posse;
destruiu a base de dados essencial á sua gestão e deixou contas para pagar
- suportadas pelos actuais administradores pobres - no valor de 150 mil
dólares.) A Bechtel apoia-se no Tratado Norte Americano de Livre Comércio
(NAFTA) que, no capítulo 11, refere as normas sobre os investimentos
bilaterais,++++
Mas não teria meios legais para vencer este processo se uma empresa do seu
conglomerado/consorcio não estivesse sediada na Holanda, país que, de forma
muito conveniente, mantém com a Bolívia um tratado de investimentos
bilaterais. O diferendo será resolvida no Tribunal Internacional para a
Resolução de Disputas de Investimentos/investidores (?) que é gerido pelo
BM...
Os bolivianos simplesmente não têm recursos necessários para pagarem a
ultrajante indemnização pretendida pela Bechtel, nem o povo pode ser
responsabilizado pelo contrato desonesto celebrado entre os políticos e os
executivos que dava "garantias" à Bechtel de ter um retorno anual de 16%
sobre os seus investimentos iniciais - todos sabiam que isso só era
possível pedindo aos pobres para pagarem mais do que poderiam.
Bechtel (25 milhões de indemnização
Os que tombaram nesta luta merecem um epitáfio melhor do que o que está inscrito na lápide de John Keats (no cemitério protestante de Roma): «aqui jaz alguém cujo nome foi escrito na água»…
«O custa da vida sobe e sobe e o valor da vida desce e desce» - anónimo Colombiano (segundo Eduardo Galeano , 1995)
++++A Canadian Methanex Corp. invoca o mesmo documento para suster um processo judicial contra o Estado da Califórnia por este ter tomado medidas para proteger a sua população do químico cancerígeno MTBE com que a referida empresa canadense tem contaminado as águas californianas.
É inadmissível que em Portugal, nos tempos hodiernos, seja interdito aos homossexuais doarem sangue nos hospitais porque essa orientação sexual, por si, é considerada «de risco»... Ainda por cima, todo o sangue é analisado antes de ser administrado.
Antes mesmo de os toxicodependentes juntaram-se ao topo da lista dos "grupos de risco", Ronald Reagan e o seu comparsa Pat Buchanan (o tal cretino que dizia que “os homosexuais andavam a brincar com a natureza”…)insurgiram-se contra a falência moral da sociedade (norte) americana , apenas mostrando alguma compaixão para com as «vítimas inocentes» (sic) que contraíram o HIV em transfusões de sangue.
João Paulo II proibiu o uso de preservativos aos católicos e o Cardeal do Rio de Janeiro dava hossanas por este misto de "castigo divino" e de "vingança da natureza"...
Mal Bento XVI lhe sucedera, na véspera do Dia Mundial da Sida, o chefe do conselho de saúde pontifical do Vaticano, enfatizando que a obra de João Paulo II seriam continuada, afirmou aos média que «a sida é uma patologia do espírito e, como tal, fruto da imoralidade».
Quando ainda era apenas Ratzinger, demasiadas vezes disse que
considerava a homossexualidade como uma disfunção abjecta. Mas agora que é
para Bento XVI moderou o discurso em relação a todos os seus ódios de estimação.
Nas palavras atribuídas a Jesus Cristo não existe quaisquer referências à homossexualidade, mas a bíblia repetidamente condena esta prática (ex.: Livro do Levítico [18:22], S. Paulo [aos Coríntios 6:9-10; aos Romanos 1:26-27]), assim como alguns dos principais doutores da Igreja, tais como S. Agostinho.
«Quem renuncia à liberdade para ter segurança, não merece nem uma nem a outra.» – Benjamin Franklin
«A liberdade vive no coração das pessoas. Quando aí se encontra, não são necessárias nem leis nem constituições para a afirmar. Mas quando desaparece dos nossos corações, nenhumas leis ou constituições poderão poderão fazer com que volte a medrar em nós.» - Abrahan Lincoln
Ironicamente, quando Bento XVI fez a sua primeira visita ao Brasil (em Maio de 2007), os média brasileiros aproveitaram a ocasião para entrevistar Leonardo Boff, dando um novo alento à difusão das ideias (cristã) reformistas que o Vaticano considera ameaçadoras.
Apesar do Brasil estar dilacerado por gravíssimos problemas ecológicos e sócio-económicos, à sua chegada Bento XVI declarou que o que mais o preocupa nesse país é a perda de asseclas (católicos) que se têm bandeado aos milhares para as igrejas evangélicas de tradição estadunidense. Nas declarações seguintes, o Papa, pretendendo convencer os brasileiros com um truque barato de prestidigitação Exegética, asseverou que a evangelização católica por aquelas latitudes tropicais não se fez à custa da destruição das culturas indígenas. Pois, mas já ninguém pode ignorar que os jesuítas, na sua caça às almas, pretendendo uma despótica uniformização cultural (por mais que uns poucos até tivessem tentado uma abordagem paternalista com os ameríndios), não recorreram apenas ao verbo bíblico, tendo as armas e as doenças (com destaque para a varíola) servido de poderosos instrumentos evangelizantes.
Confirmando o fracasso desta representação diplomática do Vaticano, o Papa foi pedir “lulas” ao Presidente da República Barsileira, apresentando-lhe uma proposta para uma concordata destinada a minar a laicização do Estado. Concretamente, os pedidos requisitados por Bento XVI (pelo menos o que transpirou para os média) foram: voltar a obrigatoriedade do ensino do catolicismo nas escolas públicas; isenções fiscais para a Igreja Católica; e alterações na legislação que deveria negar o direito ao aborto e o acesso livre aos contraceptivos. O «não!» de Lula teve todo o impacto de um colossal pirete feito pelo próprio Cristo Rei do Rio de Janeiro. embrulha lá, ó nazi FDP!
É elucidativo que a palavra pânico (ou seja, o medo mais agudo, aquele que escapa ao nosso controlo emocional) tenha a sua raiz etimológica no deus Pan, que, para os gregos, representava as forças silvestres, o sexo, a paixão e outras manifestações do hedonismo libertário e telúrico (tendo, pois, grande afinidade com o deus Dionísio). Pan assumia a forma física de um sátiro e tocava uma flauta, como se esse instrumento fosse as cordas vocais dos elementos vegetais; a voz de Gaia (ou, para ser mais fiel à lenda, essa flauta foi elaborada com uma cana que resultou da transformação em planta da ninfa Syrinx, após ela ter consumado uma relação sexual com Pan).
As pessoas ficavam horrorizadas com a aparência e com o apelo misterioso da música de Pan.
A imaginação masculina conjurava e projectava sobre a conduta feminina os seus próprios demónios, ao menor sinal de realização independente por parte delas. A Grécia antiga, considerada o "berço da democracia" (algo de que eu discordo), não era excepção a esta regra. Vejamos: quando hoje falamos em homossexualidade feminina, utilizamos as designações «lesbianismo» e/ou «relações sáficas». Pois bem, tal são alusões à poetisa grega chamada Safo (séc. VII a.C.) que vivia na ilha de Lesbos, onde tinha uma escola para mulheres. Estas eram essencialmente ensinadas a ter algum domínio sobre as suas paixões, a tornarem-se mais sensuais e a explorarem o prazer físico (começando por conhecer melhor a sua anatomia, passando por técnicas de relações sexuais – adaptadas a ambos os géneros!).
Em Lesbos as iniciadas eram livres para explorar e potencializar as idiossincráticas orientações sexuais e a libido. Obviamente, às mulheres que assim o desejassem, mesmo que por mera curiosidade, era permitido ter relações homossexuais (ou unissexuais, se preferirem o preciosismo técnico). Mas as heterossexuais convictas, recebiam um treino semelhante, a fim de virem a tirar o melhor partido da intimidade com os homens.
Para a história (escrita exclusivamente por homens até ao séc. XX) ficou a ideia que Safo era uma depravada empenhada em converter todas jovenzinhas ingénuas em lésbicas.
Ainda na Grécia, durante o séc. V a.C. , quando Péricles reinava Atenas (durante o auge politico e intelectual dessa cidade), as mulheres tinham o direito de, apenas durante uns dias de Inverno, darem rédea solta às suas paixões e aos apelos telúricos. A fim de honrarem Dionísio (deus do vinho, de todas as coisas deliciosas e do êxtase espiritual), subiam o monte Parnaso (sobranceiro ao oráculo de Delfos) e celebravam a sua religiosidade e feminilidade com danças, música, poesia, ágapes campestres e outras manifestações de convivência emancipada. Esta é a versão mais consensual dos actuais historiadores. Mas os atenienses que eram excluídos destas festividade "bizarras" cogitavam o pior e não se coibiam de maldizer as suas companheiras, como se não bastasse oprimi-las quotidianamente. Assim se consolidaram os prolixos e tenebrosos rumores que aludiam a esses rituais femininos como se se tratassem de orgias, em que divindades silvestres convertiam respeitáveis e comedidas donas de casa em ninfomaníacas aluadas, putas ébrias e comedoras de carne crua…
PB
«Se há algum culto que merece a nossa participação é um culto da vida, cujo ritual é o prazer e cujo mito é a biografia íntima de Gaia.» – Richard Heinberg
O homem necessita reconciliar-se consigo e com os seus semelhantes para se reconciliar com a natureza., pois «os desequilíbrios (...) tão frequentemente observados hoje nos nossos universos de metal, vidro e betão são (...) marcados por uma profunda ruptura que se consumou (...) entre o homem e a natureza», ficando nós «bruscamente amputados do nosso ambiente natural e cultural. Porque se o homem cria ambientes novos inteiramente artificiais, estes irão marcá-lo, por sua vez. O ambiente não é neutro: suporte da nossa existência, ele deverá manter-se o cordão umbilical que nos liga a essa natureza em que vivemos e que nos contém. Esquecê-lo seria expor-se aos mais graves perigos. Entre o computador e o castanheiro, se fosse preciso escolher, seria o castanheiro o que se deveria conservar.» - Jean-Marie Pelt (1996)
«A nossa aventura não consiste na manipulação da "natureza inorgânica", mas na relação inefável com um mundo animado e inteligente que só um olhar mito-poético renovado pode captar.» - David Watson
«O homem branco deve os seus avanços tecnológicos ao desinteresse que mostra pela via espiritual e pelos usos e costumes de todas as coisas vivas. O desejo de posse material e de poder tornou o homem branco cego aos sofrimentos que inflige à nossa mãe nutriente, a Terra, na sua busca daquilo a que chama de recursos naturais.» - Thomas banyacya (guia espiritual Hopi)
«Na ecologia académica (…) as únicas coisas que se fazem nos trabalhos de campo é medir e recolher amostras. A contemplação profunda da natureza infelizmente é considerada perda de tempo, mas, na realidade, é decisiva para a nossa compreensão do planeta e para o nosso desenvolvimento pessoal.» - Stephan Harding (1996)
«Vivemos numa sociedade que premeia e concede honras a bandidos corporativos – directores das grandes empresas que directa ou indirectamente saqueiam os recursos da Terra e procuram acima de tudo os lucros dos accionistas – ao mesmo tempo que sujeita os pobres a um sistema de "justiça" arbitrário e brutal. (…) Temos de reordenar a sociedade para que cada pessoa seja vista como sagrada e valiosa e que NENHUM homem esteja acima da lei, não importa quantos políticos tenha comprado.» - Michael Moore (2001)
A Inquisição Reformulada
«Quando a religião e o Estado limitam a nossa liberdade de expressão, inicia-se a matança da humanidade» - Salmon Rushdie
Oficialmente, a Inquisição espanhola é extinta na primeira metade do séc. XIX (1838), com um balanço de aproximadamente 8 milhões assassinatos. Há quem defenda que essa instituição abominável apenas reformulou os seus métodos e o seu nome, passando a agir mais discretamente com o nome de Congregação para a Defesa da Fé. Durante muitos anos (correspondentes à Guerra Fria), um dos seus principais mentores e líderes mais activos e implacáveis foi (e continua a ser) o Cardeal Joseph Ratzinger – recentemente eleito Papa, tendo adoptado o nome de Bento XVI. Como cão de fila favorito de João Paulo II, tornou-se num dos pesos pesados do ultraconservadorismo eclesiástico empenharam-se numa cruzada contra todas as ideias reformadoras do catolicismo, que pudessem aproximar a Igreja da mensagem de Cristo e, como tal, das necessidades dos mais pobres e oprimidos, sem se limitarem a paliar ligeiramente alguns dos sintomas que levam à miséria a maioria da população mundial. Os neoinquisidores do Santo Ofício (cuja cartilha é a única forma de casuística que admitem, embora a sua sinistra metodologia tenha mudado significativamente) tiveram como principal alvo o combate ao comunismo, e viam o movimento da Teologia da Libertação como um cancro "comunista" que era necessário arrancar do seio da Igreja. Muitos dos sacerdotes e freiras (principalmente os que trabalhavam em países latino-americanos sob ditaduras militares ao serviço do imperialismo norte-americano) que, por imperativos de consciência, decidiram desobedecer ao Vaticano a fim de tentarem defender os pobres que estavam a ser explorados e chacinados, foram silenciados pelos seus superiores hierárquicos, ou abandonados à sua sorte (isto significa que, retirada a confiança e a protecção do Vaticano, os militares e paramilitares de extrema direita poderiam assassinar os "soldados de Deus vermelhos" com total impunidade).
CIA e outras agências de espionagem e de terrorismo internacional ligadas a regimes fascistas tornaram-se os principais informantes do Vaticano.
Em 1993 e em 1996 o Cardeal Joseph Ratzinger marcou publicamente a sua convicção de que os actuais apelos ao pluralismo religioso (ou, pelo menos, o respeito por esse direito) representa uma ameaça ao Catolicismo Romano semelhante ao que foi a Teologia da Libertação na década de (19)80. (Gerald Renner, 2000)
Assim, a Congregação para a Doutrina da Fé continua com a sua cruzada para silenciar todos os clérigos e teólogos que pretendem discutir os seus dogmas monolíticos/ férreos, mas tornou-se mais eficiente e célere na sua repressão totalitária.
Uma das suas últimas vítimas foi o padre jesuíta Roger Haight que publicou um livro («Jesus, Symbol of God») no qual admite que Cristo, sendo indispensável, ou pelo menos incontornável, para os cristãos, não é a única via para a salvação da alma no que concerne ao todo da humanidade. Ou seja, a salvação espiritual pode ser conseguida através de outras religiões e até de outras divindades. E as suas afirmações polémicas de ficam por aqui.
Analisou as diferenças entre os evangelho sinópticos (Mateus, Marcos e Lucas) , que são coerentes na sua apresentação de Cristo, não como um ser divino/uma divindade, mas como um ser humano muito especial com uma ligação directa a Jeová e por Este glorificado.
Na cristologia dogmática do Vaticano prevalece a versão do apóstolo João (que Haight não contesta) , em que Cristo é enviado, desde o céu, por Jeová para o meio dos mortais, na qualidade de divindade encarnada. (David Toolan, 2000)
Ratzinger e os seus conselheiros foram expeditos em activar os mecanismos necessários para que a carreira académica do Sr. Haight, como docente na Western School of Teology (Cambridge, Reino Unido) chegasse a um beco sem saída - a não ser a rua… Outros 5 clérigos hereges que simpatizavam com as ideais do Haight (aliás, o seu livro, que tanta azia provocou ao Vaticano, foi aprovado pela maioria dos teólogos) foram impedidos de subir na carreira na mesma universidade.
O conceituado académico Jon Sobrino (que vivia em El Salvador nos anos mais sangrentos desse país, chegando até a ser consultor teológico do Arcebispo assassinado Óscar Romero) foi alvo da censura da Congregação para a Defesa da Fé por ter mostrado interesse e preocupação em colocar a Igreja ao serviço dos pobres e de todas as vítimas da injustiça dos poderosos – enfatizando que Cristo fez o mesmo, segundo os evangelhos -, do que viver em opulência e em conluio com as forças da opressão, enquanto propagandeia a encomioza divinização do Messias como uma estrela-títere do Vaticano. (Claro que Sobrino não usou uma linguagem tão forte, mas esta era a ideia que ele subscrevia).
«Disse-lhe Jesus: se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; vem e segue-me.» (Mateus 19:21)
A propósito do Arcebispo Romero, este era um clérigo muito conservador em sintonia com a política do Vatican – com destaque para a sua fobia anti comunista (que motivou essa instituição confessional a apoiar tacitamente o holocausto nazi e, ao ficar claro que a Alemanha de Hitler tinha a guerra perdida, criou redes de protecção e fuga para os nazis passarem o resto das suas vidas impunes e bronzeados sob o sol da América Latina, com destaque para a Argentina do general Perón; depois, com João Paulo II à cabeça, o Vaticano apoiou activamente todos os regimes de terror que Washington implementou na América Latina durante a Guerra Fria).
Romero parecia algo indiferente à exploração desumana e aos morticínios arbitrários dos elsalvadorenhos pobres, até que um padre seu amigo foi assassinado. A dor traumática dessa perda teve o mérito de abrir os olhos a Romero, tornando-se este num corajoso defensor da sua vitimada congregação. Até foi ao Vaticano para falar com João Paulo II sobre os problemas que dilaceravam o seu país, mas o Papa, nos breves segundos que lhe consedeu contrariado, apenas lhe retorquiu «cuidado com os comunista! Cuidado com os comunista!»…
Já sabemos como terminou a missão de Romero…
Entre as vítimas mais conhecidas da Congregação para a Defesa da Fé, estão Pierre Teilhard de Chardin (); Leonardo Boff ("ponta de lança" da Teologia da Libertação); Jaques Dupuis ( teólogo jesuíta de renome); Tissa Balasuriya (padre jesuíta do Sri Lanka)
Nas fogueiras "purificadoras" substituíram os corpos pelas ideias, tudo fazendo para proibir livros e debates progressistas nas editoras, livrarias, universidades e nos média controlados pela Igreja.
Agora que é Papa, Ratzinger continua a hostilizar outros credos e ideologias, fazendo recuar os esforços ecuménicos de muitos sacerdotes fartos de violência sectária.
A 11 de Agosto de 2004, na véspera das mais importantes eleições político-partidárias dos EUA, o Cardeal Ratzinger enviou uma missiva oficial aos bispos católicos radicados no coração do império, dando-lhes conta das suas directrizes no sentido de influenciarem na eleição dos candidatos que o Vaticano considerava mais convenientes ter em Washington. Assim, ficaram estabelecidas severas linhas de conduta no que toca às relações da Igreja com os políticos e os seus correlegionários que fossem apologistas do direito ao aborto (legalizado nos EUA, mas que as administrações republicanas têm tentado anular) e à eutanásia. Para Ratzinger estas práticas são imorais ao ponto dos "prevaricadores" compactuarem com o próprio Satanás!... Os sacerdotes ficaram, então, proibidos de comungar a santa eucaristia com esses "agentes do demónio".
Quanto a pronunciarem-se publicamente sobre assuntos que considerava de somenos importância (ex.: pena capital e guerra no Iraque), Ratzinger dava aos católicos o direito à liberdade de opinião…
(Curiosamente, apesar da administração Bush ser responsável pela morte de dezenas, ou mesmo centenas de milhar de pessoas no Médio oriente; praticar a tortura arbitrariamente; suprimir direitos civis essenciais até aos cidadãos estado-unidenses; entregar o país à ganância das corporações, cortando radicalmente as verbas estatais para os serviços públicos; recusar-se a assinar o protocolo de Quioto; etc…, conseguiu um aumento de 6% dos votos dos católicos na sua reeleição…)
Esta carta foi coassinada pelo Arcebispo Tarcisio Bertone e teve o aval de João Paulo II.
Simultaneamente, este trio de cabecilhas do Santo Ofício (que provavelmente acabarão todos canonizados…) preparava outra luctífera estratégia para os EUA: o encobrimento do escândalo relacionado com os padres pedófilos.
Furibundo porque alguns padres, ao não conseguirem conter a indignação pela promiscuidade da igreja com a política secular, divulgaram aos média as suas directrizes para o circo eleitoral, Ratzinger enviou aos membros do Clero norte americano uma carta tão secreta que ameaçava de excomunhão todos os que ousassem torná-la pública, bem como às informações relacionadas com os casos de pedofilia sacerdotal/eclesiástica. Não obstante, essa carta chegou às mãos de jornalistas afectos ao jornal «The Observer», que a consideraram "um pratinho cheio"… (Ver a sua edição de 25 de Abril de 2005) .
Reclamando o «direito ao segredo pontífice» (o que denuncia estar a actuar em total cumplicidade com João Paulo II), Ratzinger decretou a obrigatoriedade da Igreja obstruir a justiça (laica), a fim de conduzir os seus próprios inquéritos internos. Segundo ele, as informações obtidas desta forma deveriam ser «mantida confidenciais até 10 anos após as vítimas terem atingido a maioridade» (sic). O que é o mesmo que esperar até que os processos prescrevam na justiça civil. Por serem potencialmente desastrosos para a credibilidade da Igreja, esta instituição queria-os manter longe dos investigadores policiais e dos magistrados que não representassem o poder temporal. Dentro da jurisdição eclesiástica, Ratzinger ficou encarregue de instituir tribunais específicos. (Jamie Doward, «The Observer», Abril de 2005) Como líder da Congregação para a Doutrina da Fé, foi ainda designado pelo Vaticano como o "ponta de lança" – com licença para excomungar - contra os padres acusados de abusos sexuais. Não foi tornado público quais os seus nomes e que tipo de punição que a Igreja lhes impôs, mas sabemos que alguns sacerdotes pedófilos (sobretudo os relacionados com escândalos nos EUA), não apenas encontraram refúgio no Vaticano, como ainda mantêm altos cargos eclesiásticos…
Há ainda o caso paradigmático do frade mexicano Juan Vaca que, juntamente com outros 8 antigos membros dos Legionários de Cristo (segundo Saul Landau, esta é uma organização católica «ultra conservadora fundada no México, em 1941, por frei Marcial Maciel»), há anos que clama por justiça (secular e temporal) devido aos abusos sexuais perpetrados pelo frei Maciel. Devido à sua condição de pobres entregues (em regime de internato) aos "cuidados" da Igreja, nas décadas de 40, 50 e 60, muitos jovens membros dos Legionários de Cristo viram as suas vidas transformadas num inferno quotidiano às mãos do pedófilo frei Maciel. Já desde o tempo do papa Benedito XVI que os mais altos dignitários do Vaticano ignoram estas queixas. Bento XVI segue a mesma política. Acresce que frei Maciel era amigo pessoal de João Paulo II, para além de há muito contar com a protecção das autoridades mexicanas (que muito lhe agradecem a ajuda prestada na luta genocida contra os "rebeldes vermelhos" e os progressistas…) . Isso torna-o praticamente intocável. (Algo de semelhante passa-se na Índia com o guru charlatão e pedófilo Sai Baba…)
O habitualmente infenso e abespinhado Tarcisio Bertone, treinou a sua hipocrisia mais "perplexa" para declarar aos média que « não vejo qualquer razão para um sacerdote denunciar à policia colegas tidos como abusadores sexuais» (Saul Landau, «Weekend Edition», 7 de Maio de 2005)
Os advogados das vítimas de abusos sexuais por parte dos membros do Clero nos EUA intimaram a prestar declarações em tribunal o padre e docente universitário John Beal. Este, apesar de arriscar a ser excomungado, confirmou, sob juramento, há muito ter conhecimento desses rumores e acusações que pesam sobre membros do Clero com os quais ocasionalmente priva.
Recentemente o Vaticano excomungou (latae sententiae) vários clérigos (liderados pelo ex-arcebispo zambiano Emanuel Milingo, fundador da «Organização Padres Casados Já») por defenderem o direito a exercerem o sacerdócio legítimo enquanto estão casados. (Milingo teve a suprema ousadia de ordenar alguns padres e até bispos estado-unidenses que têm esposas!)
A ordenação de mulheres é outro assunto tabu para o Vaticano, assim como não querem ouvir falar de direitos igualitários para os homossexuais.
PB
Os Protocolos dos Sábios do Sião
Uma nefasta farsa intitulada «Os Protocolos dos Sábios do Sião» (adiante designados por PSS) desempenhou um papel determinante na consolidação do anti-semitismo na era Industrial, já que deu “legitimidade” ideológica a muitos carrascos xenófobos para definirem os Pogroms e as campanhas de aniquilamento de judeus que culminaram no holocausto nazi.
Os PSS foram forjados pela Okhrana (a polícia secreta da Rússia czarista) e referem-se a uma alegada (e completamente fictícia) reunião clandestina de líderes judeus em Basileia (Suiça) no ano de 1897, pretendendo reproduzir as respectivas actas que constituem 24 discursos correspondentes a outros tantos passos na sua sinistra estratégia para dominarem o mundo, em que, vestindo a pele de cordeiros, fomentam a desordem, o descrédito das instituições que representam o poder ligadas aos cristianismo, até que um déspota semita assumisse as rédeas da política, da economia e da religião global.
Os seus falsificadores pretenderam imprimir alguma credibilidade a este pseudo documento acrescentando-lhe nomes verdadeiros de figuras públicas e eventos mediáticos a que estas estiveram associadas. Assim, convenientemente, a Okhrana atribuiu a autoria dos protocolos ao Concelho de Sábios do Sião liderados por Theodor Herzl, fazendo coincidir a data dos falsos documentos com o Congresso de Basileia. Aí, efectivamente, reuniram-se 204 delegados judeus de várias nacionalidades, com o propósito de fortalecer o movimento político sionista, como um poderoso lóbi que deveria garantir ao seu povo um regresso maciço à “terra prometida” na Palestina.
Ao contrário do que os difamadores anti-semitas querem fazer crer, essa reunião nada teve de secreta, sendo aberta ao público interessado e a imprensa foi convidada a assistir.
Os PSS foram editados pela primeira vez de forma clandestina e apócrifa em 1897, sendo redigidos em francês, o que reforça as suspeitas de que o texto foi adaptado, adulterado e divulgado por Piotr Ivanovich Rachkovskii, o chefe da delegação francesa (sedeada em Paris) da Okhrana, que era useiro e vezeiro na publicação de folhetos intriguistas a par da sua perseguição implacável aos emigrantes russos em solo francês. São conhecidos outros oprobiosos folhetos e opúsculos que, recorrendo à mesma fórmula que seria empregue nos PSS, Rachkovskii tinha posto os seus homens a distribuir aos incautos populares.(Há, por exemplo, um de 1892 que pretende denunciar os perigos da anarquia e do niilismo.)
Em 1903 os PSS foram publicados no jornal de S. Petesburgo, cujo director (um fascista anti-semita) “abalizou” a sua “autenticidade”.
(Logo em 1898 um russo, cuja identidade se presume ser Mathieu Golovinski, tentou, sem grande sucesso, usar os PSS, como parte da sua estratégia para destilar ódio por toda a sociedade russa contra os judeus, K. Marx, C. Darwin, F. Nietzche…)
A sua versão integral compilada em forma de livro (integrados num tomo intitulado « O Grandioso dentro do Pequeno») surgiu em 1905, da autoria do professor Segei Nilus que era um cristão ortodoxo muito próximo do czar Nicolau II, e temia a laicização da sociedade preconizada pela ameaça bolchevique e pelo guru do ateísmo político, Karl Marx, tanto quanto temia a influência do carismático Rasputin junto da família imperial russa. Além disso, o pio e tacanho Nilus sofria dificuldades financeiras e culpava os judeus por isso.
Através da influência de Nilus, a Igreja Ortodoxa de Moscovo exigiu que os PSS passassem a ser lidos nas suas igrejas, como se se tratassem da continuação do Livro das Revelações/Apocalipse.
Os ultrareaccionários da «União da Nação Russa» que apoiavam a Dinastia Romanov, opondo-se à revolução, à instituição da Constituição e da Duma, necessitavam de angariar e unir simpatizantes da sua causa em torno de um inimigo fácil que, historicamente, deixasse um rasto de escândalos escabrosos que a maioria acreditava sem questionar a sua veracidade.
Os judeus encarnam na perfeição o papel de bodes expiatórios pelo menos desde que os gentios cristãos se afastaram, em fatal litigio, da ortodoxia judaica. Os últimos evangelhos canónicos a serem escritos reflectem bem essas divergências. Por ex., no Evangelho Segundo (ES) João, os escribas (talvez esquecendo-se de que o seu messias também era judeu…) colocam na boca de Cristo a afirmação de que os judeus são filhos do diabo e apenas fazem a vontade deste último na Terra. O ES Marcos mostra-nos uma versão de Cristo pouco pacifista, misericordiosa, tolerante e conciliatória, chegando ao ponto de ordenar aos seus seguidores para que trouxessem á sua presença os seus opositores (judeus) e que, ali mesmo, os matassem!...O Novo Testamento atribui aos judeus a principal responsabilidade pela crucificação de Cristo.~~~
~~ Aquele que é provavelmente o actor mais poderosos de Hollywood e um dos católicos (fundamentalista) mais famosos do mundo, Mel Gibson, defendeu-se das críticas de anti-semitismo evidentes no seu filme «A Paixão de Cristo», asseverando que apenas tentou reproduzir o que está escritos nos evangelhos canónicos, com a supervisão de especialistas independentes. Em 2006 o verniz estalou num escândalo esclarecedor… Um polícia de trânsito apanhou Mel Gibson embriagado enquanto conduzia um automóvel em via pública. Enquanto o oficial da Lei lhe pedia os documentos, a “mega estrela”, com arrogante azedume, perguntou-lhe «então mas você é judeu?! Os judeus foram os responsáveis por todas as guerras conhecidas!» Depois tentou intimidar o polícia dizendo que seria melhor não se meter com ele, pois era o dono de [quase] toda Malibú …
Desde o imperador (romano) Nero e por toda a Idade Média, cada vez que a Europa sofria graves crises (ex.: peste negra) os judeus eram sempre culpabilizados e perseguidos.
Pouco mais de um século antes de os PSS serem forjados, a revolta francesa contribuiu de sobremaneira para a divulgação de teorias da conspiração anti-semita consolidadas em prolixa literatura que se tornou muito popular no velho continente.
Em 1797 o jesuíta francês Abbe Barruel publicou um texto em que garante ter sido a Revolução Francesa obra de uma conspiração franco-maçónica. Em 1806 essa teoria foi adaptada a fim de que os “maus da fita” na destruição da monarquia passassem a ser os judeus.
Em 1882 a União Banqueira Católica enfrentava a bancarrota, deixando muitas famílias francesas de classe média sem o seu esforçado e vital pecúlio, enquanto que os bancos judeus prosperavam.
A facção de extrema direita da Okhrana utilizou os PSS com o objectivo principal de manipular o frouxo Nicolau II, instigando-o a se insurgir e tomar medidas musculadas/draconianas contra os que pretendiam uma mudança de regime, afastando igualmente alguns dos seus principais conselheiros que eram judeus. Vivia-se um período muito conturbado, estando prestes a rebentar a Revolução Bolchevique.
Em 1905 Nilus afirmou que os PSS eram fruto de um congresso sionista. Mas em 1906 George Butmi diz que, afinal, resultam de uma reunião maçónica…
A fósmea paranóica e xenófoba que foi construindo os PSS acabou por misturar judeus, com marxistas/comunistas e com franco-maçons, o que demonstra que a má fé dos que abraçavam essas teorias se baseava em pura ignorância. (ex.: nos séculos XVIII e XIX numerosas lojas maçónicas recusavam a admissão de judeus por estes não aceitarem Cristo como o seu Messias.)
O facto de Karl Marx ter identificado/reafirmado os judeus como símbolos da burguesia decadente, liderando o movimento capitalista global, contribuiu igualmente para a tragédia etnocida anunciada.
Entre 1919 e 1921 calcula-se que uns 60 mil judeus foram massacrados pelo Exército Branco, e os PSS foram uma das principais fontes ideológicas que inspiraram essa tragédia.
Nicolau II chegou a receber do seu Ministro do Interior, Piotr Stolypin, um relatório em que expunha a fraude dos PSS, o que deixou o Czar desapontado e Nilus numa posição muito precária junto da corte. Mesmo vendo o seu mundo desmoronar-se, Nicolau III teve a dignidade de se retractar em relação ao apoio entusiasta que inicialmente dera à divulgação dos PSS, chegando, em contrição, a afirmar que «não podemos defender causas puras com métodos sujos». Não obstante, tudo indica que Nicolau III continuou a servir-se dos PSS, para instilar o ódio como táctica contra-revolucionária, pois nessa altura chamou para junto de si Rachkovskii, dando-lhe carta branca para a divulgação do vil texto.
A revolução russa consuma-se em 1917. No ano seguinte toda a família imperial russa é executada sumariamente.
Os mais reaccionários apoiantes do regime czarista que conservaram dinheiro suficiente para procurar a continuidade de uma vida de privilégios noutras paragens, fugiram para ocidente, espalhando-se por toda a Europa e levando com eles o germe infeccioso dos PSS, que “atestavam” a sua odiosa convicção de que os judeus tinham arquitectado a revolução russa. (Creio que foi então que surgiu o mito de que os comunistas comem criancinhas, não passando de uma adaptação de outro absurdo calunioso que dizia que os judeus utilizavam um bebé cristão como o principal ingrediente da ágape ritualizada Matzah.)
Em 1919, Alfred Rosenberg, que era um dos principais propagandistas do Partido Nacional Socialista germânico, encarregou-se de divulgar amplamente os PSS. (Nos primeiros 2 anos em que foram publicados na Alemanha, os PSS tiveram 5 edições…) Para os alemães, este texto dava continuidade aos populares «Escritos Alemães», em que o seu autor, Paul Botticher, culpabilizava os judeus por todos os males desta civilização.
Mais tarde, Joseph Goebbels, o Ministro da Propaganda do governo de Hitler, serviu-se exaustivamente dos PSS, nomeadamente para produzir um pseudo documentário que se tornou o seu trabalho difamatório anti-semita mais conhecido, que se intitulava « O judeu Errante».
Em 1920, Lucien Wolf (do Concelho de Deputados Judeus) mobilizou todos os meios ao seu alcance para denunciar a falsidade dos PSS.
No ano seguinte, um correspondente do «The Times» em Constantinopla chamado Philip Graves, numa série de 3 artigos (publicados a 16,17 e 18 de Agosto), prova à Europa mais esclarecida e liberal que os PSS não passam de um plágio de uma obra satírica – que não contém referências especificamente anti-semitas – intitulada «Diálogos no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu» (1884), cujo autor, um advogado parisiense chamado Maurice Joly, pretendia criticar, de forma mais ou menos velada, a política imperialista e despótica de Napoleão III. (O plano de acção concebido no inferno e defendido pela personagem que representa Maquiavel corresponde ao do líder de França à época.) A metáfora foi suficientemente clara para o imperador, e Joly foi mandado uns anitos para a cadeia.
Philip Graves deixou pouco espaço para dúvidas sobre a autoria dos PSS ser imputada a Rachkovskii, ao ter encontrado uma caixa de livros que pertencia ao referido oficial da Okhrana, onde estava o referido livro de Maurice Joly ao qual tinham sido arrancadas as primeiras páginas, começando a leitura (truncada) exactamente no ponto em que começa a ser plagiado para a elaboração dos PSS.
Antes da Okhrana plagiar e perverter a referida obra, o autor alemão Hermann Goedsche (que era secretário dos correios e espião da polícia secreta prussiana), sob o pseudónimo de Sir John Rectliffe, serviu-se igualmente dela para construir a sua série de novelas anti-semitas agremiadas sob o título «Biarritz» (1868), que relata uma hidra talmúdica (cujos lideres se reuniam, a cada 100 anos, no cemitério de Praga) que conspira para conquistar a dominância global, explorando e destruindo as outras etnias e culturas. No rescaldo da I Guerra Mundial, a profundamente humilhada Alemanha foi terreno fértil para estas absurdas teorias da conspiração que “incriminavam” os judeus, pois apresentavam uma explicação convenientemente simples e maniqueísta, com um demonizado inimigo culturalmente alóctone que era visto como a raiz do próprio mal; concomitantemente, desresponsabilizava todos os demais factores socio-económicos e oferecia um conforto psicológico aos alemães que preferiam aconchegar-se no papel de vítimas. Como agravante, os germânicos já tinham adoptado entusiasticamente o racismo académico de Gobineau, bem como a perversa e forçada interpretação da Teoria da Evolução de Darwin, a que chamavam “darwinismo social”. De recordar que, em 1879, no seguimento do popular livro de Wilhelm Marr intitulado «A Vitória do Judaísmo sobre o germanismo», criou-se a Liga Anti-semita…
Nos EUA, em 1935, Herman Bernstein também publicou uma elucidativa obra («A Verdade Sobre os PSS: a sua exposição integral»)em que desmascara os PSS, mas pouco pôde contra o clima de má fé anti-semita que estava mais propício a libar a peçonha ideológica de Henry Ford e de Adolf Hitler (o próprio Winston Churchil os defendeu, até que ficou provada a falsidade dos mesmos…).
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Ainda hoje este documento comprovadamente falso continua a disseminar a sua infecção ideológica anti-semita, sendo muito popular nos países árabes.
Na Rússia, só em 1993 é que um tribunal declarou «os Protocolos» como uma fraude, algo que estava provado desde a II Guerra mundial.
PB
«Para o capital, um bosque não tem valor até que seja destruído e convertido em madeira, do mesmo modo que as pessoas que cultivam a sua própria comida e se esforçam por satisfazerem as outras necessidades básicas fora dos mercados dominantes, são considerados uma perda económica.»- David Watson
Assim, cultivar uma horta e assegurar a perenidade dos bosques é um acto político maior!
Na verdade, a nossa civilização tecno-industrial, tal como a conhecemos, necessita continuar a destruir (de forma irracionalmente insaciável) a natureza para prolongar a sua existência – essencialmente ecocída. É essa a fatal premissa do crescimento económico em que se baseia o actual sistema industrial multinacional.
Marxismo nunca foi, nem em teoria, uma verdadeira alternativa e este sistema de exploração suicidária. Trata-se apenas de uma outra visão filosófica do capitalismo, o reverso da mesma moeda, já que advoga a continuação da intensificação da industrialização. A principal diferença social entre o capitalismo (neoliberal) e o marxismo é que este último defende que os meios de produção estejam sob o controlo do proletariado, levando a uma distribuição mais equitativa das riquezas pecuniárias. Os dois sistemas políticos exigem a total ausência de espiritualidade telúrica, a fim de que na demanda do controlo e exploração total da natureza, esta seja vista como um amontoado de recursos naturais que precisam de ser consumidos até à sua exaustão pelo homem industrial que deposita toda a sua fé na tecnologia. O marxismo é impulsionado pela mesma voracidade rapace no seu projecto de totalitarismo tecno-industrial; tal como o capitalismo ocidental, mostra um desrespeito desumanizante pelos grupos resistentes à economia de mercado (global, estatal e corporativo), que desenvolveram estruturas sócio-económicas idiossincráticas e sustentáveis na sua harmonia libertária com a Terra (ex.: povos tribais). Capitalismo e marxismo, inequivocamente, deixam um rasto de destruição ambiental insustentável num mundo superpovoado, mas tecnologicamente desumanizado, escravizado; vazio de espiritualidade telúrica.
«O mercado institui a escassez de uma forma sem precedentes e num grau nunca antes atingido. Na realidade, a condenação aos trabalhos forçados perpétuos foi apenas sobre nós que recaiu. A escassez é a sentença decretada pela nossa economia, constituindo também o axioma da nossa economia política: a aplicação de meios escassos para a realização de objectivos seleccionados com vista a obter, em tais circunstâncias, a maior satisfação possível. E é precisamente do alto desta inquietante superioridade que encaramos os povos tribais: se o homem moderno, aparelhado com todas as suas superioridades técnicas, continua a não dispor do estritamente necessário, como poderia então o selvagem nu, com os seus simples arcos e flechas? A questão é resolvida da seguinte forma: atribuindo ao caçador motivações burguesas e instrumentos paleolíticos, decretamos de antemão que a sua situação é desesperada.» - Marshall Sahlins
(…) A man must be ready for death
Always, as sound must always be ready
For silence. There are of course contrary yearnings,
Called information and music, but call it
Laughter or call it
Beatitude, a good joke is the most you can ask.
- Robert Bringhurst
(Tradução)
Um homem tem sempre que estar pronto
Para a morte, tal como o som precisa de estar pronto
Para o silêncio. Obviamente, há anseios contrários,
Chamados informação e música, mas chames-lhe
Riso ou chames-lhe
Beatitude, não podes pedir mais que um bom gracejo.
Henry Ford, conhecendo bem a perversidade do sistema industrial-capitalista que ajudara a implementar, disse que: «há 2 maneiras de levar as pessoas a trabalhar: a apetência pelo salário e o medo de o perder.»
Entretanto, sem suscitar a atenção dos jornalistas (que, nos EUA, maioritariamente estavam empregados por amigos seus), este magnata apoiou intensamente a ascensão política de Hitler e do seu partido nazi-fascista, fazendo com que as maiores corporações estado-unidenses beneficiassem de trabalho escravo proveniente de campos de concentração. Mesmo na “terra das oportunidades”, Henry Ford contratou um bando de “gorilas” (a maioria dos quais ex-presidiários) para intimidarem e espancarem todos os trabalhadores que estivessem ligados a actividades sindicais, ou simplesmente para manter o ritmo de produção elevadíssimo.
Até Isaac Newton, cujo nome ficou para a posteridade emoldurado no título de «benfeitor da humanidade», inventou um sistema de choques eléctricos para espevitar os seus empregados e colegas (assim reduzidos a híbridos de reses e de autómatos da produção capitalista) no posto de trabalho. Durante o curto período que durou esta experiência, mereceu aplausos por parte da elite. Agora basta-lhes condescenderem em reconhecer a encenação formal do bem policiado direito à greve, ou então, concentram as suas unidades de produção em Zonas de Produção Especial, que são infernos sociais e ambientais, ligados a governos corruptos e repressivos…
O grande desenvolvimento económico que se verificou na ex-URSS no início da Guerra Fria, deveu-se à mão d’obra escrava concentrada nos gulags de Estaline (que fizeram mais vítimas do que os campos de concentração nazis, mas sem suscitar a mesmo interesse moralista, compaixão e indignação do resto do chamado “mundo livre”).
Nem é preciso ir tão longe. Aqui ao lado, em Espanha, Franco negociou o trabalho de dezenas de milhar de prisioneiros políticos com empresas nacionais que assim reconstruíram a Espanha reduzida a escombros (devido à guerra civil), enriquecendo e tornando forte a economia do país mesmo antes da adesão à União Europeia.
Perto de 500 mil espanhóis passaram por mais de 100 campos de concentração. A “magnanimidade” do caudilho perante os republicanos, liberais e progressistas - que pretendeu erradicar da face da terra (com a bênção, ou seja, a cumplicidade activa, da Igreja Católica, que legitimou esse projecto genocida ao declará-lo uma «cruzada») – mostrou-se com a oferta da redução de 2 dias da pena de cárcere por cada dia de trabalho para o Estado e para as empresas em conluio. (Os que trabalharam no faraónico mausoléu chamado «Vale dos caídos», chegaram a ver essa redução de pena numa relação de 1 para 6 dias.) Da miséria que os prisioneiros recebiam das empresas, 76% era rapinado pelo Estado. Tal rendeu ao Estado o equivalente hodierno a 610 milhões de euros (e isto são números obviamente modestos porque foram fornecidos pelos militares).
Tal como nas unidades fabris de Auschwitz se podia ler o slogan monstruosamente sarcástico «o trabalho liberta-nos», Franco justificava publicamente o referido programa de “reabilitação” nos seguintes termos:«[é necessário] redimi-los da sua existência de párias através do trabalho.» (…) «Os que eram os despojos de Espanha, tornaram-se pessoas úteis.»
Muitos milhares foram assim mortos pelo trabalho forçado. Os sobreviventes continuam vítimas de um pacto de silêncio entre as forças políticas que emergiram e ascenderam ao poder após a morte de Franco; unanimemente, concordaram que esse seria um preço pequeno a pagar pela estabilidade dos militares com os dedos nervosos nos gatilhos…
Ironicamente, foi a “democracia” que condenou os sobreviventes dos campos de concentração espanhóis a tornarem-se párias históricos… Estes prisioneiros (incluído mulheres e crianças) que, em muitos casos, chegaram a conquistar a admiração dos seus algozes, devido às demonstrações de dignidade estóica e de integridade idealista, deixando florescer a solidariedade e até o sentido de humor, onde parecia só haver espaço para a dor, o desespero e a amargura, actualmente vivem com o seu terrível passado obliterado para que as “consciências democráticas” possam continuar mergulhadas no “sono dos justos”… A juventude nem sequer acredita nas estórias destes velhotes sem direito a reivindicarem uma memória colectiva feita de horrores que deveriam servir, não para vinganças, mas, pelo menos, para alertar aqueles que acham que a democracia é um dado adquirido inalienável.
Existem mais escravos hoje em dia do que em qualquer outro período da história. Estima-se que o seu número se situe entre 40 a 80 milhões. As suas vidas são menos valorizadas do que as dos africanos capturados e comercializados pelos esclavagistas europeus há quatro ou cinco séculos, porque são muito mais facilmente substituíveis;
As corporações têm um poder que humilharia qualquer ditador, pois não há um único recanto do planeta que esteja a salvo da sua ganância rapace; os seus saques são legitimados pela Organização Mundial do Comércio (com a ajuda do banco Mundial e do FMI, além das forças armadas que obedecem a governos corruptos), colocando-se acima das legislações de cada país e do direito à auto determinação dos povos – começando pela sua independência económica e redistribuição equitativa da riqueza.