segunda-feira, novembro 27, 2006
Nunca Alpiarça teve um executivo camarário com uma “moral” tão rasteira e que se empenha tanto em destruir as vidas dos que ousam criticá-los. O tempo e a energia que gastam nessas tácticas execráveis (julgando esses merdolas que assim garantem o poder absoluto) se fosse investido em projectos de verdadeiro desenvolvimento sustentável (bem sabem eles o que isso é!), então Alpiarça seria mesmo um lugar agradável para se viver e um exemplo (pela positiva, para variar) em que todo o país poderia almejar.
Vou dar-vos um exemplo da injustiça vingativa que resulta do abuso de poder de quem (a vereadora) não tema menor ética nem cultura democrática.
Qualquer pessoa que me conhece minimamente sabe que eu com frequência utilizo o espaço Internet cá do burgo. Um dia qualquer, no início do Verão, quando o referido espaço tinha como monitor o Nuno Gaspar, cheguei lá com urgência de enviar um e-mail (o meu servidor em casa estava indisponível). Mas todos os computadores estavam ocupados e faltava muito para alguém deixar um livre. (Curiosamente, estava lá também a irmã da vereadora que, nesse preciso momento, consultava este blog…Que divertido!) Como um favor habitual que o Nuno Gaspar fazia a quase toda a gente, por um instante cedeu-me o “seu” computador. Por um azar do caraças, nesse momento surgiu o marido da vereadora (o tal que começou este sarrabulho todo entre mim e ela, ao lhe ir fazer a queixinha intriguista de que me tinha visto na companhia da Manuela Cunha dos Verdes, algo que a vereadora teve a ousadia de proibir até à coordenadora do RIPIDURABLE…). Ele lançou-me um olhar que dizia algo do género: «comia-te o fígado se te apanhasse num beco escuro!...» Eu respondi com um sorriso sereno que dizia «até podes tentar, mas olha que te lixas – de várias maneiras…» , e continuei com os meus afazeres.
Reparei que o seu olhar furibundo saltou de mim para o Nuno Gaspar. Soube logo que isso se iria traduzir em chatices para ele. Assim foi. Nas semanas seguintes apareceram por lá garotos protegidos da vereadora, ou ligados a ela por amigos comuns, que interrogavam incessantemente o Nuno sobre as suas ligações a mim e ao meu blog…Ainda por cima, o Nuno é meu vizinho e já somos amigos há muito tempo.
Mesmo antes desse incidente, eu tinha o cuidado de colocar textos em dias (ex.: domingo) e/ou a horas em que o centro Internet estava fechado. Tampouco consultava o meu blog quando lá ia. E até andei “desaparecido” durante uns tempos”, a fim de não lhe causar problemas. Ironicamente, tenho quase a certeza que o Nuno nunca teve pachorra sequer para ler este blog ou outros que tenham que ver com politiquices. Simplesmente não tem interesse nessas brigas.
Não obstante, sabia que a vereadora se iria vingar num inocente que estava numa posição frágil. Por todo o mundo, em qualquer regime despótico da história, o calcanhar de Aquiles dos presos políticos eram e são os seus entes queridos mais próximos. Percebem o paralelismo?...
Em breve o Nuno Gaspar foi chamado ao gabinete da vereadora que o cumulou com insinuações (que, aparentemente, poderiam aludir à sua ligação amistosa comigo) e com exigências de consultar a lista dos utilizadores do espaço Net. Logo a seguir, o Nuno, apesar de ser um funcionário excelente (é extremamente competente a lidar com computadores e simultaneamente um exemplo de simpatia, prestabilidade, dedicação e com valores morais sólidos, além de ter mão nos putos desordeiros sem ofender ninguém), como estava há vários a nos a recibos verdes, foi posto na rua.
A vereadora sabia perfeitamente que o Nuno, devido a ter ficado órfão de pai precocemente, teve que assumir responsabilidades adultas bem difíceis e, em todos os anos que trabalhou para a autarquia, nunca causo o menor problema e até fartou-se de poupar dinheiro à autarquia ao reparar à borla e com frequência os computadores do espaço net, oferecendo até material seu . Mas aquela tipa é completamente paranóica e, como tal deve ter ficado convencida de que o espaço net deveria ser um foco de agitadores-mirins, onde eu recolhia informações e conduzia o meu blog… Na verdade, quando lá estava o Nuno, aquilo parecia uma constante tertúlia sobre futebol e carros, e por isso não me apelava passar lá muito tempo, por mais simpático que me pareça o Nuno.
De realçar que escrevo esta denuncia á revelia do Nuno Gaspar. Creio que ele não ficará contente por isso, mas é algo que é preciso dizer-se e, ademais, ele já foi lixado.
Que FDPs!!! Isso, continuem a dar-lhes demasiado poder…
PB
terça-feira, novembro 14, 2006
Neste país onde impera uma mentalidade terceiro-mundista, a profissão de político deve ser a única que permite a quaisquer merdolas incompetentes gerir uma quantidade obscena de fundos públicos (que o Estado nos exturque a todos sem assegurar minimamente a qualidade dos serviços essenciais – a educação, a saúde e a gestão sustentável dos recursos naturais) sem necessitarem nem se esforçarem por dominar as matérias das pastas a que se aferram. Ouvi dizer que chama a isto “democracia”…
Já que a referida vereadora adora o protagonismo fácil associado a tachos onerosos, e sendo do domínio público que há poucas coisas de que os políticos gostam mais do que aparecer na “comunicação social” ao lado de jovenzinhos apolíticos, então sugiro que a garotada de Alpiarça organize aqui o primeiro concursos nacional de escarretas e que a convide para ser o alvo… de todas as atenções mediáticas.
Talvez 13 diapositivos vos pareçam coisa pouca, mas se eu os vendesse prescindindo completamente dos direitos de autor (ou seja, podendo o comprador utilizá-los quantas vezes e para que fins lhe desse na gana, sem necessitar de referir o autor), os preços estabelecidos pela generalidade dos fotógrafos nacionais para estes casos, dava perfeitamente para comprar um carro novo… (E olhem que eu até dei – de forma totalmente gratuita – à autarquia mais de uma dezena de diapositivos, para além daquelas que foram escolhidas para a colecção de postais! Não conheço mais nenhum fotógrafo profissional que cometesse tão tresloucado acto de generosidade e de boa fé) Demorei 7 meses (sempre disponível e no terreno, o que significou fazer muitas noitadas para fotografar animais extremamente esquivos) a terminar o trabalho. (Ainda por cima, ao contrário do que aconteceu nos últimos anos, esse período correspondeu a um péssimo ano para tirar fotos no exterior, estando quase sempre a atmosfera baça) Tive imensas despesas (para além do meu equipamento muito caro, tive que alugar material que me custou os olhos da cara, e, por exemplo, para conseguir apenas uma foto em que tive que atirar com o carro para uma valeta profunda, afim de ter a perspectiva correcta de cima do capo, custou-me 250 euros de arranjo na oficina…). No Final, pagaram-me 1500 euros (que nos saiu dos impostos a todos). Do ponto de vista pecuniário, este biscate foi um desastre e apenas o aceitei por deferência a um amigo que, quando estava associado ao executivo camarário, me fez esse convite. E como contabilizar as inúmras chatices e a perda de tempo que tenho tido com esta merda toda?!
Após várias reuniões com a vereadora ficou estabelecido que a autarquia só poderia utilizar essas imagens numa colecção de postais e com a referência ao autor. Ele sempre concordou com estas condições (repetidas até à exaustão na altura própria), até ao dia em que me disse que o Sr. Presidente tinha achado o eu trabalho muito caro e que, como não havia nenhum documento escrito (apesar da minha insistência, ele sempre se esquivou à assinatura de um contrato de trabalho nesse sentido) sobre nosso acordo verbal, ela, armada em espertalhona, declarou que as fotos passavam a pertencer integralmente à autarquia! Estupefacto, retorqui-lhe o óbvio: que, apesar da minha ingénua boa-vontade, tivera o cuidado de registar as fotos em meu nome nas devidas instituições e que, portanto, ela não as poderia utilizar sem a minha autorização (algo que ela se apresou a fazer num outdoors cujo trabalho horroroso da gráfica desvirtuou completamente a qualidade das imagens originais e que, ainda por cima, custaram mais ao erário público do que a edição da colecção de postais). A harpia contorceu-se toda, passando o seu sorriso sacana a um esgar de fúria. Como o seu esquema imbecil se viu num beco sem saída, argumentou que tinha um recibo verde assinado por mim e que isso seria suficiente para "provar" que as fotos eram dela... Pois se o tal recibo nem sequer especifica que eu fiz um trabalho de fotografia para a autarquia...
A partir daí deixou de falar comigo (tirando além aquela vez, anterior à inauguração deste blog, em que me encontrou no parque de estacionamento da câmara me ter atacado de forma gratuita e disparatada, com uma peixeirada ofensiva…) e finge que não tem os slides em sua posse. Não sei o que ganha com isso, mas provavelmente um dia destes alguém (que não eu; provavelmente outra criança que o ouviu dos pais) cometerá a indelicadeza órfã de ética de dizer às suas filhas que a mãe é uma ladra…
Voltando ao referido suplemento sobre a nossa terra,
Todo o capítulo intitulado «Turismo ambiental em Alpiarça» merece um sorrio amarelo, pois as informações nele contidas (fornecida pela Drª Vanda aos “jornalistas” que se limitaram a papagueá-las )não dão um único exemplo de verdadeiro turismo ambiental! De forma sub-repticiamente reveladora, omite qualquer referência à nossa maior jóia ambiental : o Paul dos Patudos. E isto quando a tipa vai para outros lados laurear a pevide para se vangloriar de se “cabeça de fila” (sic) do projecto RIPIDURABLE! (Já agora, para além de terem gasto uma porrada de dinheiro em viagens de auto-recreamento ditas “formativas”; de adquirirem equipamento fotográfico topo de gama; editarem um par de folhetos com banalidades acerca das zonas húmidas – mas sem darem o mínimo destAque ao nosso paul…, como é que justificam a gestão de fundos europeus para o RIPIDURABLE ?! porque é que o projecto tem estado parado? Como é que a U E deixa a autarquia de Alpiarça trair grosseiramente os objectivos do referido projecto, nomeadamente com a tentativa de implementação no mesmo local de um incompatível projecto de turismo elitista?
É claro que esta “amnésia” mui conveniente se deve ao facto de os seus planos (ex.: campo de golfe, condomínio de luxo, lagoa para motas d’água, …) para o paul serem essencialmente o seu golpe de “misericórdia”, e, muito por minha causa, neste momento são demasiado polémicos para que o executivo camarário tenha coragem de os discutir pelas vias democráticas.
Têm o descaramento de fazer referência à Reserva Natural do Cavalo do Sorraia (um estatuto auto atribuído e pernosticamente ridículo para o espaço em questão, mas isso é outra estória de somenos importância), quando recentemente afastaram quem criou e dinamizou esse projecto… além de que o executivo camarário tem igualmente boicotado todas as iniciativas (ex.: museu arqueológico, colóquios e congressos, etc…) no sentido de que sejam reabilitadas as estações arqueológicas de importância mundial, apenas porque os alpiarcenses mais competentes e dinâmicos nesta matéria não pertencem ao seu séquito.
Realmente, a hipocrisia e a consequente demagogia barata deste executivo camarário só tem paralelo com a sua arrogância antidemocrática e com a sua incompetência!! Como é que podem gabar as “excelências” da sua intervenção na Vala de Alpiarça (citando o novo slogan do presidente: «regresso ao rio», leia-se «regresso ao esgoto»…), quando o Dr. Roda do Céu é, nos últimos anos, o principal responsável por a vala estar reduzida a uma lamentável cloaca?! A intervenção que fizeram nas margens foi uma péssima operação de cosmética, em que desperdiçaram uma pipa de massa sem sequer seguirem as recomendações do estudo de impacto ambiental que tinham encomendado. A quem é que lhe apetece ir passear para um lugar imundo, fedorento e quase sem sombras?
Como é que conseguem ter a cara-de-pau de continuar a asseverar que vão recuperar a aldeia palafítica do Patacão (ao estilo balneários de praia nórdica ?!) e a sua respectiva praia fluvial?! Recorde-se que autorizaram a extracção industrial de areias no mesmo sítio (com um enorme impacto paisagístico e o corte – ilegal – de um caminho público que seguia ao longo do Tejo), além de que o Ministério do Ambiente lhes chumbou a praia fluvial devido à elevada poluição das águas… e desde quando é que o “nosso presidente” se coíbe por pormenorezinhos como a defesa da saúde pública?... Estes tipos nem sequer são competentes em atirar-nos areia para os lhos, enquanto fazem as suas negociatas.
O que mais me fode é que o Estado, através dos impostos que nos exturque, me force a pagar os ordenados de gentalha que se dedica a destruir as coisas que entronizam o meu afecto! Sempre que olho para o edifício da Câmara Municipal, perscruto a fachada à procura de um botão que faça accionar um autoclismo gigantesco capaz de mandar a escumalha ir “passear” para a bela vala…
Para os tipos da «Alpiarça é a razão» que estão obcecados com sinecuras políticas e esperam que o Rosa do Céu vos carregue ao colo, só vos digo que abram os olhos! Os contactos político-partidários-corporativos e o pecúlio que
esse tipo está a juntar são apenas para se safar sozinho longe daqui…
domingo, outubro 29, 2006
No início dos anos 90 esforçava-me por passar pelo menos um mês por ano a
fazer trabalho voluntário no Tejo Internacional (que na altura ainda não
tinha o estatuto de Parque Natural). Decorrente da minha tarefa de vigilância,
certa feita dei por mim a espiar, clandestinamente, a preparação de uma batida de caça numa
herdade dedicada ao turismo cinegético. Estávamos em plena época de
nidificação e, mesmo onde havia uma colónia de grifos e um ninho de
cegonhas-negras muito acessível, uma horda de caçadores, apoiados por mais de 400 cães (muitos deles extraviar-se-iam, tornando-se assilvestrados e atacando os rebanhos de ovelhas da região), estavam prestes a esquadrinhar as
declivosas margens do Tejo, disparando a quase tudo o que se mexesse. Como as consequências previam-se fatídicas, apressei-me a dar ocorrência do que
tinha visto a um dirigente de uma ONGA muito ligada àquela área de grande
riqueza natural. Sem fazer muito caso do meu tom alarmado, com uma frieza
contabilista que me indignou, respondeu-me que o melhor seria não intervirmos de forma preventiva, deixando o desastre acontecer e levando lá algum jornalista para o registar. Tentou dar-me uma lição de estratégia,
argumentando que o sacrifício de umas poucas crias de aves ameaçadas poderia reverter a favor de todas as outras criaturas silvestres que queríamos
proteger, se fossemos eficientes em denunciar o caso e provocar alguma celeuma mediática. Vi naquela atitude as origens da desconfiança popular em
relação aos médicos, dizendo que estes vivem da doença, não da saúde...
Não foi por causa deste desentendimento (pacífico) que o deixei de considerar
como uma pessoa respeitável e um membro valioso na nossa ONGA, mas naquele momento compreendi o quão perigos é os técnicos do ambiente raramente saírem das suas secretárias, fechados em gabinetes com ar condicionado em cidades poluídas, e passando o dia a traduzirem a natureza por números.
Provavelmente este homem que me desapontara nunca saboreou os prazeres impagáveis de nadar num rio limpo junto de onde mora, bem como de
dormir sestas à sombra de árvores, embalado pelo coaxar das rãs; nem quando
era catraio se aventurou a roubar fruta e a espreitar ninhos. Por isso, não
acredito que saiba verdadeiramente o que custa a perda desses privilégios.
Mesmo que não fossem demasiado incertos os vaticinados benefícios, a longo
prazo, decorrentes de deixarmos, impassíveis, martirizar alguns animais que
corriam riscos de extinção, eu não poderia compactuar/concordar com o seu
plano porque, vivendo no campo e estando familiarizado com o terreno em causa, nos dois anos que precederam este episódio tinha acompanhado a nidificação daquele casal de cegonhas negras, e emocionara-me com cada momento em que os
pude observar (bem escondido e de uma longa distância), ao ponto de já as
considerar como minhas amigas e professoras de etologia. Assim, nunca poderia vê-las apenas como números ou como peões num estranho xadrez .
Quando o naturalista, poeta, ensaísta, escritor, jornalista, educador
ambiental,personalidade televisiva ligada à divulgação do património
natural e agricultor biológico, Joaquín Araújo, escrevia regularmente para a
revista espanhola "Integral",
numa crónica especialmente comovente contou sobre um costume seu de incitar alguns amigos que o visitavam na sua quinta a procurarem a árvore que mais os atraísse. Uma vez escolhida, atribuíam-he o nome da pessoa que a elegera. Uma das árvores que mais o cativara (tendo, inclusive, escrito muitos textos belíssimos à sombra da sua copa) era uma azinheira homónima da sua sobrinha. Mas a ligação entre elas duas tornou-se mais profunda do que a
fonética/nomenclatura e até que os sentimentos efémeros, (re)unindo dois
reinos que a ciência separou; duas entidades orgânicas e energéticas que as
religiões ocidentais não admitem familiaridades. É que a menina tivera uma
morte prematura, e as suas cinzas foram depositadas junto das raízes da sua árvore favorita - que continuou a dar amparo aos familiares que, com a chama do amor, continuam a manter viva a memória da criança. Joaquín Araújo termina essa crónica indagando-se sobre a razão de, ao invés de as nossas cinzas se tornarem árvores com nome, insistirmos em transformar as florestas em cinzas anónimas...
terça-feira, outubro 24, 2006
A expansão do império romano pela Anatólia e por todo o Norte de África, permitiu-lhes construir de raiz faustosas cidades à medida dos seus sonhos arquitectónicos e imperialistas. Éfeso é um bom exemplo disso, com as suas amplas avenidas e abundância de colunas coríntias, estátuas de inspiração helénica, anfiteatros, aquíferos e sistemas de esgotos eficientes, etc… Éfeso era também um importante porto para todas as rotas comerciais que se desenvolviam no Mar Mediterrâneo. As suas privilegiadas características edafo-climáticas (a bacia do Mediterrâneo estava a tornar-se mais quente e húmida naquela época), possibilitaram uma intensa actividade agrícola, logo se convertendo num dos principais celeiros de Roma.
Os romanos necessitavam de muita madeira (ex.: para a construção de casas e de barcos; para a fundição de metais; para aquecimento dos seus banhos públicos e para fins culinários, etc…), tanto quanto de terras agricultadas. Assim, empenhavam-se em arrotear maciçamente as florestas que medravam onde decidiam estabelecer as suas colónias.
Para além de se situar na orla marítima, Éfeso beneficiava ainda do abastecimento constante de água potável que o rio Caester trazia das montanhas. O problema é que, com a eliminação das florestas circundantes, cada estação chuvosa castigava a cidade e os seus campos agrícolas com enxurradas medonhas, que arrastavam toda a manta morta e outros detritos de todas as dimensões, depositando-os na foz. Com o passar dos anos, esses detritos fluviais assoreados, transformaram zonas húmidas (onde antes a pesca era abundante e se podia navegar) em lodaçais cada vez maiores – que eram propícios à expansão da malária (a doença que se tornou num dos principais factores da queda do império romano). Também afastaram Éfeso (e outras cidades portuárias do império, que sofreram um declínio semelhante) do mar, tornando-a pouco atraente para o comércio marítimo. (Por incrível que pareça, o que resta dessa cidade situa-se hoje a 11 Kms do mar!)
Mais ensinamentos da floresta
Na selva Amazónia, por cada hectare podemos encontrar até 300 espécies [diferentes] de árvores. Este prodígio da biodiversidade acontece porque se trata de um ecossistema muito competitivo e propício ao desenvolvimento de uma quantidade incrível de formas de vida que se esforçam por ocupar outros tantos nichos ecológicos. É a terra das oportunidades para a vida – incluindo muitos parasitas das árvores e agentes patogénicos (ex. fungos e bactérias). Se, ao invés de optarem pela dispersão, cada espécie de árvore concentrasse os seus efectivos em determinadas áreas, tornar-se-ia presas fáceis para as doenças, bem como para os reveses aleatórios dos factores abióticos (ex.: inundações, intempéries, fogos, terramotos, …)
À medida que nos encaminhamos para latitudes mais setentrionais, a biodiversidade tende a diminuir. Assim, verificamos que, no que respeita à quantidade de espécies autóctones de árvores, os trópicos albergam 60 mil; os neotrópicos concentram metade desse valor; o reino Unido tem 39; e o Canadá, com áreas de bosque pristino de maiores dimensões do que qualquer país europeu, apenas tem 9.
sexta-feira, outubro 20, 2006
domingo, outubro 15, 2006
Martin Luther King disse que «se devemos condenar esta geração, não será tanto pela iniquidade dos maus, mas pela permissividade dos bons»… (Cito de memória)
sábado, setembro 23, 2006
Nos anos 90 as indústrias de biotecnologia puseram em acção uma estratégia de conquista dos mercados alimentares de todo o mundo. O seu modus operandi e as consequências do mesmo passaram totalmente desapercebidos aos média(perdidos entre a ignorância e a censura corporativa), mas não a muitos agricultores, técnicos e membros de ONG que operam no terreno.
Em 1999, durante uma conferência sobre a indústria biotecnológica, um representante da empresa de consultoria Arthur Anderson tomou a palavra e, orgulhoso, explicou o brilhantismo da sai empresa ao criar o plano que levaria a Monsanto a controlar 91% do mercado de produtos agrícolas GM e a apoderar-se de 23% das empresas que comercializam sementes e desfazer-se da concorrência, nomeadamente através da eliminação das semente que eram – e são - a base da agricultura tradicional. A Monsanto explicou à Anderson a sua visão de um mundo "ideal" em que todas as sementes destinadas à agricultura fossem geneticamente modificadas no prazo de 15 anos, e os consultores elaboraram a estratégia que tornaria isso possível. (Jeffrey Smith, 05)Como admitiu um técnico de biotecnologia ligado a uma corporação quecomercializa OGM, «a esperança desta indústria é que, com o tempo, omercado fique tão inundado [com OGM] que será tarde demais para se fazer algo capaz de contrariar a situação, restando às pessoas renderem-se.» (The Toronto Star, 1/9/01)
O lóbi da Monsanto na Casa Branca e na FDA é extremamente poderoso, e os avultados investimentos que a empresa fez na área da biotecnologia deixá-la-ão numa precária posição se a aposta falhar. Os executivos da Monsanto estão extremamente nervosos pois funambulam entre uma fortuna e umpoder quase inimagináveis (caso possam dominar os estômagos de toda a população mundial) e, por outro lado, o descrédito e o colapso da suahegemonia corporativa. Por isso forçaram a administração Bush a mover uma acção contra a U E junto da OMC. (O que aconteceu a 13 de Maio de 2003)Na mesma altura, W Bush anunciou que a "sua" iniciativa para acabar com a fome em África basear-se-ia em alimentos GM, aproveitando para criticar a resistência da U E aos OGM, considerando essa atitude como «um temor sem fundamento científico» (sic)*Os média NA têm corroborado estas alegações, indo mais longe (do quepermitem as regras da diplomacia política) afirmando que se trata de puro anti-americanismo por parte dos europeus.
*Outra estratégia insidiosa para implementar os OGM em países que lhes manifestem alguma resistência, é a mistura de sementes mutantes com as convencionais nos lotes exportáveis. Outras vezes enviam-nas para países subdesenvolvidos como “ajuda humanitária”.
Calcula-se que mais de dois milhões de toneladas de alimentos GM são enviadas directamente pelos E.U.A. para os países em vias de desenvolvimento, sob a bandeira da ajuda humanitária. Este país consegue fazer distribuir mais 1,5 milhões de toneladas dos seus OGM através do Programa Mundial de Alimentos.
A biotecnologia parece ter um grande potencial para a medicina, mas o que não costumam divulgar é que os animais clonados são na sua maioria defeituosos e morrem em pouco tempo. Quando os investigadores Pusztai e Ewen, em 1999, demonstraram que os ratos alimentados com batatas transgénicas eram afectados por deficiências orgânicas e imunológicas, a restante comunidade científica comprometida com a indústria de mutações biotecnológicas, em vez de reflectirem com preocupação sobre estes dados, estigmatizaram os ousados investigadores, cumulando-os de ignomínias e colocando-os no desemprego.
O Dr. Philip James proibiu o Dr. Pusztai de prestar quaisquer declarações sobre as batatas transgénicas, como apressou-se a desmentir aos média as conclusões do seu colega proscrito.
Em 1996, o Dr. Pusztai por ser uma das maiores autoridades científicas na áreada microbiologia e da genética, com uma experiência e uma reputação bemconsolidada ao longo de várias décadas, foi eleito para chefiar um grupo decientistas que deveriam criar um modelo para testar a segurança dos alimentosGM na Grã Bretanha e, eventualmente, em toda a U E.Tratava-se de uma mera formalidade, pois, concomitantemente e à revelia dePusztai, da sua equipa e da opinião pública, estavam a ser aprovados elançados (com incrível celeridade) para o mercado OGM.O principal responsável pelo respaldo "científico" para acomercialização dos referidos produtos era o Dr. Philip James, Director do Instituto Rowett - o mesmo que em 1998 entregou ao Dr. Pusztai um monte de documentos contendo os resultados da pesquisa científica sobre a salubridade de alguns agroprodutos GM (ex.:soja, milho e tomates). Esses estudos tinham sido elaborados pelas empresas que pretendiam comercializar a comida "Frangenestein", e deixaram o Dr. Pusztai boquiaberto. Os volumes (que perfaziam 700 páginas que ninguém esperava que fossem lidas na totalidade, quanto mais que pudessem testar a sua veracidade....) apenas denegriam a metodologia científica mais básica e honesta.
«Como cientista, fiquei realmente chocado!» - afirmou. «Foi a primeira vez que me apercebi de que estavam a apresentar ao comité evidências inconsistentes. Havia falta de dados, uma paupérrima metodologia científica e todos os testes tinham sido conduzidos de forma demasiado superficial.» tal não tinha impedido a referida autoridade sanitária de aprovar alimentos GM, sem que nenhum dos 58 milhões de consumidores britânicos tivesse sido informado de que estava a consumir tomates, milho e soja transgénicos.Isto passou-se na véspera de uma reunião de ministros e de euro deputados destinada a discutir a aprovação ou a moratória aos OGM.
O Ministério da Agricultura, Florestas e Pescas (MAFF) britânico precisava do parecer positivo do Dr. Pusztai para defender a aprovação dos OGM que já circulavam no mercado, bem como de novos produtos que as empresas de biotecnologia estavam ansiosas por comercializar.Tentando desenvolver batatas GM concorrentes às comercializadas nos EUA *-+*-+ Todas as células dessa batatas estão habilitadas a produzir uma potente toxina insecticida devido à introdução de um gene proveniente de uma bactéria do solo que é aparentada com o bacilo do Antraz.
A equipa do Dr. Pusztai concentrou-se em fazer as suas batatas GM serem capazes de produzir lactina, um insecticida natural presente em algumas espécies de plantas (que não as batatas). Durante 7 anos este renomado cientista estudou as propriedades da lactina tendo concluído que não era tóxica para os humanos, como tampouco se revelara para os seus ratos de laboratório. Mas a engenharia genética está muito longe de ser capaz de predizer e de controlar todos os efeitos anómalos encontrados nos OGM.Se fosse nos EUA, as batatas com genes (introduzidos) de lactina teriam sido comercializadas num ápice ( baseado na assumpção de que sãonutricionalmente equivalentes às convencionais), mas o Dr. Pusztai levamuito a sério o seu trabalho e as suas responsabilidades quanto a ameaçar levianamente a saúde pública.Usando uma metodologia semelhante à que é praticada pelas empresas que comercializam alimentos GM, para sua surpresa, percebeu que ogénero de batatas que perfilhara tinham uma composição nutricional consideravelmente diferente das convencionais (algumas eram 20% mais pobres em proteínas). Pior ainda, ao cabo de apenas 11 semanas tornou-se evidente que os ratos que delas foram forçados a se alimentar apresentavam sérios problemas de saúde, tais como: fraco desenvolvimento físico - com destaque para atrofiamentos dos testículos, do fígado e do cérebro - e o sistema imunológico danificado. Algumas cobaias apresentavam ainda o pâncreas e os intestinos inchados. Células com a estrutura modificadas e potencialmente cancerígenas proliferavam nos seus estômagos e intestinos. Então como explicar que os laboratórios das corporações tenham resultados tão díspares? O Dr. Pusztai topou-lhes a marosca: os estudos deles baseiam-se apenas em animais adultos. Como nos jovens as proteínas são fundamentalmente utilizadas para a construção de tecidos, músculos e órgãos, problemas como os supracitados tornar-se-iam evidentes. Tal é muito mais difícil de acontecer com os indivíduos maduros, pois estes utilizam as proteínas fundamentalmente para a produção de energia e para a renovação de tecidos. O ardil dos laboratórios corporativos vai ao ponto de, ao invés de pesarem e medirem com acuidade os órgãos das cobaias, limitam-se a utilizar o "olhómetro", como se fosse uma metodologia cientifica precisa (algo completamente refutado pelo Dr. Pusztai).
Nenhum governo está a conduzir testes de salubridade sobre os OGM em larga escala. Isso nem sequer é feito em relação aos pesticidas que, desde pelo menos há 50 anos, se sabe serem causadores de gravíssimos problemas para a saúde pública e para todo o ambiente.
(milho) Aliás, é possível conseguir a aprovação para a comercialização doOGM sem que a FDA proceda a quaisquer testes, confiando nos dados fornecidospelas empresas.
No caso da variedade de milho GM (que produz o seu própriopesticida a partir da bactéria Bacillus thuringiensis Bt), comercializado pelaAventis com a designação de StarLink, e que provocou muitos casos dereacções alérgicas graves pelos menos entre os estado-unidenses, nem sequerera suposto ser utilizado para a alimentação humana, tendo sido autorizadaapenas para rações de alimárias e para a produção de biocombustíveis. As autoridades confiaram que, quaisquer que fossem as eventuais substâncias potencialmenteprejudiciais para o homem, estas não passariam para os nossos organismosmigrando ao longo da cadeia trófica (que acaba no nosso prato), e também queos agricultores zelariam por não misturar o milho StarLink com as variedadesconvencionais (tendo até sido obrigados a assinar contratos deresponsabilização nesse sentido). Como era previsível a qualquer um com omínimo de bom senso, não foi isso o que aconteceu.
Os Amigos da Terra foram a primeira ONG a denunciar a contaminaçãogeneralizada com o milho StarLink, os problemas sanitários que tal ocasionarae o modo como a Aventis em conluio com a FDA falharam em proteger a saúdepública e boicotaram as respectivas investigações. A FDA/CDC primeiro foicúmplice por negligência neste escandaloso atentado, mas depois, ao ser alvode acusações, fabricou um estudo fraudulento em que atropelou quase todos osprocedimentos protocolares da investigação científica.Os técnicos da Agência de Protecção Ambiental (um órgão governamental)juntaram-se à generalidade dos cientistas independentes (incluindo os maioresespecialistas em alergias alimentares) na publicação de duras críticas aosreferidos testes da FDA destinados a ilibar a Aventis e o seu milho StarLink(e, consequentemente, a eles mesmos).No centro da polémica estava a nova proteína Cry9C que era produzida pelomilho StarLink e que se sabia ter um elevado potencialalergénico. Foi a Aventis que determinou qual a percentagem daproteína Cry9C presente nos alimentos que deveria ser considerada segura. AFDA aceitou essas conclusões sem as questionar. Pior ainda, a FDA nãoanalisou essa proteína a partir de amostras do polémico milho (acabado decolher e/ou encontrado em imensos produtos alimentaresconfeccionados),limitando-se a pedir à Aventis que lhe proporcionasse amostrasda Cry9C. A Aventis anuiu, mas, estrategicamente, não retirou essa proteína domilho StarLink, mas sim de uma colibactéria, sabendo que o comportamento dasproteínas varia muito de espécie para espécie (ex.: podendo divergir emcomposições moleculares e/ou na forma como estão dispostas). Este"pormenor" é suficiente para invalidar as conclusões da FDA acerca doStarLink, nem que mais não seja porque a essa variedade de milho foiacrescentada uma cadeia de açucares que é reconhecidamente potenciadora dacapacidade alergénicas das proteínas. Mais tarde a Aventis recusou-se a revelara composição dessa cadeia de açucares, limitando-se a produzir uma série de"estudos", cujas imprecisões tendenciosas deixaram a comunidade científica indignada.O cientista japonês Masaharu Kawata comentou a propósito: «é frequenteencontramos dados comparativos deste género que, apesar de pareceremcientíficos, na verdade são falsos. Tratam-se das tácticas dissimuladasusadas pela Monsanto na sua proposta para a aprovação da soja (GM) RoundupReady no Japão.»
O Dr. Pusztai foi encarregue de desenvolver um teste padrão para os OGM porque não existem testes fiáveis que determinem o potencial alérgénico e de outros problemas para a nossa saúde. Não é apenas um problema de falta de consenso entre a comunidade científica e entre esta e o pode político que deixa a sociedade tão vulnerável. Muito mais perigosos para todos nós é o facto da investigação científica e os órgãos ditos “democráticos” estarem reféns das corporações.
Apenas são conhecidos (ou seja, puderam ser publicados em revistas científicas) uma dezena de Estudos sobre os efeitos para a saúde dos OGM presentes na alimentação animal; sendo que unicamente 2 destes estudos foram efectuados por laboratórios (considerados) independentes. Cientistas de todo o mundo (que não têm interesses directos na comercialização dos OGM), ao analisarem os estudos em causa, concluíram que 7 deles foram concebidos por forma a mascarar quaisquer informações que pudessem indicar perigos para a saúde pública. Os estudos independentes não deixam grande margem para dúvidas quanto ao potencial cancerígena dos OGM analisados e que continuam a ser comercializados. Esta conclusão foi, ousadamente, corroborada por um estudo não independente, mas o cientistas que teve a integridade de fazer soar o alarme, foi despedido, publicamente caluniado e amordaçado com a ameaça de processos judiciais milionários.
Atendendo a que 90% das importações de OGM para a U.E. são destinadas àalimentação pecuária (só a Inglaterra anualmente importa para esse fim um milhão de toneladas de soja, enquanto que na Argentina continuam a serdestruídas selvas milenares para plantações de soja gm), à produção deóleos e vários subprodutos, é de importância capital o facto de essesprodutos passarem a ser identificados como OGM. Mas esta nova regulamentação (supervisionada pela recém formada Autoridade Europeia para a sanidade Alimentar) dá uma no cravo outra na ferradura, pois os produtos (como, por ex., a carne, o leite, os iogurtes, a manteiga e os ovos) provenientes de animais que são alimentados com OGM não são obrigados a ser rotulados como OGM. Para cativar a confiança dosconsumidores (ninguém está interessado noutra crise económica como a dasvacas locas), alguns dos maiores produtores europeus de carne, leite e ovossuplantaram os políticos e tecnocratas de Bruxelas, desenvolvendo meiospróprios para darem algumas garantias de rejeição das rações OGM nas suasexplorações pecuárias. Assim, todas as partes envolvidas nas cadeias deprodução, distribuição ( e comercialização) de alimentos gm sãoobrigadas a informar os seus operadores e receptores sobre a presença de OGM.
Ainda estamos à espera do Decreto-lei que fará a transposição para o direito interno da directivacomunitária concernente aos OGM. Muito mais curioso estou sobre como é que estas regras serão implementadas e se afiscalização funcionará em Portugal...
Ainda há muitospodres por revelar e por apurar sobre os transgénicos, mas, por ora, fiquem com a curiosidade (mórbida…) de Alpiarça ter estado entre as primeiras localidades do país que produziram culturas transgénicas. Agora estamos rodeados dessa merda, cuja coexistência com as culturas tradicionais é verdadeiramente impossível e que invalida todos os esforços da agricultura biológica.
A autarquia tem o poder (e a obrigação) de actuar no sentido e alertar os agricultores para estes perigos ocultos pelas empresas de biotecnologia e pelo próprio governo (que, como não podia deixar de ser, “dança à música” das corporações). Existem mecanismos legais para criarmos zonas livres de transgénicos, mas as autarquias só se mexerão nesse sentido se forem pressionadas a tal. O que fará o “rebanho cego”?...
quinta-feira, setembro 21, 2006

Educação artística
“A arte perfeita comunga com a natureza.” – Immanuel kant
« A música é uma revelação superior à filosofia.» - Beethoven
Transcendendo as habilidades de sobrevivência pura, é indispensável aproveitar esse ambiente de “duendes, elfos, faunos, fadas, dríades, ninfas…” tão inspirador para potencializar a satisfazer as nossas mais profundas aptidões “mágico-artísticas”, ensinando-lhes, por exemplo, a construírem os seus próprios instrumentos musicais, recorrendo a materiais rústicos exclusivamente colectados na natureza, e a inspirarem-se nesta para comporem canções (letras e melodias). Antes que consigam identificar escalas e construir melodias, o melhor será, através de percursões muito básicas, tentar imitar os padrões dos sons que aprendem dos animais (com óbvio destaque para as aves). Depois conjugar essa colecta de sons numa roda musical (ensamble) em que cada indivíduo tenta manter o seu fraseado e ritmo (em obstinato) em harmonia com os restantes membros do grupo.*
Seria interessante que os educadores dedicassem alguns dias especiais (ex.: duas vezes por mês) para a comunicação dentro das salas de aulas ser feita sem recurso à voz. (Aliás, os professores, tanto na sua formação académica como ao longo da sua carreira, deveriam ter apoios gratuitos de terapia da voz, para aprenderem a colocá-la sem forçarem excessivamente as cordas vocais.)
A cacofonia agressiva e artificial (o que inclui o zumbido irritante das lâmpadas fluorescentes) a que as crianças urbanas estão permanentemente sujeitas indubitavelmente conspira para que estas tenham dificuldades de aprendizagem. A fim de aliviá-las desse stress acústico, devemos cultivar a serenidade e ensiná-las a ouvir e identificar as sonoridades positivas e primordiais da natureza silvestre. Nos passeios pelo campo as crianças necessitam ser ensinadas de que quanto mais barulho fizerem, menos animais verão e menos aprenderão sobre as suas vocalizações.
"Em cada um de nós há um segredo, uma paisagem interior, com vales desilêncio e paraísos secretos." - Saint-Exupéry"Há duas coisas que indicam fraqueza: calar-se quando é preciso falar efalar quando é preciso calar-se." - Provérbio persaPara que as crianças compreendam a importância da discrição silenciosaquando deambulam pela natureza (em especial pelos bosques e pelas zonashúmidas), expliquem-lhes que os predadores silvestres não podem ir aosupermercado para se alimentarem. Todos conhecem bem a fome e para lheescaparem usam o silêncio como camuflagem acústica. A escassez de presas, ainexperiência, a fraqueza e as interferências negativas (quer provenham deperturbações antrópicas, ou de um sistema de alarme natural e concertado,fruto de uma atenta aliança anti-predatória, em que as aves costumam ter umdestacado papel), tornam a vida difícil aos que têm que caçar parasobreviver. Por exemplo, se uma gineta juvenil que, por já ter idade parasobreviver pelos seus próprios meios, foi recentemente tornada independentepela sua progenitora, tem dificuldades em aplicar os conhecimentos aprendidosno seio familiar, a fome provocada pelos primeiros falhanços até poderáagudizar-lhe os sentidos e a concentração, mas a sucessão de tentativasfrustradas também a enfraquece, diminuindo-lhe as chances de ser bem sucedida.A morte por inanição é comum entre os juvenis errantes.Podemos representar/teatralizar a cena dramática de uma gineta esfomeada aaproximar-se cautelosamente de um rato, sabendo que poderá ser essa a suaúltima oportunidade de comer e permanecer viva. O crepúsculo vai dando lugaràs estrelas. É lua nova. Os seus olhos estão adaptados a ver com o mínimode luz e os seus bigodes (vibriças, para os técnicos)indicam-lhe que o vento está a seu favor. A tensãoé tremenda. Cada movimento de aproximação é calculado com agonizantecuidado; quase deixa de respirar para que não seja detectada pelos sensíveisouvidos do roedor; os seus músculos são como molas contraídas prontas aexplodir em energia cinética. Quando está prestes a saltar sobre a presa, osilêncio do bosque é violado por um grupo de ruidosos excursionistas que,como se não bastassem as cantorias, ainda apontam as suas lanternas em todasas direcções procurando surpreender animais nocturnos. Previsivelmente,afugentam o rato da nossa estória, que procura refúgio na sua toca.
Proponho aos educadores que peçam às crianças que elaborem uma listagem dos sons que mais apreciam e, noutra coluna, também os que mais os incomodam. Depois de avaliarmos as respostas, procuraremos denominadores comuns a fim de tentarmos construir um ambiente sonoro mais confortável tanto na sala de aula como em casa.
* Um número elevado de materiais testados acusticamente (como, por exemplo, as pinhas) reverberam escalas pentatónicas. Ora, por todo o mundo a música popular é baseada em escalas pentatónicas. Também está provado que a estrutura do nosso sistema auditivo está optimamente adaptada a essas mesmas escalas. Não menos espantosas são as recentes descobertas no campo da microbiologia em relação a esta temática.
O investigador Joel Sternheimer provou haver uma relação entre as proteínas (dos códigos genéticos) e a música*. Um discípulo seu, Jean-Claude Perez, descobriu que o alfabeto (TCAG, correspondendo estas quatro letras a outros tantos aminoácidos) impresso no DNA da vida na Terra se ordena segundo harmonias semelhantes à célebre série numérica de Fibonacci. (Este brilhante matemático do Séc. XIII celebrizou-se sobretudo por ter descoberto uma série de números em que cada número em sucessão é o resultado da soma dos dois números precedentes, e também pelo seu “número de ouro” – 1,6180 - que reflecte como nós vemos a harmonia na natureza (ex.: na concha espiralada dos nautilos, nas escamas dos peixes, na forma como as árvores se ramificam, na distribuição das cores quentes e frias,…) e nas nossas obras arquitectónicas)
Assim, quando a bíblia nos diz que “no princípio era o verbo” (Genesis), talvez devêssemos reescrevê-la, dizendo que “no início estava a música – do silêncio, e qualquer ser vivo conhecido é um diapasão cósmico.
A síntese das proteínas de que necessita o nosso organismo pode ser facilitada se encontrarmos as músicas certas, ou seja, as músicas que harmonizam com as ondas emitidas pelos aminoácidos. Mas as músicas erradas têm um efeito contrário, inibindo a síntese das proteínas.
(Outra variante interessante do mesmo tema, para aqueles dias em que temos que ficar confinados entre paredes, será a reutilização de materiais que normalmente desprezamos como resíduos domésticos para fins artísticos.)
Tão festiva e criativa como a acção de moldar o barro, poderão ser as saídas de campo para o procurar. Outros minerais e vegetais (e até elementos animais, como os ovos), quando devidamente preparados, poderão originar pigmentos para a pintura.
Educação musical
"Se consegues andar, conseguirás dançar."Se consegues falar, conseguirás cantar." - provérbio do Zimbabwe
«Se não consegues manter os teus esquelos no armário, ao menos fá-los dançar.» - Bernard Shaw
o místico Rumi (que inspirou a confraria dos dançarinos Dervixes) costumava dizer que «a dança é o caminho mais curto para chegarmos a Deus.»
as crianças podem aprender a cantar e a dançarmesmo antes de aprenderem a falar e a andar. Desde que não se violentem as suas limitadas capacidades, estas actividades podem ser uma óptima série de exercícios respiratórios, de coordenação motora, de articulação das palavras e de noção de ritmo. Poderem pegar num estescópio, atentar e comparar os ritmos cardíacos (tomando nota individualmente) de todas as crianças da turma é uma boa maneira de serem iniciadas à noção de ritmo.
descoberta da musicalidade intrínseca das palavras dar-nos-á o mote para fazermos uma aproximação à poesia
as canções são um meio óptimo para a interiorização e difusão de informações.
Todas as crianças têm um gosto instintivo pela música e, mais especificamente, por cantar. Mas passada a idade (até aos 4, 5 anos) em que todos os comportamentos abebezados fazem os adultos sorrirem, cantar torna-se um comportamento inconveniente, a não ser em aulas de música, na solidão dos quartos, no chuveiro e noutros locais “apropriados” (ou seja, onde os adultos soturnos não os oiçam). Mais abébias só as conseguem as crianças às quais a natureza dotou/abençoou com talentos canoros afinados como maviosos trinados. Esta castração de epontaneidade deve-se a que a maioria dos adultos deixaram morrer em si o gosto por experimentar a música como uma celebração espontânea, intimidados e frustrados por serem incapazes de competir com os virtuosos bem treinados.
É importante que as crianças tenham ao seu alcance instrumentos (sobretudo de percursão) concebidos pelas culturas tradicionais de várias procedências à volta do mundo. Melhor ainda é ensiná-los a fazer os seus próprios instrumentos a partir de materias simples colectados na natureza, ou ainda reutilizando materias que comummente atiramos para o lixo.
A música e dança são ingredientes fundamentais e infalíveis para criarmos uma “conspiração de sorrisos”. Para além dos aspectos festivos/lúdicos e estéticos, é através destas artes as crianças tomarão consciência dos seus corpos, apurarão o equilíbrio, explorarão o seu espaço particular e comum, comungarão de liberdade de expressão e de coesão de grupo, animando-se mutuamente e fortalecendo a auto-estima.
«O meu povo é assim altivo; damos o nosso melhor durante a dança» – (Anónimo da tribo Makah, América do Norte)
A obsessão pelo virtuosismo e pela competição tem levado a que muitos conservatórios se convertam em fábricas de génios (inclusive para fins políticos, como se verificou durante a Guerra Fria). Após vários anos de treino intensivo, muitos jovens músicos acabam por rejeitar a sua truculenta educação musical, desenvolvendo até uma aversão visceral aos seus instrumentos e ressentimentos em relação aos adultos mais próximos – aos quais se esforçaram tanto por agradar - por sentirem que lhes roubaram a infância.«Aprende a reverenciar a noite, renunciando ao ordinário medo dela, pois, ao banirmos a [exploração] da noite das nossas experiências [conscientes], faremos igualmente desaparecer uma emoção religioas e uma disposição poética que dão profundidade à aventura da humanidade.» - Henry Beston
Muito divertido e educativo é ainda aprender a interagir com os animais imitando-lhes as vocalizações (com ou sem recurso a objectos manufacturados pelas crianças). Este jogo é especialmente interessante quando efectuado à noite, não só porque ao limitarmos o recurso ao nosso sentido mais apurado – a visão - deixaremos grande margem para a imaginação e para explorarmos os nossos outros sentidos geralmente pouco valorizados, mas também porque as temperaturas mais baixas e o aumento da humidade verificados de noite favorecem a propagação dos sons.
Treinar a memória auditiva é imprescindível a qualquer naturalista, tanto mais importante se desenvolverem as suas aptidões como melómanos, músicos, ornitólogos,…
Também é vivamente aconselhável realizarem-se celebrações ritualizadas que envolvam os familiares dos petizes (ex.: festa dos solstícios, dos equinócios, do magusto,…). Para tal é indispensável efectuar-se uma recolha de mitos e de jogos populares, bem como uma investigação do modo como outras civilizações (ex.: os celtas, os iberos, os árabes,…) que habitaram a península ibérica celebravam as suas ligações telúricas, tentando compreender a essência espiritual desses rituais.
No planeamento das tarefas de trabalhos manuais propostas pelos educadores, deveremos ter em conta que, se sabemos que nas actividades desportivas não podemos submeter as crianças à disciplina exaustiva de um atleta de alta competição, os olhos das crianças não devem ser forçados horas a fio com trabalho meticuloso. (basta pensarmos que vários anos “acorrentados” aos livros faz que grande parte de nós tenhamos passado a necessitar de óculos. E se necessitarmos de exemplos mais dramáticos, poderemos informarmo-nos sobre o que acontece em quantiosas fábricas asiáticas que empregam quase exclusivamente mão-de-obra infantil em tarefas que exigem um esforço enorme dos olhos. Em pouco anos as crianças são despedidas pois perdem irremediavelmente a sua acuidade visual.)
Uma actividade extremamente divertida e de inquestionável utilidade didáctica é a de calcorrear os campos colhendo o máximo de informação visual sobre todo o tipo de materiais, seres vivos silvestres , ou apenas pormenores destes, que despertem a atenção do observador atento. De volta à oficina, tentaremos reproduzi-los com uma escala diferente, dando-lhes uma componente prática para o nosso quotidiano (como é apanágio da Escola Soares dos Reis, no Porto). A olaria é o método ideal (por ser o barro versátil, extremamente dúctil e barato) para esta tarefa, mas a escultura em madeira poderá ser uma evolução de materiais muito interessante para adolescentes.
O caminho para a realização pessoal também passa pela formação de cidadãos conscientes e reivindicativos sobre o que é realmente essencial para aqualidade de vida dos indivíduos e da comunidade, começando pelo património natural.
PB
sábado, setembro 16, 2006
PB
quarta-feira, setembro 13, 2006
(especialmente dedicadas a quem se queixa de que os meus textos são muito longos e que eu sou narcisista...)
Quando o naturalista, poeta, ensaísta, escritor, jornalista, educador ambiental, personalidade televisiva ligada à divulgação do patrimónionatural e agricultor biológico, Joaquín Araújo, escrevia regularmente para arevista espanhola "Integral", numa crónica especialmente comovente, contou sobre um costume seu de incitar alguns amigos que o visitavam na sua quinta a procurarem a árvore que mais os atraísse. Uma vez escolhida, atribuíam-lhe o nome da pessoa que a elegera. Uma das árvores que mais o cativara (tendo, inclusive, escrito muitos textos belíssimos à sombra da sua copa) era uma azinheira homónima da sua sobrinha. Mas a ligação entre elas duas tornou-se mais profunda do que a fonética/nomenclatura e até que os sentimentos efémeros, (re)unindo dois reinos que a ciência separou; duas entidades orgânicas e energéticas que as religiões ocidentais não admitem familiaridades. É que a menina tivera uma morte prematura, e as suas cinzas foram depositadas junto das raízes da sua árvore favorita - que continuou a dar amparo aos familiares que, com a chama do amor, continuam a manter viva a memória da criança. Joaquín Araújo termina essa crónica indagando-se sobre a razão de, ao invés de as nossas cinzas se tornarem árvores com nome, insistirmos em transformar as florestas em cinzas anónimas...
Há pouco mais de uma década, viajei com um pequeno grupo de portugueses até à Índia, mas primeiro tivemos que aterrar em Schipol/Amesterdão. Como o voo de ligação só partia no dia seguinte, vi-me na contingência de pernoitar na Holanda, onde fazia um frio de rachar naquele início de Dezembro. Afortunadamente, alguém tinha uns amigos que residiam naquele país. Avisados da nossa chegada, estes foram buscar-nos ao aeroporto e ofereceram-nos guarida na sua casa. Quando lá chegámos já estava de noite e eu mal espreitei pela janela do comboio entre o aeroporto e a casa dos nossos simpáticos anfitriões. O nosso avião partia cedo e, por isso, tivemos que sair de casa ao lusco-fusco. Para piorara as coisas, cobria-nos um tal nevoeiro que mantinha refém a noite e nos gelava até aos ossos, dando a impressão que seria possível cortar fatias do ar saturado com gotículas. Os halos fantasmagóricos dos candeeiros de rua não contribuíam muito para melhorar/abrilhantar a situação.
Os 5 minutos que esperei numa paragem de autocarros, ocupei-os a “namorar” uma árvore. Era uma espécie de carvalho que não cresce espontaneamente em Portugal, e que eu só vira uma vez no norte de Espanha. Por isso, apesar do seu porte modesto e de mal a poder ver, estava encantado por poder acariciar-lhe as poucas folhas que lhe restavam (pois era de folha caduca).
Foi esse o meu primeiro contacto com a Holanda e, além de não ter guardado quase nenhuma memória visual, saí de lá sem fazer ideia do nome da cidade onde pernoitara.
Dois anos mais tarde, a minha vida de andarilho desaguou na Holanda, onde vivi 7 meses.
Entre os meus amigos, sou conhecido por ter um bom sentido de orientação no campo (incluindo bosques cerrados), mas sinto-me perdido em qualquer metrópole, talvez por nestas últimas me sentir tão desconfortável que não consigo fixar pontos de referência que me sejam simpáticos, apenas desejando sair dali o mais rápido possível. Por isso, mal cheguei à cidade onde contava passar uns tempos, uma amiga prestou-se a ciceronear-me. Num estilo muito holandês, deu-me boleia no suporte porta-bagagens da sua bicicleta, e, enquanto pedalava pela cidade, ia apontando os estabelecimentos públicos que julgava me iriam ser de maior utilidade. Nada naquela monotonia aprumada de tijolo-burro e cimento me parecia familiar e atraente; o entusiasmo exilara-se dos meus olhos, até que, ao entrarmos numa avenida ladeada por árvores jovens – todas da mesma espécie, tamanho e forma semelhantes – eu pedi-lhe para parar a bicicleta. Apeei-me e corri para uma árvore que me despertara a atenção (embora parecesse igual às várias dezenas que se perfilavam naquela via). Ao manusear algumas das suas folhas, sorri e disse para os meus botões: «esta é a árvore com a qual travei amizade a caminho da Índia.»
Ainda hoje não sei como a reconheci com tanta facilidade, até porque, para além dos motivos já expostos, agora a sua copa estava toda vestida com uma folhagem de início de Verão. Mas não me enganei, pois, a partir daquela árvore, pude reconstituir (de forma quase automática ou intuitiva), por entre um labirinto de blocos de apartamentos semelhantes, os passos que me levaram ao apartamento (a uns 150 m da árvore) onde passara uma noite há um par de anos. Bati à porta e surgiram caras familiares e espantadas como eu estava. Uma delas até falava português. Tornei-me uma visita regular.
Seis anos depois encontrava-me a trabalhar numa quinta pedagógica em Espanha. Regressando da horta (biológica, claro), deparei-me com um recém-chegado grupo de crianças (urbanas) que tinha acabado de saborear um delicioso almoço campestre. Com os estômagos cheios e o calor primaveril a apertar, a maior parte deles preferiu fazer uma sesta. Mas um pequeno grupo de rebeldes decidiu ajudar a digestão explorando as imediações da casa. Foram estes que encontrei à volta de uma velha azinheira, ao lado do caminho florestal.
Provavelmente por terem assistido na véspera a um filme de acção estrelando um dos artistas marciais mais requisitados em Hollywood, os 4 rapazes (que teriam entre os 9 e os 12 anos) desferiam golpes contra a árvore, tentando, desajeitadamente, imitar a técnica dos seus heróis da violência. (Como não eram parvos ao ponto de se aleijarem despreocupadamente/deliberadamente , limitavam-se a acertar na árvore com paus e com as biqueiras das botas.) Ao ver aquele comportamento, dominou-se um misto de tristeza e de agastamento. Não podia passar ao lado fingindo indiferença, mas sabia que, quer os abordasse com um tom paternal-professoral, quer os repreendesse rispidamente, o mais certo seria que os pequenos rufias (habituados a desafiar autoridades ineptas e enfraquecidas, como forma de se afirmarem) gozassem com a minha cara e, mal eu lhes virasse costas, fariam ainda pior, sem que os meus argumentos os tivessem convencido minimamente. Então tive uma inspiração que, modéstia à parte, se revelou brilhante.
Apesar de nessa altura já ter transcorrido quase uma década desde que parei de praticar artes marciais de forma aplicada, ainda estava em condições de impressionar aqueles garotos (que fingiam ignorar-me). Parei junto deles e, mesmo antes de me apresentar (e sem ter o cuidado – fundamental – de fazer um prévio “aquecimento” muscular), executei uns golpes algo acrobáticos, na linha daquilo que eles fantasiavam ser capazes de fazer. Isso conquistou-lhes a atenção, deixando-os de queixo pendente. Foi o momento certo para me apresentar. Perguntei-lhes se queriam saber qual era o segredo da minha perícia atlético-marcial (ah, como eu detesto esta expressão inevitavelmente jactante). Como seria de esperar, responderam afirmativamente. Contei-lhes que, para além do treino e da capacidade de concentração, grande parte da minha energia provinha das árvores. (Se formos ao fundo da questão, até nem menti, embora eu tivesse preferido uma abordagem mais esotérica capaz de fascinar aqueles miúdos que só se deixam seduzir por figuras de ficção.) Eles olharam-me com cepticismo, mas permaneceram com um interesse bem vivo / expectante. Propus-lhes, então, que fizéssemos uma experiência capaz de tirar a limpo a minha inusitada afirmação. O que se seguiu foi uma versão telúrica daquele velho jogo (muito popular nas festas de estudantes universitários) que consiste em canalizar a energia do grupo, culminando no levantamento de uma pessoa (de uma forma demasiado fácil para as nossas conhecidas limitações musculares).
Expliquei-lhes que, como sempre tratara bem as árvores, elas retribuíam-me o amor, tornando-me mais forte, e que, se eles fizessem o mesmo, seriam capazes de erguer os colegas, tão alto quanto os seus braços fossem capazes de se esticar e utilizando apenas um par de dedos. Os miúdos entreolharam-se, desconfiando que eu os estava a tomar por tontos, preparando-me para lhes pregar uma partida e rir-me à custa da sua ingenuidade pueril. Instintivamente, franziram os sobrolhos e apertaram as pálpebras como fazem os míopes, tentando descortinar a minha expressão facial e toda a linguagem corporal, à procura de sinais de mentira. Como eu mantive uma expressão de convicção serena, aceitaram a minha proposta de colocarmos todos as mãos na árvore que eles, um pouco antes, tinham tomado por um saco de porrada. Disse-lhes que a árvore provavelmente estaria ofendida pela maneira rude como acabara de ser tratada, mas que, por sorte, as árvores são seres extremamente generosos e, como tal, não nos negaria a sua energia, sabendo que os miúdos não tinham, agido por mal. Fiz uma ressalva para que, caso não fosse bem sucedida a experiência por mim conduzida, não nos deveríamos sentir mal por isso; simplesmente teríamos que tentar mais tarde, realçando que nada de mal nos aconteceria se tivéssemos a coragem de acreditar que teríamos sucesso.
Começámos por experimentar levantar o garoto mais pesado usando apenas os nossos dedos indicadores. Previsivelmente, o resultado não foi espectacular. Pedi-lhes que, se queriam que resultasse, teriam que colocar as mãos na árvore e fazer o que eu lhes pedisse. Quando as palmas das nossas mãos estavam encostadas ao tronco da árvore, perguntei-lhes se conseguiam sentir que aquele era um ser vivo, mas que tampouco se preocupassem se não o conseguissem; demora o seu tempo a desenvolvermos essa capacidade. Ficámos concentrados, em silêncio, por cerca de um minuto. De seguida, pedi-lhes que nos déssemos as mãos à volta da árvore, continuando com a mesma atitude de seriedade ritual. Depois pedi ao rapaz gorducho para se sentar numa pedra junto da árvore. Aos outros pedi que para que sobrepuséssemos, de forma intercalada, as nossas mãos sobre a sua cabeça (mas sem lhe tocarmos), formando uma pilha fraternal de dígitos. Reiterei na necessidade de fazermos silêncio absoluto e acrescentei que deveria fechar os olhos de forma a aumentarem a concentração, garantindo-lhes que podiam confiar em mim, e que nos aproximávamos do desfecho da experiência que os iria impressionar imenso. Quando intui que estávamos preparados, dando o exemplo, pedi-lhes que cada um unisse os indicadores, mantendo os outros dedos entrelaçados, e que os colocassem nos sovacos e nas dobras interiores dos joelhos do miúdo com excesso de peso, e, contando até 3, levantámo-lo como se ele não pesasse mais do que a refeição que tinha acabado de ingerir.
Parecia que os corações dos rapazes lhes queriam saltar pelas bocas. Estavam deslumbrados e até algo assustados, como se eu tivesse aberto a porta da dimensão mágica onde vivem os seus heróis de ficção. Os seus olhos esbugalhados/arregalados, saltavam, frenéticos, entre nós e a árvore – esta última tinha subitamente ganho um estatuto de admiração que reservamos para o âmbito da teologia.
Despedi-me, dizendo-lhes que mais tarde iria passear com eles, mostrando-lhes coisas bonitas no campo. Segui caminho com a reconfortante esperança de que aquelas crianças tão cedo não maltratariam árvores.
Antes de partirem, ainda tive a oportunidade de lhes emprestar uns estetoscópios para que pudessem ouvir as árvores a bombearem a sua seiva, bem como a actividade dos invertebrados que vivem sob a casca, além de termos repetido a experiência da canalização da energia (sem que os miúdos mais pesados fossem relegados para a função de peso-morto). Expliquei-lhes que esta também funcionava sem recorrerem à energia das árvores, mas que os resultados seriam melhores da maneira como a tínhamos feito, até porque é purificadora a energia das plantas e, se as respeitarem, tornar-se-iam pessoas melhores. Um óptimo jogo para nos ajudar a reconhecer a individualidade das árvoresconsiste em prescindirmos do sentido que mais prezamos e de que maisdependemos: a visão. Agrupamos as crianças (embora gente de todos osescalões etários podem e devem fazer esta experiência enriquecedora,original e divertida) aos pares: uma terá os olhos vendados e a outra será asua guia. Esta última terá a responsabilidade de conduzir o/a companheiro/a (cuidando do seu bem estar, não abusando da sua vulnerabilidade) até umaárvore (que esteja a, pelo menos, 15 metros de distância e inserida numaárea florestada). Uma vez alcançada, a criança temporariamente privada davisão deverá ser encorajada a fazer uma minuciosa exploração dereconhecimento da árvore, recorrendo aos seus outros sentidos. A melhormaneira de a ajudarmos nesse processo de descoberta e memorização (ex.: a forma, a textura, o cheiro,...) é fazendo-lhe perguntas do género:«consegues abraçá-la completamente?» Se não, «imaginas qual é o seudiâmetro (grossura), circundando-a sem deixar de a abraçar?»; «é maciça ou oca?»; «é uma árvore viva ou morta?»; «será mais velha que tu? Porquê?»; «a que altura estão os primeiros ramos?» (Para responder a esta questão, poderá ser necessário pegar na criança ao colo, soerguendo-a até as suas mãos tocarem nos ramos). « A casca é macia ou áspera?» ; « tem um lado mais húmido que o outro?»; «tem cheiro?» Se sim, «o da casca é diferente do das folhas (ou agulhas)?»; «que seres vivem nela?» para responder a esta pergunta, deverá ter uma experiência dúctil / táctil com os líquenes e com os musgos (caso os haja, evidentemente). As crianças gostam muito de, com a pele sensível da cara, trocarem carícias com o musgo húmido. Também deverá concentrar-se em tentar ouvir as aves (através das suas vocalizações, poderemos tentar imaginar, geralmente com bastante acuidade, o tamanho que elas têm) ou, eventualmente, as actividades dos insectos.
As crianças deverão tomar o seu tempo, de forma não competitiva, até que consideram satisfatória a sua exploração/reconhecimento invisual (mas muito estimulante para os outros sentidos quotidianamente substimados). Depois será conduzida de volta ao ponto de partida, mas tendo o cuidado de lhe darmos uma voltas desorientadoras. Quando remover a venda, terá que partir ao encontro da "sua" árvore. Uma vez descoberta, trocará de papéis com a criança que lhe serviu de guia .Este tipo de emoções deverão preceder e servir de cadinho aos conhecimentos taxonómicos. Saber o nome e pormenores fisionómicos de algumas pessoas diz-nos pouco sobre a melhor maneira de nos relacionarmos com elas. Como diz o povo: «há muitas Marias na terra», mas todas têm personalidades e histórias pessoais diferentes, inclusive as gémeas idênticas. O mesmo se passa com as criaturas silvestres. Não é por servos pouco versados em hidrologia, nem por desconhecermos o nome de um ribeiro de montanha que ficaremos impedidosde nele matarmos a sede, mitigarmos o calor e de sermos contagiados pela sua beleza e serenidade cantarolante. Se formos capazes de desfrutar de tudo isto, seremos mais activos (e menos vulneráveis à corrupção) na defesa desse património natural.Um educador ambiental tem que nutrir um amor sincero pela natureza e saber partilhá-lo, de forma contagiosamente entusiasta, honesta e com uma grande dose de sentido de humor. Isto também significa saber ouvir, não desprezando as reacções e observações dos seus interlocutores, mesmo que as considere erradas. Devemos sempre incitar à curiosidade e à participação construtiva. É preciso estarmos disponíveis para as crianças, mas sem as asfixiarmos com atenções, tarefas e a obsessiva imposição de conhecimentos científicos. É preciso os educadores terem "jogo de cintura" para saberem interpretar e adaptar tanto as informações teóricas como a metodologia à realidade socio-económica de cada grupo, bem como ao estado de ânimo de cada criança em particular (para tal, necessitamos de um ensino mais personalizado, afectuoso e com respeito idiossincrático)
PB
quinta-feira, setembro 07, 2006
Verde esperanto
quarta-feira, setembro 06, 2006
Estas fotos foram tiradas em 1991. Correspondem a um enorme salgueiral que medrava em frente ao Casalinho, na continuação do paul dos Patudos (ou vale da Atela), para montante. No seu todo, o nosso paul não tinha comparação em Portugal. Facilmente, com a promoção adequada, poderia converter-se num enorme pólo de atracção turístico, para as escolas e para a comunidade científica, colocando Alpiarça no mapa pelas melhores razões. Mas o nosso Rei Templário (que também tem o cognome de “O Libertador”, pois, segundo ele mesmo, «libertou Alpiarça de uma ditadura comunista de mais de 2 décadas»…), que não podia estar-se mais a cagar para o património natural nem para os interesses dos que não pertencem à elite, recentemente que o magnífico salgueiral (de uns 10 hectares) fosse completamente destruído (em violação de algumas leis "sem importância")…Até os seus colaboradores têm plena consciência de que, se o nosso “ Libertador” tivesse poder antes de 1974, pouca gente teria ficado em Alpiarça, rumando para a liberdade que só conseguiam no estrangeiro… A propósito, tem alguma piada (?) comparar a acção destes déspotas da Merdaleja que não toleram críticas e que criam esquadrões de investigação e censura às bocas da oposição (ai, como eles odeiam a Internet!...), com as palavras que Salgueiro Maia proferiu a um jornalista que o interpelou quando o 25 de Abril ainda estava longe de ser consumado na celeuma de Lisboa, «estamos a fazer esta revolução para que mais ninguém tenha que fugir do país por causa do que diz, escreve e pensa» (sic).
Cornell não está a ser justo consigo (mesmo). Esse exercício de especulaçãoretrospectiva e culpabilizante é inutilmente masoquista. Com frequência vejo colegas meus, que até têm uma "grande bagagem técnico-científica",ficarem frustradas em situações semelhantes por carecerem de suficiente poder persuasivo, sobretudo quando lidam com pessoas de estratos culturais muito diversos. É possível que se Cornell tivesse os dotes oratórios de um burlão, ou simplesmente tivesse pago ao agricultor para deixar ficar as árvores (como forma de indemnização por abdicar de toda aquela lenha), odesfecho da contenda lhe tivesse sido favorável, mas isso não significa quetivesse agido de forma melhor. O mais importante é que o seu "coração"estava no sítio certo e que fez o melhor que pode. Por melhores que sejam os nossos argumentos e as nossas intenções, não nos podemosresponsabilizar duramente pela incapacidade de mudarmoscom celeridade uma mentalidade secular fortemente enraizada. Este infortúnio de Cornell traz-me lembranças análogas.
Desde que, em meados dos anos 80, o pessoal da Quercus deu início a um projecto destinado à protecção da área que hoje é conhecida como o Parque Naturaldo Tejo Internacional, tiveram como prioridade a melhoria das condições das populações locais, tentando contribuir para uma maior harmonização entre asactividades tradicionais e a salvaguarda e divulgação do património natural. Com um pastor em particular tiveram uma relação muito próxima, consolidando uma amizade. Durante quase uma década de longas e prazenteiras conversas, vários membros daquela ONGA tentaram aprender o máximo da cultura vernacular do pastor, ao mesmo tempo que se esforçavam por o tentar reeducar ambientalmente, em especial no que se referia à sua apologia pelas técnicas agrícolas modernas e insustentavelmente agressivas (baseadas na forte intervenção de maquinaria), que pareciam fascinar todos os campesinos daquela região deprimida. A parceria não se ficou só pelas palavras, colaborando em muitas actividades práticas, com óbvias vantagens para ambas as partes.Um dos técnicos da Quercus até elaborou alguns projectos para que o ditopastor pudesse ter acesso a subsídios comunitários (ex.: MedidasAgroambientais). Mal chegou o dinheiro e foi logo gasto a fazer lavouras profundas (num solo já esquelético e onde nem se pretendia semear nada) e apodar brutalmente todas as suas azinheiras (reduzindo-as a uns moribundos tocos, destituídos de folhagem e de dignidade)...Exactamente de forma oposta ao que os seus amigos ecologistas (incluindo-me a mim) lhe tinham explicado(exaustivamente) ser o mais correcto.
Antes de eu andar à procura de aves rupícolas (que fazem o ninho nas rochas) de grande porte perto do Douro Internacional, uns colegas ornitólogos que batiam aquela área, estando preocupados pela frequente pilhagem e destruição de ninhos, decidiram, por iniciativa própria, pagar um tributo anual a um pastor que costumava apascentar o seugado nas cercanias de um ninho de águia-real, para que ele se tornasse ovigilante/protector desse ninho. Caso as águias em causa conseguissem levar a sua criação avante sem que o seu ninho sofresse um ataque intencional por mão humana, o pastor receberia a sua recompensa monetária.Volvidos um par de anos, esses ornitólogos deixaram de contactar com o pastor eprovavelmente até se ausentaram completamente da região. Por essa altura, passei por lá e encontrei o tal pastor. Este estava furibundo e exigiu que eu (que nem sabia do acordo) lhe pagasse pelos seus serviços de vigilância, caso contrário ele mesmo destruiria o ninho....
PB
terça-feira, setembro 05, 2006
Por vezes o jornalismo ao serviço dos interesses corporativos e político-partidários “beneficia”da sensibilidade feminina bombeada por uma veia poética digna de uma Paula Bobone. No texto que Alice Nicolau escreveu no “Diário Popular” de 16/03/89 acerca dos eucaliptos, notem os paralelismos entre os preconceitos sociais extremamente fúteis (a exaltação de figuras esbeltas e de cor clara e o desprezo ao seu oposto) extrapolados ao mundo natural:
«Alta, magra, de crescimento rápido, folha pontiaguda, “double face”, verde claro, verde aveludado, esta é a árvore do futuro: o eucalipto. Baixa, atarracada, de copa larga, forma maciça, folha verde escura, rugosa, esta é a arvoredo passado: o sobreiro.
Com a primeira faz-se a sofisticada pasta de papel. Com a segunda cresce aquela coisa rugosa, grosseira, medievalesca, que dá pelo nome de cortiça.»
O Ministro da Indústria «O eucalipto é o nosso petróleo verde e é necessário à indústria da celulose. Temos que defender aquele importante recurso e quem está contra a plantação de eucaliptos são as forças que não querem o desenvolvimento industrial e o progresso do país.» (in “Diário de Lisboa” de 6/04/89)
«O governo não embala em paixões ecológicas, nem pactua com forças que querem impedir o desenvolvimento industrial, obstruindo a plantação de eucaliptos.» (in “Diário” 17/04/89)
os autarcas (que há decadas que têm o poder de vetar plantações de eucaliptais até 50 hectares) embarcaram cegos nesta eucaliptomania. Depois assumiram-se como vítimas de uma cabala pirómana...
A GNR servindo de pau mandado das empresas de celulose, que até instruiu os agentes da autoridade para elucidarem as populações sobre as vantagens dos eucaliptais (como aconteceu em Valpaços, por exemplo, onde os argumentos encomendados pelos seus patrões foi logo substituída or uma carga a cavalo, espancando aleatoriamente populares que se manifestavam pacificamente )
Onde é que esta gente diz agora ao ver o país a ser pasto das chamas?!...
PB
terça-feira, agosto 29, 2006

Eis um “presente” habitual dos caçadores que, de forma intimidante e grotescamente humorística, expressam assim o seu descontentamento por o proprietário de uma herdade ter conseguido para esta o estatuto de «não caça», a fim d proteger umas aves estepárias muito ameaçadas. Se se tratasse de uma zona florestal, certamente que teria logo sido incendiada…
PB
quarta-feira, agosto 23, 2006
Já que tanto se vangloria de ser «cabeça de fila» (sic) do RIPIDURABLE, deveria assumir as responsabilidades inerentes a essa honra e portar-se minimamente à altura dos objectivos desse projecto. Já basta de Portugal ser sempre a piada de mau gosto da Europa, passando todos nós por caloteiros irresponsáveis no que toca à gestão dos dinheiros comunitários! O paul dos Patudos tem uma importância relevante no contexto europeu (e com um potencial enorme!) e o RIPIDURABLE é destinado à conservação da natureza, à educação ambiental e até à promoção de actividades socio-económicas (ambientalmente) sustentáveis, cumprindo os reais objectivos da Agenda 21 local . Não deveríamos permitir que se transforme numa jogada de escroques ligados á especulação imobiliária. Que lógica tem gastar o dinheiro do RIPIDURABLE numa operação cosmética, em que se ajardina um pedacito do paul, colocam-se passadiços elevados e observatórios por entre eflúvios pestilentos do lixo escondido sob uma camada de terra (não impermeabilizada), entre muitas outras fontes de grave poluição; tudo isto como se fossem meros elementos decorativos, engodos literalmente para “inglês ver”, com o intuito de “valorizar” um maldito campo de golfe e muito cimento que se lhe seguirá (se o deixarmos!).
Todos os executivos camarários desta terrinha trataram o paul como se este fosse um imenso depósito de todo o género de materiais poluentes e onde qualquer atentado ambiental era permitido. (Pergunto-me se os alpiarcenses serão merecedores desse tesouro natural que, se estivesse num país a sério, seria uma área protegida motivo de orgulho e fonte de riqueza para as populações locais…)
Da mesma forma, a vala de Alpiarça continua a ser “tratada” como uma cloaca desprezível (não obstante fazerem uma hipócrita referência a ela no novo símbolo da vila).
Mas este executivo camarário, solerte como só ele, resolveu que, ao invés de fazer algo para proteger a natureza, bastava inventar uma “área protegida” fantasma! Agora já não precisamos ir até ao Tejo Internacional, ou ao Douro Int., ou à Ria Formosa para vermos um Parque Natural, aparentemente, temos um em Alpiarça... Assim o “atesta” uma placa - do ICN!!! – colocada logo à entrada da vila ( de quem vem de Almeirim, logo na primeira rotunda junto à barragem). Certamente que ninguém na autarquia alguma vez leu os estatutos de um verdadeiro Parque Natural, mas garanto-vos que uns 10 hectares de areia e uns poucos eucaliptos e pinheiros, rodeados por uma vedação de arame, apesar de guardarem um punhado de cavalos Sorraia, não são, em absoluto, um Parque Natural! (Como é que essas placas erróneas têm – ilegal e impunemente - o símbolo do ICN, é que eu gostaria de saber…)
Já há vários meses disse aos senhores políticos que tirassem de lá a placa que já induziu em erro vários naturalistas e que tem sido motivo de cachota por parte de alguns conhecidos meus que, de vez em quando, vêm até Alpiarça ver a passarada do nosso paul. (Se todos os erros da autarquia fossem deste calibre, e se fossem igualmente fáceis de corrigir, teríamos todos uma qualidade de vida muito superior…) Como, para “variar”, ignoraram a voz da razão, devemos concluir que é um erro intencional? Nesse caso, proponho que, para engordar a lista de atracções turísticas e enfunar a nossa auto estima bairrista com embustes, coloquem-se placas a indicar o Solidó, mas com a seguinte inscrição «Mansão Playboy» ou «Ilha dos Amores»; o campo de futebol deveria passar a ser assinalado como «Estádio Nacionla» ou «Santuário»; o Patacão poderia ser «Ruínas pré-históricas» (assim não teriam que reparar nada…). E o que poderíamos chamar ao edifício da autarquia? «A Caverna de Ali Babá e os…» Aceitam-se sugestões…
PB
sábado, agosto 19, 2006
Devo informar-vos que desconheço completamente se há um estudo ou um ante-projecto para tal obra, e em que modalidade seria construído e explorado esse Campo de Golf, tendo em conta que há terrenos que pertencem à Câmara de Alpiarça e outros ao Sr. Isidoro.Quer sejamos contra ou a favor do aproveitamento do Paúl da Gouxa para uma obra dessa natureza, todos concordarão que o Paúl tal como está também não tem qualquer aproveitamento turístico ou lúdico.Neste momento não passa de um matagal abandonado, onde o Salgueiro Negral tomou conta dos terrenos há anos abandonados pela orizicultura, alguns charcos cheios de erva pinheirinha e espadanas, e o despejo de águas putrefactas vindas do que deveria ser uma ETAR e onde corre um ribeiro que recebe igualmente as águas mal tratadas de uma exploração leiteira a montante que acabam por desaguar na nossa Vala Real.As margens e parte do solo do Paúl foram vítimas da exploração de pedreiras que deixaram as suas inconfundíveis marcas, que para ficarem com um aspecto aceitável precisam de uma intervenção profunda que lhes devolva um aspecto mais natural.Como sabemos o Golf é um desporto para ricos e a construção de campos de Golf tem sido uma maneira habilidosa de atrair capital para recuperar, em muitos casos com sucesso, terrenos que de outra forma continuariam abandonados, como matagais ou zonas pantanosas e malcheirosas.Gostaria de trazer aqui à discussão este tema e ouvir o que as pessoas pensam sobre o assunto e lançava algumas perguntas:
1.º - Será útil e viável a construção de um campo de Golf, tendo como contrapartida o embelezamento e recuperação de toda aquela zona, com a obrigatoriedade de fazer funcionar a ETAR e ter uma ribeira de águas limpidas?
2.º - Será que a construção de um Campo/Clube de Golf ficará à partida ensombrada pelo aproveitamento imobiliário e especulativo que advirão de tal empreendimento, ou por outro lado, seria uma mais valia para Alpiarça e que poderia captar futuros investimentos noutros sectores da nossa vila, nomeadamente a nível hoteleiro, comercial ou industrial?
3.º Seria uma estrutura como um Clube de Golf o complemento ideal ao Complexo dos Patudos, à Reserva do Cavalo do Sorraia, ao Parque de Campismo e à Albufeira dos Patudos?
4.º Mesmo que hipoteticamente no futuro se viesse a construir nas proximidades do Campo de Golf, uma urbanização de luxo e como é óbvio encher os bolsos a alguns especuladores imobiliários, seria isso bom ou mau para Alpiarça?
Aguardo os vossos comentários.
Como tenho o “pavio curto” e falo quase sempre com o “coração nas mãos”, apetece-me começar a chamar nomes. Mas isso seria uma atitude contraproducente e pouco inteligente, que se poderia desculpar (?) apenas por se considerar uma mero acto reflexo, fruto da minha enorme indignação e frustração por andar a pregar no deserto (de sensibilidades e ideais ambientalistas). Claro que eu não posso ser optimista ao ponto de acreditar que umas …… mensagens ambientalistas vão conseguir penetrar e medrar nas empedernidas mentalidades moldadas há muitos (demasiados!) séculos pelas religiões abraâmicas (judaísmo, cristianismo e islamismo). Mesmo os que recentemente conquistaram a independência intelectual do agnosticismo, a esmagadora maioria de nós continua a pensar que a natureza tem que ser ajardinada (não é à toa que o paraíso bíblico, o Éden, é descrito como um jardim…) e que o “desenvolvimento” e a nossa qualidade de vida só podem advir da destruição da natureza silvestre. As doutrinas economistas vigentes (que têm como deus o capital, e como principal religião o neoliberalismo) parecem cegas ao facto de que tudo – absolutamente tudo! – provém dos recursos naturais. Assim, desprezam completamente o BEM AMBIENTAL - entendido como um conjunto de coisas fundamentais, insubstituíveis e passíveis de serem auferidas por todos, mas dificilmente quantificáveis pelos economistas que servem o sistema. Urge, pois, fomentar mudanças de valores e comportamentos a fim de termos a capacidade de valorizar o BEM AMBIENTAL.
Como contabilizar e traduzir por cifras a acção purificadora (da água e do ar) que o paul nos presta? E a experiência tanto sensorial como espiritual de nos embrenharmos no salgueiral, onde praticamente não se ouvem carros e onde abunda a fauna? Ou julgam que o remédio anti- stress só passa pelo golfe?
“Existe no nosso país um forte corporativismo patrimonialista que se opõe frontalmente à integração e interdisciplinariedade inerentes à ideia de meio ambiente.” (Fernando Bernaldez, 1988)
O capitalismo tornou-nos tão estúpidos que recusamos o direito à existência a tudo o que a nossa ganância desconhece utilidade imediata …
O autor do texto que tomei a liberdade de aqui reproduzir a partir do blog «Rotundas e Encruzilhadas» certamente que perfilha destas visões anacrónicas contra natura. Pois, em teoria todos somos “amantes da natureza”, mas na prática estamos nos antípodas dessa asserção politicamente correcta. (Ao contrário do que é publicitado, a natureza não é a maior das putas, nem os bons amantes são aqueles aos quais interessa apenas o seu prazer egoísta…)
É justo e proveitoso que se faça um debate público o mais alargado possível (incluindo a diversidade de opiniões minimamente fundamentadas), mas a sua posição apenas disfarça (e mal) ser neutral. Ex.: «(…) todos concordarão que o Paúl tal como está também não tem qualquer aproveitamento turístico ou lúdico.Neste momento não passa de um matagal abandonado »
Engana-se redondamente. Quem diz isso não pode conhecer bem o paul (apesar de demonstrar conhecer os nomes vernaculares de algumas espécies). Já dizem os ambientalistas que «ninguém protege o que não ama e ninguém ama o que não conhece.»
No primeiro passeio para os “bloguistas e afins” que organizei e que tive o prazer de guiar no Paul dos Patudos, acompanhou-nos um senhor (e a sua respectiva família) que tem uma empresa, bem como uma associação (Acção Natura), dedicadas ao turismo de natureza, e, como tal, veio
Apreciar as potencialidades do nosso paul para cá trazer pessoas de todo o país. E gostou mito do que viu, mas, tal como tinha acontecido há alguns anos com outro amigo meu que tem uma pequena empresa de turismo equestre, torceu o nariz ao facto de o paul se ter tornado num feudo desregrado dos motoqueiros que incomodam terrivelmente e até colocam em perigo os eco-turistas e as crianças das escolas em visitas de estudo. Como compatibilizar estas coisas? Quando é que as pessoas vão aprender o que é desenvolvimento sustentável?
Já cá trouxe igualmente vários ornitólogos que, sintonizando comigo, conseguem focar os olhos no futuro, pois têm noção do enorme potencial ecológico-conservacionista e lúdico-didáctico (incluindo o turismo) do paul. (ex.: Aconselho-vos veementemente a que procurem informar-se sobre o projecto «Cañada de los Pájaros», em Espanha!)
Ultimamente também andam técnicos/cientistas muito competentes a fazer trabalho de campo no paul – e isto é só o começo! Infelizmente, tal não é divulgado para a população. E os projectos de conservação/desenvolvimento sustentável têm poucas hipóteses de vingar, se as populações locais não os acarinharem.
O facto de o Paul dos Patudos ser um ecossistema muito interessante – à escala europeia, podem crer! – em nada se deve ao mérito do homem. Ainda bem que é um « matagal abandonado » (sic), pois isso significa que a natureza pode recuperar (a partir de um arrozal, que, por sua vez, tinha sido implantado numa zona húmida com um valor ecológico superior ao que tem hoje) de uma forma muito melhor do que a ciência e a tecnologia humana jamais conseguiriam. Porque é que a natureza só é valorizada quando é subjugada pelo homem e quando se traduz em dinheiro no aqui e agora?! Essa é a velha escola que nos está a arrastar para um Armagedão ecológico, meus caros!
Não creio que haja maldade implícita nisto, mas suas perguntas são capciosas, pois tentam ludibriar e empurram para a satisfação dos seus interesses pessoais (que podem ser apenas uns preconceitos pleonasticamente infundamentados). Ex.: fala que os campos de golfe “recuperam” «matagais ou zonas pantanosas e malcheirosas.» (sic) Até me admiro como é que não acena com o fantasma da malária antigamente associado às zonas húmidas… É bastante revelador o desprezo com que fala da natureza silvestre… E se o nosso paul é, de facto, mal cheiroso, isso deve-se a que o inundamos de merda há décadas. As zonas húmidas são prodigiosas em depurar os detritos orgânicos, mas há muito que saturámos essa capacidade.
Dê-me lá um exemplo (bem fundamentado, não bastando ler folhetos e sites produzidos por operadores dessa actividade turística) em que um campo de golfe tenha “melhorado” algum ecossistema. Toda a actividade humana tem impacto no ambiente. Temos que medir os prós e os contras, mas não vale a pena dourarmos a pílula desonestamente.
Conheço bem o que são técnicas propagandistas e de desinformação. (ex.: Ao invés de ilustrar as suas palavras com uma foto do nosso paul – cuja beleza fala por si - , escolheu uma de um campo de golfe com um aspecto quase idílico para quem não percebe puto destas temáticas…)
Vamos reduzir este debate – de extrema importância – a questões de aparências?!
As pessoas daqui habituaram-se a considerar o paul como uma área incompreensivelmente inculta, ideal para ir despejar lixo e entulho, abater todos os animais silvestres por diversão e, mais recentemente, para ir praticar motocross. A maioria dos alpiarcenses nem sequer conhece este tesouro natural extremamente frágil, ou então não são sensíveis a essa riqueza que, por um acaso, herdaram mas que não desenvolveram uma responsabilidade afectiva. Não obstante, sei que nem todos são cegos às maravilhas do mundo natural. Se não conseguirmos preservar o nosso paul, como o iremos “justificar” aos nossos filhos ? Aos que guardam o coração na carteira, espero que consigam arranjar argumentos realmente válidos para debatermos estes assuntos com idoneidade e civilidade – preferencialmente de olhos nos olhos e abobadados pelo salgueiral e tendo como “música de fundo” o coro alácre das aves…
Outro exemplo flagrante de uma pergunta capciosa é: «Será útil e viável a construção de um campo de Golf, tendo como contrapartida o embelezamento e recuperação de toda aquela zona, com a obrigatoriedade de fazer funcionar a ETAR e ter uma ribeira de águas limpidas?»
Lá vem a desbotada parvoíce de que o “embelezamento” e a “recuperação” da natureza silvestre só é possível quando a terraplanamos e a ajardinamos (para usufruto exclusivo dos abastados)… Quanto mais maquinaria pesda e engenheiros civis, melhor! Isso é que é um sinal de “progresso” e de “desenvolvimento”! não é assim?...
O projecto, tal como me foi dado a conhecer (secretamente), previa que o efluente da ETAR seria canalizado para a vala de Alpiarça (que é vista pelos políticos apenas como uma cloaca…), de modo a que os golfistas e os moradores do condomínio de luxo não fossem afectados pelas pestilências. Mas temos que ter em conta que o paul está saturado de poluição grave. Não existe qualquer projecto de intervenção a esse nível relacionado com o campo de golfe; ante pelo contrário. Ao se criar uma enorme lagoa artificial em frente a esse polémico empreendimento, os poluentes (provenientes sobretudo da ETAR, da lixeira, da vacaria, da suinicultura, da fábrica de paus, da agricultura) concentrar-se iam aí. Sem vegetação palúdica, a acção desses poluentes seria incrementada por acção da forte exposição aos fotões. Pior, os campos de golfe utilizam imensos agroquímicos tóxicos. Ao bombearem a água muito poluída da lagoa para regar o relvado artificial, juntar-lhe-ão ingentes quantidades de pesticidadas e de fertilizantes de síntese química. Estes, por sua vez, escorrerão para a lagoa, num ciclo vicioso que vai sempre piorando. Suponho que se está a borrifar para as quantiosas (e algumas bem raras) espécies silvestres que existem lá no paul “abandonado”… mesmo que nos tentem impingir campos de golfe “ecológicos” (como se isso fosse possível!), reciclando a água das ETARs e recorrendo a agroquímicos de baixa toxicidade, será sempre um grande atentado contra o paul .
(Não sei que passe de magia julga ser possível para tornar as linhas d’água no Vale da Atela, bem como a Vala de Alpiarça, « ribeiras de águas limpidas?»…)
Esse seu conceito de “beleza” parece-me que tem paralelismos com os que preferem que a indústria de entretenimento lhes mostre jovens sem talento, mas com um aspecto atraente (segundo os cânones – da fruta “normalizada” – impostos pelo ocidente). Essa futilidade reinante tem tornado a vida extremamente difícil a pessoas brilhantes, muitas das quais soa obrigadas a desistir da sua verdadeira vocação apenas porque não embelezam o ecrãn…
Continuando com essa metáfora, deduzo que para si o paul , tal como está, é como uma mulher feia e mal cheirosa, e o campo de golfe é como um vestido de um estilista famoso que, uma vez no corpo da “feiosa”, vai torná-la de imediato em Miss Universo. Acertei? É muito rebuscado?
Sejamos honestos: Alpiarça não tem nenhum atractivo turístico realmente especial, a não ser a Casa Museu dos Patudos e (esperemos que isso seja possível num futuro próximo) o paul.
O turismo, seja lá de que género for, não é panaceia para todos os nossos problemas económicos (que resultam de um acumular de más opções, cujas penosas consequências ainda vamos sofrer por muito tempo…)
Pretender instalar no paul um campo de golfe, uma lagoa enorme, condomínios, piscinas, etc… seria pior do que rodear a casa em que viveu José Relvas com o Centro Comercial Colombo. O projecto que estamos a discutir não vejo que consiga vingar economicamente, mas, se insistirem em ir para a frente com esse disparate, façam-nos noutro local! A quinta da Lagoalva ou a Qta da Torre que sustentem esse investimento, uma vez que já estão vocacionadas para o turismo das tias e dos tios. Se ainda não implementaram grandes campos de golfe é porque sabem que, por si só, nesta região esses empreendimentos são insustentáveis - a não ser que sejam uma artimanha da especulação imobiliária...
O campo de golfe, previsivelmente, não tem qualquer viabilidade económica, mas a principal jogada é a especulação imobiliária. Se reparar bem, num raio de apenas 50 Kms há, ou está previsto a sua implantação para breve, uns 5 ou 6 campos de golfe. (Não nos esqueçamos que querem construir um mega aldeamento turístico - para 20 ou 30 mil pessoas, sobretudo reformados do centro e norte da Europa!!! – à volta do paul do Boquilobo, não podendo faltar, está claro, um campo de glofe…) Só à volta de Lisboa existem uma vintena deles. Ninguém se irá desviar da grande metrópole e/ou do Algarve para vir dar umas tacadas a Alpiarça (nem sequer ao Solidó...)
Um amigo meu que trabalha no Ministério do Ambiente, disse-me que, entre particulares e autarquias, o governo está a ponderar a aprovação de mais de 200 campos de golfe em Portugal! Isto num país que sofre de falta de agia e que será dos países em que o aquecimento global trará as consequências mais gravosas!
Por dia morrem cerca de 30 mil pessoas devido aos problemas inerentes à ingestão de água não potável. E nós, os privilegiados, desperdiçamos a água potável para lavar carros, para os autoclismos e para regar campos de golfe (como acontece no Algarve). É imoral e suicidário!
Ao Consumirmos os recursos naturais de forma insustentável estamos também a limitar drasticamente as hipóteses de alternativa (que, neste caso, significa dispor de algumas saídas em meio à destruição generalizada) às gerações futuras.
Tal como os políticos & autarcas deste país terceiro-mundista que, à força toda, conseguiram transformar Portugal num imenso eucaliptal, agora olham para o lado e assobiam ou culpam o diabo e a cabala dos incendiários, quando o país, inevitavelmente, se converte num mar de chamas a cada verão – porque ninguém lhes pede responsabilidades - , quero ver daqui a uns anos o que irão dizer os promotores dos campos de glofe abandonados e transformados em cimento e alcatrão à espera de compradores…
Se nem o campo de golfe do Melancia no sopé do Marvão, (que é um sítio privilegiadíssimo e em que abundam tanto os atractivos turísticos bem conhecidos, como as ofertas de camas e de comida) conseguiu vingar economicamente (apesar da tentativa de último recursos em tentar que fosse acessível não apenas à elite) , como esperam que em Alpiarça seja um sucesso?! É que, para além de sempre constituírem graves atentados ambientais, os campos de golfe são muito dispendiosos quanto à sua manutenção e dão poucos postos de trabalho.
O que vamos fazer quando os turistas não aparecerem? Construir casinos e centros comerciais?
Provavelmente, também é dos que acha que o Euro 2004 foi um bom investimento financeiro porque o dinheiro ficou cá… Pois ficou – nas mãos de quem já estava cheio de dinheiro e explorando a mão de obra clandestina e precariedade dos empregos temporários! Os estádios novos que se construíram para um evento que só durou um mês vão deixar os respectivos municípios a pagar dívidas durante uns 30 anos ! (A propósito, vou confidenciar-vos algo bastante elucidativo. Os terrenos em que foi erigido o Estádio do Algarve foram expropriados pelo Estado, que por eles pagou uma ninharia, devido à alegada “utilidade pública”. Não muito longe dali existem uns terrenos particulares que estão há muito abandonados e onde cresce um dos últimos núcleos de uma planta muito ameaçada de extinção, a Tuberaria Major. Neste caso, o Estado recusa-se a expropriar os terrenos para fins de conservação de uma espécie que poderá desaparecer em breve, porque se encontram numa zona em que duas Câmaras Municipais pretendem implementar um projecto megalómano que inclui 3 campos de golfe e condomínios a perder de vista. Os técnicos do ISA, que, a par das ONG Almargem e Quercus, sondaram aquele local à procura das raridades botânicas, entregaram ao ICN um relatório em que pediam a protecção urgente daquela pequena área – que até está incluída nos limites do Pré Parque da Ria formosa -, mas o ICN sonegou essa informação a Bruxelas…)
Se eu e os que se opõem ao campo de golfe – sobretudo na área do paul – estivermos errados, no máximo meia dúzia de gatos gordos perdem uma das muitas negociatas possíveis. Se esse projecto lesa natura for avante e (inevitavelmente) se revelar um fiasco, será um desastre extremamente difícil de corrigir. É tão simples quanto isso.
Reitero as minhas sugestões para rentabilização (numa perspectiva de desenvolvimento sustentável do paul:
- Cooperativa de artesanato telúrico (ex.: peças de artesanato relacionadas com o património natural da região, que poderão ir das mais acessíveis, às mais sofisticadas e caras, como se pode observar no internacionalmente aclamado artista chileno Lucien Burquiers – cujo trabalho de extremo bom gosto dá emprego a muitas pessoas); pequenas empresas de eco-turismo e de educação ambiental;
- Criação da primeira reserva mundial do cavalo Sorraia (apostando forte também na hipoterapia), e depois associar os vinhos e os outros produtos agrícolas da região a esse equídeo ameaçado, bem como à avifauna local;
- Um centro interpretativo de apoio às escolas e aos turistas, mas também onde os investigadores possam fazer os seus trabalhos e pernoitar;
- uma ecoteca;
- Um centro de formação para actividades ar livre (que também sirva a atletas e a crianças desfavorecidas de todo o país);
- Um museu de arqueologia e a recreação (ao ar livre, pois claro) de uma aldeia pré histórica (uma merecida e original homenagem ao nosso singular património arqueológico, já que Alpiarça é extremamente rica em vestígios da ocupação humana durante o Paleolítico inferior, e, posteriormente, até se desenvolveu aqui a chamada “Cultura de Alpiarça”, em que se destacam as peças de cerâmica);
- E, porque não ?, recuperar o espírito romântico do final do séc. XIX, início do séc. XX (que inspirou José relvas) e disponibilizar para os artistas (pintores, fotógrafos, poetas, músicos,…) um local lá no paul para que se inspirem e, em troca, ofereçam a Alpiarça o raro privilégio de ver o seu nome associado a algumas das mais belas e criativas manifestações da nossa cultura.
Nada disto são sinecuras, nem o podem ser. Porque é que um projecto só é considerado “bom” se, logo à partida, der para os seus promotores adquirirem caros topo de gama? Tornámo-nos assim tão imbecis?!
Quanto ao outro senhor que foi à Internet roubar argumentos para defender incondicionalmente os campos de golfe, só me apraz dizer que a “sua” argumentação é tão absurdamente tendenciosa e falaciosa que insulta a inteligência até dos menos versados nestas temáticas! Este “tio” (que provavelmente pertence à máquina propagandista do PS local) Por vezes chega a ser hilariante, como, por ex., aquela de que os campos de golfe purificam a água da chuva; que 70% das suas áreas são óptimos habitats para as espécies selvagens,…
(repararam que para realçar as vantagens “ecológicas destes malditos empreendimentos utiliza como termo de comparação as superfícies cobertas com relva sintética, cimento e alcatrão? Pois, assim até a sombra das minhas cuecas num estendal é extremamente “ecológica”!...)
Transformar Portugal num imenso SPA todo verdinho pelos campos de golfe (onde irão arranjar água para isso?!) é o barrete mais recente que uns sacanas endinheirados, gananciosos e oportunistas nos querem enfiar. Querem que o nosso país se assemelhe à Escócia mas com a singular mais valia de um sol que brilha com intensidade todo o ano.
Iupiiiii, vamos ficar todos “bem de vida” a carregar tacos e a servir comida a velhotes balofos vindos dos países ricos!... E deixamos de ter problemas com os incêndios porque a nossa “floresta” será substituída por relvados artificiais. Porreiro! Até nos dizem que poderemos mandar os nossos idosos (com reformas ainda mais miseráveis quanto o nosso sistema público de saúde) e enfermos passear para os campos de golfe. Sem dúvida que lá lhes “tratarão da saúde” – pois não tardarão a morrer alvejados por bolas que facilmente se convertem em projecteis letais… (A propósito, quando estive a fazer trabalho voluntário num centro de recuperação para animais selvagens no Algarve, para além de atender numerosas aves aquáticas que sofrem de envenenamentos por agroquímicos nos CG, passou-me pelas mãos um milhafre com uma asa partida por ter entrado em rota de colisão com uma bola de golfe… Que tremendo azar !)
O argumento mais forte dos da sua laia é o impacto que a indústria do golfe tem no PIB. Eu já no ano passado analisei esses dados (fornecidos pelos promotores do golfe) e foi fácil concluir que são altamente forçados (e inflaccionados) na sua abrangência de possíveis indústrias satélite. Mesmo assim, prefiro elevar a conversa a um nível de inteligência bem superior e original, questionando os fundamentos doutrinários do PIB.
Não sou economista nem tenho especial simpatia por essa temática, mas atentemos no conceito abstracto, confuso e até falaz que é o PIB (Produto Interno Bruto). Este pressupõe apenas que cada unidade monetária (ex.: Euro, Dolar,..) transaccionada (ou seja, que muda de mãos)traduz-se em crescimento económico. Então, para o PIB é indiferente se se gasta determinada quantia pecuniária num projecto de rearborização adequada, ou a patrocinar um desastre ecológico; passar férias num local se sonho, ou gastar o mesmo dinheiro num acidente de automóvel (incluindo uma estadia num hospital). Muitos economistas até consideram as marés negras boas para a economia (o tal PIB…) porque geralmente implicam a contratação de pessoal de limpeza; reparação ou selagem dos navios naufragados; benesses fiscais; preços inflacionados; estimulo do comércio local, bem como dos serviços de apoio (relações públicas, media, seguradoras,..); contratação de organizações científicas para avaliarem os impactos ambientais; etc…
Por isso, parece-me errado confundir intercâmbios financeiros com verdadeiro crescimento económico; este último deverá contabilizar os bens fundamentais que perdemos (nomeadamente o bem ambiental e a saúde pública) com o que ganhamos. O PIB não tem contemplações para com a qualidade de vida e a sua estabilidade. A deterioração ambiental e as disfunções sociais em geral não deveriam ser incluídas nos parâmetros do “crescimento económico”, mesmo que algumas pessoas aparentemente beneficiem (a curto prazo) com as desgraças de outrem. A macroeconomia insufla o PIB, enquanto que esvazia a real qualidade de vida dageneralidade dos cidadãos. Para o PIB só contam as actividades que movimentam dinheiro, e para as beneficiar os poderes instituídos aprovam medidas que sacrificam todas as outras actividades que nos dão (ou poderão dar) mais felicidade e crescimento pessoal.
Os EUA podem jactar-se de que o seu PIB tem tido, desde 1973, um crescimento anual que ronda os 2,5 por cento, mas tal não tem correspondência na qualidade de vida dos seus cidadãos, nem na economia das instituições públicas (ex.: escolas, bibliotecas, hospitais,...) que não cessam de se degradar; os salários reais não têm aumentado e são vencidos pela inflação; o trabalho é precário e o desemprego é elevado; as pessoas têm menos tempo para a família e para o lazer, a insegurança impera,...Os EUA têm actualmente um deficit de despesa pública insustentável que constitui 6% do PIB (que é coberto pelo Tesouro Americano e cujos títulos foram comprados pelo Banco do Japão e pelo Banco de Reservas da China).Desde a administração Clinton até agora passou de 180 mil milhões de dólares (mmd)para 500 mmd. Se não fosse terem transformado o país numa máquina de guerra e de extorsão (através da jogada dos petrodólares e da dívida externa), tal como uma baleia encalhada (varada) na praia, o império já teria sido esmagados pelo seu próprio peso.
O próprio Tesouro Nacional e o Sistema de Reserva Federal dos EUA estão sob controlo das elites financeiras privadas. Assim, os accionistas, os credores e os especuladores minam a soberania económica do país e condicionam as suas políticas sociais. O mesmo acontece com o Banco Central Europeu, dominado sobretudo por um grupo bancário alemão. É um truque de prestidigitação político-financeira a aparente independência dos Bancos Centrais. Estes estão particularmente vulneráveis à pirataria especulativa, que, frequentemente, os obriga a contrair empréstimos junto de instituições privadas para evitar que se escoem as suas reservas e para travar a queda das moedas nacionais.
Até no Japão, onde a devoção às empresas e ao trabalho (reflexo da antiga fidelidade canina aos clãs) era um dos maiores orgulhos dessa sociedade que se aferrava à manutenção dos códigos de honra feudais, o sistema neoliberal, baseado na precariedade dos empregos, no desmantelamento das empresas quando estas não dão os lucros pretendidos pelos accionistas, e na redução da assistência social alterou a ordem socio-económica tradicional.
Suponho que teremos que esperar muito até ouvirmos um governante ocidental fazer declarações semelhantes às do rei do Butão, Jigme Singye angchuck: “Não estou preocupado com o PIB do meu país, mas com a felicidade do meu povo, [e essa felicidade está no budismo]”.
O capitalismo industrial apenas vê a natureza e os homens como recursos; a suafunção é criar e aperfeiçoar instrumentos e técnicas de dominância e deexploração. Só outorga (provisoriamente) o direito à vida aos seres quereconhece alguma rentabilidade económica. Mas esse inventário mórbido tem um efeito boemerang, cujo impacto filosófico e espiritual não é menor do que o verificado no plano físico. Com o ambiente ao nosso redor simplificado, rotulado e "rentabilizado", dificilmente nos conseguiremos esquivar de noscolocarmos a nós mesmos a mais fatídica das questões (pois, tal como apalavra "amén" era o sinal para se abrir o cadafalso nas execuções por enforcamento, precede sempre uma condenação binária: sujeição ou morte): "servimos para quê?"A resposta pode ser deprimente se o racionalismo materialista nos tiverconvertido em saqueadores desterrados de território sagrado. Atravessar esse deserto espiritual é uma experiência aterradora e fatal. Por isso queremos ser incluídos nos planos dalguma divindade - mas que corrobore, ou, pelo menos, perdoe qualquer atentado contra a vida, contra o próximo. Não podemos sobreviver alheados dos elementos e ciclos naturais, e nem em utópicas catedrais da tecnologia, como metafísicas "Biosferas II" * , poderemos restaurar a nossa cultura e a nossa espiritualidade.Até para os que se sentem superiormente evoluídos e sofisticados ** como para não caírem nas armadilhas do obscurantismo sobrenatural cheio de superstições infundadas, depositam a sua fé na ciência (com todos os seus mitos e dogmas). Não se trata de uma reverencia humilde, pois o culto do domínio capitalista-industrial é o mesmo, e a sociedade até aplaude a arrogância messiânica destes acólitos da megamáquina com acesso ao painelde controlo - de onde só é possível ter uma visão unidimensional,mecanicista, mercantilista e, em última instância, imperialista do mundo.
*- "Biosfera II" foi um projecto norte-americano que, numa gigantesca esofisticadíssima estufa de vidro com 1,3 hectares de extensão, pretendiarecriar as condições de vida na Terra de forma "autónoma" e durante umperíodo mínimo de dois anos, a partir de 1991. é esta a ideia de salva-vidaspara uma elite milionária que pretende assegurar a continuidade de uma vidapróspera e segura, quer seja sobre os escombros de um futuro terreno que elesmesmos arruinaram, quer em bases extra-terrestres. O projecto foi abortado aocabo de 17 meses, revelando-se um perigoso fiasco de 200 milhões de dólares.Oito humanos serviram de cobaias e, apesar dos desvelos dos cientistas e da tecnologia de ponta empregue, quase pereceram por falta de oxigénio (que várias vezes teve que ser bombeado do exterior). A maioria das espécies animais e vegetais que com eles compartilhavam aquele espaço artificial não teve tanta sorte.
Entretanto, a NASA está a preparar a recolha de todo o genoma humano com a intenção de o enviar para o espaço. Assim esperam que a nossa espécie possa Ter uma Segunda oportunidade, ainda que ridiculamente remota, de começar tudo de novo quando nos extinguirmos cá em baixo.
** Porque será que o epíteto/qualificativo de sofisticado é tão querido/do agrado às/das elites da sociedade urbano-industrial? A resposta mais simples e conclusiva encontramo-la no dicionário:
“Sofisticação: (...) 1 acto ou efeito de fraudar, enganar; falsificação, fraude 2 a coisa ou substância falsificada 3 excessiva subtileza (...) 4.1 falta de naturalidade; afectação 4.2 extremo requinte e finura 4.3 estado do que é muito avançado, complexo, bem aparelhado, eficiente.(...)”
Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa
Círculo de Leitores, 2002
Paulo Barreiros




