quarta-feira, março 28, 2007

Estados Papais

Os Papas (que tinham a sede episcopal em Roma) acumularam tanto poder político e em bens materiais (incluindo grandes extensões de terras provenientes de doações) que acabaram por assumir o controlo político e militar sobre quase todo o centro de Itália.

No séc. VII, os monarcas franceses também doaram um vasto território (onde se incluíam alguns castelos) à Igreja. Esses bens imóveis (da Igreja) em território francês foram exponencialmente aumentados no séc. XIII, com os despojos da Cruzada Albigense rapinados aos latifundiários cátaros.

Os Estados Pontifícios são oficializados em 756 pelo Papa Estêvão II (numa altura em que o cisma religioso entre os cristãos do ocidente e os do oriente afigurava-se irreconciliável) e, com muitos revezes, conseguem manter a sua autonomia (em Itália) até 1870.

Era frequente o exército dos Papas fazer alianças com senhores da guerra. A ajuda militar prestada à Igreja era recompensada com títulos eclesiásticos e até nobiliários. Tal foi o caso de Carlos Magno que foi empossado Imperador do Ocidente devido à ajuda que este prestou ao Papa Adriano I no combate ao Rei Desidério. Com total promiscuidade entre a Igreja e o Estado, Carlos Magno nomeou leigos para altos cargos eclesiásticos.

Desejando o mesmo, em meados do séc. XII, Frederico I (Barba Roxa), emparelhou armas com o exército do Papa Adriano IV, a fim de combaterem Arnaldo de Brescia que representava a oposição republicana à hegemonia do Vaticano.

Por absurdo que se nos afigure à luz da conjuntura política actual, a Itália do séc. XIX foi marcada por lutas armadas entre a Igreja e as forças plebiscitárias e patriotas pela posse dos Estados Papais, rumo à laicização da sociedade.

Foi só em 1929 que a Igreja Católica, representada pelo Papa Pio XI, aceitou reconhecer oficialmente a soberania do Estado Italiano, assinando os «Pactos Lateranenses». Neste documento, o Estado (representado por Mussolini) reconhece os mesmos direitos ao Vaticano.

Católicos X Calvinistas

Vale a pena analisarmos a guerra religiosa (entre católicos e protestantes) que, durante pelo menos 3 décadas, dilacerou a França do séc. XVI, início do séc. XVII, a fim de não nos esquecermos dos problemas inerentes à promiscuidade entre o Estado e as religiões.

O casamento de conveniência (nem havia de outro tipo entre a elite) de Catarina de Medici (1519-1589) com Henrique, duque de Orleans (segundo filho do Rei francês Francisco I) levou-a a mudar de país (antes de cumprir 14 anos de idade), mas tal não foi suficiente para a livrar dos violentos conflitos político-religiosos que marcaram a decadência da sua família em Florença.

Alguns livros de história, mais ou menos romanceados e tendenciosos (de orientação claramente católica), retractam esta soberana como alguém que se empenhou arduamente para que católicos e protestantes se aceitassem pacificamente (ou que, pelo menos, desenvolvessem alguma tolerância religiosa) durante as guerras religiosas que tingiram de sangue a Europa na segunda metade do séc. XVI, início do séc. XVII, tornando-se uma embaixatriz para a paz, mas sem que os seus esforços diplomáticos tivessem o resultado pretendido e merecido. Não obstante, existem suficientes provas de que Catarina de Medici foi umas das pessoas com maiores responsabilidades nos massacres aos huguenotes.

Em meados do séc. XVI o Rei de França, Francisco II (1559-1560),estava politicamente dominado pelos duques (católicos) de Guise. (A esposa deste filho de Catarina de Medici era Maria Stuart, cujos tios eram os temidos Guise.) Ora, desde o início desse século que um número considerável de burgueses e até de nobres tinha aderido ao protestantismo, cansados do excesso de poder e de poder e de corrupção tanto da Igreja Católica como da corte real.

Os protestantes tinham protagonizado alguns movimentos insurrectos e iconoclastas (ex.: nos Países Baixos e em Espanha). Como se isso não
fosse suficiente, geralmente os protestantes eram pessoas com instrução acima da média e dominavam em muitos negócios que prosperavam numa época em que a Europa atravessava uma crise económica.

Os católicos não admitiam nenhuma concessão aos protestantes e estes últimos não reconheciam a "legitimidade divina" da autoridade monopolizada pela Igreja de Roma e pela monarquia católica. «Muitos
católicos sentiam que a tolerância à heresia entre eles era como uma doença no corpo de Cristo, que ameaçava desfazer o contrato celebrado entre Deus e o seu povo. A retórica dos padres mais populares coincidia em inflamados apelos à purga/lancetação
dessa infecção moral/teológica, restaurando assim a confiança de Deus e, consequentemente, a estabilidade social.» - C. T. Iannuzzo

Martinho Lutero chegou a identificar o Anticristo na pessoa do Papa, e este último declarou que os protestantes eram todos agentes do Anticristo e do demónio.

Em França, Paris, Montpellier e sobretudo La Rochelle haviam-se tornado bastiões desse movimento reformista – que tentou converter o próprio Rei.

Vendo a sua hegemonia (como religião de Estado) ameaçada, os católicos fizeram um ataque “preventivo” contra um grupo de calvinistas, quando estes estavam a celebrar uma cerimónia religiosa (na localidade de Vassy), chacinando-os com impiedosa covardia. A extrema violência que estes facínoras (liderados por Antoine e Guise) cometeram “em nome de Cristo e do Rei” era o resultado da bem implantada mentalidade cruzadista e inquisitorial que dava aos perpetradores/algozes a impunidade das obrigações messiânicas. Mas, desta feita, a vilania do braço armado católico não passou em “brancas nuvens”, tendo despoletado uma guerra que envolveu as super potências de então. Os huguenotes contavam com o auxílio da Rainha (Elizabeth I) de Inglaterra, ao passo que os católicos franceses eram aliados do Rei (Filipe) de Espanha.

Os escrúpulos não tolhiam o jogo de bastidores de Catarina de Medici, que fora discípula de Maquiavel. Ambiciosa,calculista, versada em intrigas e em conluios com ambas as partes contrincantes e em ataques traiçoeiros (até mandara trazer, da sua Itália natal, para a corte francesa hábeis envenenadores; especula-se que Margarida de Navarra poderá ter sido uma das suas vítimas mortais), a Rainha-mãe, logo após o sanguinário atentado de Vassy, escreveu à família (calvinista) Condé (que eram então os principais inimigos dos Guise) dando-lhes a entender que estaria do seu lado, caso decidissem eliminar os Guise.

Ela também boicotou o arranjo matrimonial (que muito convinha aos Guise) entre a viúva Maria Stuart e um herdeiro ao trono de Espanha de seu nome D. Carlos.

Entretanto, o trono de França é entregue a Carlos IX (1560-1574), que, por ser ainda criança, necessitou da regência da rainha-mãe, Catarina de Medici (que, para conquistar esse direito, teve que usar toda a sua influência e habilidade em manobras de bastidores, com o intuito de afastar da regência o Rei da Navarra, um líder huguenote ).

A Rainha Catarina sentiu-se forçada a reconhecer importantes direitos (ex.: liberdade de culto e de autonomia administrativa em algumas praças-fortes huguenotes) aos protestantes, na esperança de apaziguar substancialmente os conflitos religiosos que já tinham provocado um omnicídio.

Começou por promover o Colóquio de Poissy (que decorreu durante os meses de Setembro e de Outubro de 1561), onde as duas comunidades religiosas em feroz litígio deveriam debater quais as divergências e quais as afinidades doutrinárias e teológicas, procurando uma coexistência pacífica. Mas as pretendidas vias de entendimento foram seladas pela intolerância.

Perante o Vaticano, Catarina justificou a necessidade desta polémica reunião ecuménica com o argumento de que: «é impossível reduzir pela força das armas ou das leis os que se separaram da Igreja Romana, tão grande é o seu número.» (sic)

Durante o referido colóquio, o azedume preconceituoso várias vezes descambou para os insultos gratuitos, os impropérios e as mais terríveis ameaças. Os intransigentes clérigos católicos não se coibiram de manifestar o seu ódio à heresia; e os calvinistas também cometeram algumas falhas diplomáticas. No final ficou claro que as posições dos líderes religiosos das facções contenciosas eram irreconciliáveis, não estando dispostos a mostrar respeito mútuo pelo bem de toda a sociedade.

Catarina de Medici foi posta em xeque pelos representantes do Vaticano, pois estes afirmaram que a coroa francesa corria sérios riscos de se perder para os demonizados calvinistas (apoiados por nações que pretendiam subjugar a França) e que a própria alma da rainha poderia estar condenada ao inferno, se ela deixasse acontecer tamanha desgraça.

Mesmo assim, poucos meses depois, Catarina de Medici teve que promulgar o Edito da Tolerância.

A situação complicou-se com a perspectiva de um sucessor à coroa, Henrique de Navarra, ser protestante. Igualmente partidário dos huguenotes, era o almirante Gaspard de Coligny, que crescia em poder e popularidade no exército. A Rainha nomeara-o para integrar o conselho real. Consternada, Catarina de Medici viu como Carlos IX, que tinha acabado de atingir a maioridade, a cada dia que passava se tornava mais íntimo de Coligny, pelo qual nutria bastante admiração e respeito. Para piorar a situação, em 1563, Coligny praticamente entregou o porto de Havre aos ingleses. Catarina de Medici teve o brilhante discernimento de enviar uma tropa conjunta de católicos e de protestantes para repor essa situação.

Michel de L’Hôpital (que era simpatizante do calvinismo) foi também nomeado chanceler.

Teodoro Beza (1519-1605) foi amigo pessoal de Calvino () e difundia as ideias calvinistas com uma eloquência admirada até pelos seus inimigos (aliás, Beza foi o principal orador dos protestantes no Colóquio de Poissy). A sua grande influência nos mais importantes centros de decisão político-religiosos devia-se ao facto de ser catedrático na Academia de Genebra e ao fácil acesso que tinha ao Rei, não se coibindo de tentar converter os membros da realeza.

Provavelmente o maior receio da Rainha era que Carlos IX se aliasse ao príncipe de Orange, conduzindo a França numa guerra religiosa contra a Espanha, devido a estar sob influência de Coligny que pretendia o apoio do Rei à resistência protestante na Holanda contra Espanha.

Sobre o atentado contra a vida de Coligny, as duas versões mais acreditadas referem que, ou Catarina de Medici autorizou Henrique de Guise a fazer o trabalho sujo, ou, de forma ainda mais perversa, a rainha arranjou um matador anónimo com a intenção de culpabilizar os Guise, que, previsivelmente, seriam alvo de represálias por parte dos protestantes. (A crescente pressão que a família Guise fazia junto da Rainha para que esta se visse livre, pela força, dos huguenotes, estava a tornar-se insuportável, devido à sua arrogância desmedida.)

Mas Coligny conseguiu escapar apenas com um ferimento ligeiro. Estávamos na véspera do tristemente célebre «Massacre da Noite de S. Bartolomeu» (que, afinal, terá durado uns 3 dias, entre 22 e 25 de Outubro de 1572).

Por então, o ambiente em Paris estava extremamente tenso. A atmosfera podia-se cortar à faca, densa com ameaças de revolta e de vinganças. Os huguenotes clamavam por justiça em nome de Coligny. Por seu turno, os católicos estavam nervosos com a presença de tantos hugenotes (principalmente os que tinham acabado de chegar à cidade para assistir às celebrações do casamento de Henrique de Navarra e de Margot de Valois, que era filha da Rainha Catarina) à solta na sua cidade, pois consideravam-nos uns malditos subversivos, inimigos do Rei da Igreja.

Furibundo com com o ataque traiçoeiro de que fora vítima o seu amigo e conselheiro, além de estar muito preocupado com os tumultos nas ruas, Carlos IX pediu explicações aos seus conselheiros (católicos) e a Catarina de Medici. Alguns historiadores pensam que esta última descartou responsabilidades sobre os acontecimentos, e, lutando pela sua credibilidade política e, quiçá, até pela própria vida, amedrontou o jovem monarca com os rumores de uma sublevação de huguenotes que, liderados por Coligny, conspiravam para tomar o poder pela força, assassinando a família real.

Então, o crédulo Rei ordenou aos seus militares para que exterminassem todos os huguenotes que se encontravam em Paris. Inadvertidamente, os católicos (civis) entenderam essa ordem como uma carta branca para que participassem dessa orgia homicida.

Ao primeiro sinal de violência desatada, muitos parisienses católicos organizaram-se em milícias (a mais implacável das quais foi liderada por Henrique, duque de Guise), não hesitando em assassinar os seus vizinhos - sem sequer saberem o que havia de verdadeiro nas diferenças de doutrina, para além da boataria caluniosa, dos preconceitos e das frustrações invejosa que necessitavam de um bode expiatório. Para evitar confusões, tiveram o discernimento de se identificar com cruzes brancas nos chapéus - esse adereço era tudo o que diferenciava "o povo de Deus" dos "asseclas de Satã" nas trevas da intolerância ignorante...
Uns 6 mil huguenotes foram então mortos; muitos deles nas suas camas. Desta feita, nem Coligny escapou.

Estas notícias foram recebidas com júbilo no Vaticano. O Papa Gregório XIII apressou-se a exarar um Te Deum de acção de graças. E na corte espanhola, consta que o Rei Filipe II (que era genro de Catarina de Medici) , pela primeira vez na sua vida, se riu em público, ordenando em seguida aos clérigos para que estes organizassem celebrações pela vitória contra a heresia. (Alderi Souza de Matos)

Pelo contrário, Carlos IX definhou, consumido pelos remorsos, não chegando a viver mais 2 anos após os trágicos eventos da «Noite de S. Bartolomeu».

Os massacres repetiram-se noutras cidades francesas. As estimativas dos mortos variam muito, compreendendo-se entre 20 e 60 mil.

Temendo que Catarina de Medici estivesse a conspirar com o Rei de Espanha para consumar um genocídio total de huguenotes, estes tentaram um golpe de Estado em Meaux (o sul de França era então território huguenote). Tal foi um erro que pagaram bem caro. A monarquia católica, instigada pelo Papa, por toda a Europa passou a perseguir e a aniquilar os protestantes.

Quem sucedeu a Carlos IX no trono foi o seu irmão, Henrique III (1577-89), tendo-se revelado um político mais hábil, não estando disposto a ser manipulado pela sua mãe. O novo soberano francês percebeu que a unidade nacional (do Estado), bem como a economia, estavam à beira de ruírem devido às guerras fratricidas de cariz religioso, dando demasiada margem de manobra às pretensões hegemónicas de Inglaterra, de Espanha e até da Holanda. Por isso, o novo Rei, aparentemente, absteve-se de misturar demasiado a religião com os assuntos de Estado. A sua actuação foi algo dúbia. Engajou-se com os fanáticos da Liga Católica, mas acabou por mandar assassinar (em 1588) o seu principal líder, o execrável Henrique de Guise~~~~. Poucos dias depois, morreu também Catarina de Medici. E nem transcorreria meio ano até que a Liga Católica arranjasse maneira de se vingar na mesma moeda, com um regicídio que pôs fim à dinastia dos Valóis.

~~~~ Em 1587, o duque de Guise vence umas disputas armadas com os Bourbons, tornando-se na força militar e política mais forte de Paris. Aproveitando essa situação, pretendeu usurpar o poder do Rei. Graças a intervenção de Catarina (que até era neta de Joana de Bourbon, a família que dominava a realeza na aliada Navarra), Henrique III consegue fugir humilhado e consumido de desejos de vingança.

Os receios dos católicos quanto à orientação confessional de Henrique de Navarra revelaram-se infundados, pois este homem chegou ao trono (como Henrique IV, fundador da dinastia dos Bourbon) depois de abjurar o protestantismo, percebendo que era politicamente mais favorável estar ligado à Igreja Católica, pois a Liga Católica ameaçava-o de, caso tomasse o partido dos huguenotes (que já perfaziam cerca de 15% da população francesa), enfrentaria a morte – ou física, ou política, com os católicos a reclamarem uma sucessão legítima de outro monarca mais da sua conveniência.

Henrique IV reconheceu a Igreja Católica como a religião oficial do Estado, mas desgostou profundamente o Vaticano ao conceder direitos religiosos e políticos (na administração de umas 200 fortificações) aos huguenotes, através da promulgação do Édito de Nantes (1598)****. Assim, os calvinistas poderiam professar os seus cultos religiosos – desde que fora de um raio de 30Kms em redor de Paris. Ao saber disto, o Papa Clemente VIII ficou abatido pela tristeza, tendo declarado que «reconhecer a liberdade de consciência para todos, era a pior coisa do mundo» (sic)… (Alderi Souza de Matos)

****A deliciosa ironia é que Henrique IV conseguiu (pela primeira vez na história da Europa) impor a tolerância na jurisprudência francesa empunhando o Édito de Nantes numa mão e um revólver na outra, quando irrompeu nas cortes.

Em 1685, o Rei Luís revogou o referido édito, com consequências desastrosas

O povo francês saturou-se de tantos conflitos religiosos - que estavam a dilacerar e arruinar o seu país, mas que se alastravam a toda a Europa dividida entre a Igreja de Roma (que, por sua vez, já tinha sofrido um cisma com a deslocação, para Avinhão, do papado, por imposição do Rei Filipe, O Belo, tendo aí permanecido entre 1309 e 1377); as igrejas da reforma Protestante; e a Igreja Ortodoxa do Oriente. Assim, no séc. XVI, o conceito de tolerância religiosa foi introduzido na cena política. Um dos seus defensores foi o Partido dos Bons Franceses (que muito se inspiraram na longa tradição germânica de pluralismo religioso).

Michel de L’Hôpital conseguiu fazer vingar a ideia de que o Estado tinha que estar acima da Igreja, para o bem da nação.

Foi necessário consumar-se a Revolução Francesa para que, em 1795, as forças democráticas aprovassem a primeira declaração da separação entre a Igreja e o Estado. Mas durou pouco essa deliberação. Os líderes revolucionários (logo corrompidos pelo poder) pretendiam manipular as massas crédulas substituindo os velhos cultos cristãos pelo culto do “Ser Supremo” que representava o Estado revolucionário e o seu Regime de Terror.

Ironicamente, foi o ditador imperialista Napoleão I que autorizou a legalização da diversidade religiosa.

PB

sexta-feira, março 23, 2007

Na cruzada Albigense (contra os Cátaros, que eram cristãos europeus, divergindo da doutrina teológica e da corrupção do Vaticano) ficou célebre uma frase geralmente atribuída a Inocêncio III (1198-1216), mas que, na realidade, é da autoria de um representante seu chamado Arnaud Amaury, Arcebispo de Narbonne. Na cidade de Beziers, onde ocorreu uma grande chacina purgatórias (1209), tendo escapado com vida poucos habitantes, houve quem tivesse reparado que muitos católicos fiéis ao Papa também foram mortos nessa orgia de sangue. Perguntaram então ao Arcebispo Amaury como poderiam distinguir, na confusão do morticínio, os católicos dos heréticos, pois que tinham a mesma aparência física. Ante esta confrangedora evidência, para tranquilizar a consciência dos matadores/carrascos, ele respondeu : « matem-nos a todos! Deus encarregar-se-á de distinguir os seus»… (A seguir foi escrever relatórios para o Papa, pejados de pormenores sórdidos sobre o bem sucedido projecto de luxúria homicida que conduzia…)



Durante toda a história da cristandade o ódio xenófobo e racista foi instigado pelos clérigos. Os que tinham a pele mais escura que os caucasianos, deveriam ser considerados como obra do demónio, e o facto de professarem religiões pagãs assim o comprovava. Mas, nem sempre era
fácil distinguir a natureza das confissões pela cor da pele. Então, em 1215, no quarto concílio de Latrão, a Igreja estabeleceu, para além de severas punições para os hereges, um código identificativo para os muçulmanos e para os judeus, obrigando-os a usar uma roseta (que seria o sistema percursor da estrela amarela com que os alemães nazis identificavam os judeus).

O catolicismo medieval consolidou a visão de um mundo dessacrilizado e impuro, onde o valor dos seres humanos era primeiramente medido pelas suas filiações religiosas (cabendo às hierarquias eclesiásticas
determinar o direito à vida de acordo com a fé dos indivíduos, e essa fé mais não era do que o supremo exercício de lealdade e submissão à Igreja/Estado) e pela capacidade de acumular símbolos de poder (que
geralmente circulavam nas oligarquias plutocráticas) que permitiam afirmar a superioridade dos católicos e de levar, tão longe quanto possível, a missão de persuadir e de conquistar outros indivíduos para
as suas causas ("divinas"), ou destruir os seus oponentes
.

Se a vida só tem valor (intrínseco e intemporal por deliberação divina) depois do Apocalipse purificador, e se apenas os adeptos da "verdadeira religião" deverão alcançar a salvação, então os que estão no "caminho errado" e nele insistem em permanecer merecem, com toda a "legitimidade", ser mortos ou explorados desapiedadamente pelos detentores da "verdade teológica", da "boa fé"; quem se lhes atravessar no caminho (para alcançar as cúpulas do poder e da redenção paradisíaca) é conotado com o "Anticristo" e, como tal, não são dignos de ser considerados seres humanos genuínos.
Só assim se explicam os massacres com conotações religiosas que tingem de sangue toda a história europeia da cristandade.

quinta-feira, março 22, 2007

Consta que, ao se apoderar do cargo de Sumo Pontífice, Leão X terá exclamado «se Deus nos dá o pontificado, temos que aproveitá-lo!» O que tinha em mente era um hedonismo imoral e desprezista / perdulário, como afirmação (inusitadamente opulenta) do poder temporal nas mãos de uma oligarquia.
Para a história ficaram ainda outras das suas afirmações esclarecedoras quanto à corrupção hipócrita do Vaticano:
«Quanto nos é útil esta FÁBULA de Cristo!» ("Quantum nobis prodeste haec fabula Christi"!) -
«A fábula de Cristo é de tal modo lucrativa que seria loucura advertir os ignorantes de seu erro»...

quarta-feira, março 21, 2007

Galinha-d’água no Paul dos Patudos

Custou-me alguns anos de treino a aprender a distinguir, com alguma facilidade, a passarada por entre a densa folhagem. (Claro que, para tal, é muito importante desenvolvermos uma boa memória auditiva no que toca às vocalizações.) Agora chego à triste constatação que o melhor seria ter-me treinado a localizar os bichos por entre o lixo… Nesse aspecto, o Paul dos Patudos é um óptimo sítio para treinar. Provavelmente, quando já for tarde demais, os alpiarcenses aprendam a valorizar aquela jóia ambiental numa perspectiva saudosista…

PB

terça-feira, março 20, 2007

Sempre embirrei com a designação/epíteto de “planeta azul” que atribuíram ao nosso planeta. (Nem sequer o nome “Terra” se me afigura correcto, uma vez que dois terços da terra está debaixo d´água.) A cor que eu vejo como dominante entre nós é o verde (por ter as melhores relações de produtividade com a luz solar), não o azul – só visto do espaço (fora da atmosfera terrestre) é que o nosso planeta parece ter essa cor, e essa perspectiva é um sinal de que os humanos cometeram um grande disparate ao tentarem conquistar o espaço, afastando-se do seu planeta-mãe e investindo imensos recursos que poderiam ser empregues na resolução dos problemas mais prementes e “terra-a-terra”.

No entanto, as fotografias da Terra que trouxeram os primeiros homens que visitaram a lua, em muito contribuíram para que tomássemos consciência da fragilidade da biosfera – vendo-a como uma pequena jóia viva gravitando num imenso “vazio”. Até os astronautas, com todo o seu treino físico e psicológico quase supra-humano, ao verem a Terra do espaço sideral, comoveram-se até às lágrimas, não só pela beleza do planeta, mas também por uma incontida sensação de desamparo por se afastarem da sua casa. A angústia dessa orfandade espacial e desse simulacro tecnológico da morte (pelo brutal afastamento do único planeta conhecido com vida), deve ter despertado uma responsabilidade afectiva perante o facto de que a Terra é o nosso lar e uma mãe generosa que, por nossa causa, se encontra gravemente enferma; não podemos voltar-lhe as costas sob pena de nos extinguirmos como espécie.

Não fomos desterrados do paraíso nem este foi destruído há milénios por uma divindade, num colérico e vingativo excesso de zelo; nós vivemos no paraíso e somo nós que o destruímos diariamente. Nenhum planeta de universo pode oferecer-nos melhores condições de vida do que este onde evoluímos.

Em vez de investirmos em formas de exploração sustentável dos recursos naturais neste planeta ameaçado, desperdiçamo-los atrás de uma quimera espacial neocolonialista que não convence nem os seus actores mais mediáticos. Nas palavras do astronauta Scott Carpenter, « este planeta não é terra firma. É uma flor delicada e necessita de cuidados. É solitária, é pequena, é insubstituível, e estamos a maltratá-la.»

«Os movimentos ambientalistas não poderão prevalecer enquanto não convencerem as pessoas de que ar e água puros, energia solar, reciclagem e repovoamento florestal são as melhores soluções para as necessidades humanas – e não para futuros planetários impossíveis pela sua distância.» - Stephen Jay Gould

A conquista do espaço é, antes de mais, um negócio para as grandes corporações, um meio de dotar os militares de tecnologia poderosíssima e um instrumento de propaganda estatal
(não estarão certamente preocupados com a remota possibilidade dos nossos
descendentes enfrentarem o problema de o sol esgotar as suas reservas de
hidrogénio - daqui a 5 mil milhões de anos - , desintegrando a Terra com
chamas vermelhas antes de se extinguir).
Como tal, não admira que até as redacções de revistas como a National Geographic se empenhe em convencer os ambientalistas urbanos de que :”o ser humano tem de encontrar outros locais para viver no sistema solar. Um regresso à Lua será tão importante como o êxodo dos nossos antigos antepassados para fora de África.” (Julho de 2004, versão portuguesa).

Assumindo o ingrato papel de "velho do Restelo", se
é tão perigoso transportarmos (intencional ou inadvertidamente) organismos
vivos de um continente para outro, até se me arrepiam os cabelos dos pés
pensar nas consequências decorrentes da aventura espacial, se as nossas naves
(espaciais) algum dia trouxerem no seu bojo microorganismos alienígenas,
permitindo-lhes colonizar o nosso planeta sem passarem pela "desinfecção"
calorífica (por atrito) a que são submetidos os pequenos corpos celestes que
entram na atmosfera terrestre.

No entanto, talvez a vida na Terra provenha de corpos celestes que embateram neste planeta (a chamada teoria da transpermia ou panspermia). Durante milhões de anos a Terra foi bombardeada com grandes meteoritos. No interior de alguns destes poderiam ter viajado microorganismos que sobreviveram à viagem espacial é ao embate.

Os cientistas estão convencidos que os organismos extremófilos estiveram no origem da explosão de biodiversidade de que a nossa espécie veio a beneficiar. Foram encontrados fósseis de procariotas^^^^ com 3800 milhões de anos em géisers e em fontes termais oceânicas. Ainda hoje aí vivem (a temperaturas que chegam aos 120 Cº !) esses organismos unicelulares.

^^^^A designação de procariotas refere-se às bactérias e algas azul-verdes pertencentes ao Reino das Moneras. São células desprovidas de núcleo e de mitocôndrias e constituem a forma de vida mais simples que conhecemos.

Uma das descobertas científicas mais interessantes do novo milénio foram os organismos hipertermófilos que desafiam a antropocêntrica lógica das criaturas terrícolas que nós somos, pois os nossos parentes mais distantes e vetustos vivem sob a crosta terrestre, bem no interior das chaminés hidrotermais e das fendas vulcânicas no fundo dos oceanos. Acredita-se que a biomassa destes incríveis microrganismos equivale ou supera mesmo a que se verifica à superfície do planeta que erradamente chamamos Terra.

PB

O Paul dos Patudos está repleto de recantos encantadores que os alpiarcenses têm sabido desfrutar, como se pode ver por esta foto…


segunda-feira, março 19, 2007

Muito antes de João de Patmos, o profeta Daniel foi o expoente máximo da literatura apocalíptica judaica. Como seria de esperar, Daniel viveu num período muito conturbado para os judeus, quando, uma vez mais, estavam a ser oprimidos por uma potência estrangeira que lhes coarctou até a liberdade de culto e exilou milhares deles para a Babilónia. (O que os clérigos costumam sonegar é que a bíblia se refere a Daniel, não como um líder revolucionário operando na clandestinidade, mas como ocupando um lugar de destaque na corte do tirano Nabucodonossor, onde era tido como um especialista na interpretação de sonhos...) Os crentes estão convencidos de que Daniel previu com acuidade a vinda de Cristo e que 3 membros da tribo Magi (ou seja, os magos, seguidores do zoroastrismo e que se dedicavam à astrologia, à interpretação de sonhos, à adivinhação e à magia/encantamentos) terão ido ao encontro do menino Jesus porque seguiram as indicações do livro de Daniel.


Por volta de 175 a.C., os seleucidas da Síria, liderados por Antioco IV, tomaram Jerusalém. Antioco tinha como prioridade helenizar os judeus. A ofensa mais grave que cometeu contra estes últimos foi ter-se assumido como um deus, exigindo ser venerado pelos adoradores de Jeová no seu Templo.

Em 167 a.C., os judeus revoltaram-se, tendo a resistência armada durado vários anos. Daniel surgiu então como um profeta que prometia aos seus sofridos pares a ajuda divina, enquanto demonizava os inimigos de Israel ao longo dos séculos (metaforicamente representados como bestas do mar). Provavelmente antecipando o desfecho da insurreição judaica, Daniel descreve como o seu campeão libertador, Judas Macabeu, derrota Antioco, numa versão que não tem correspondência com a verdade histórica (apesar de, efectivamente, os judeus terem vencido o referido conflito em 154 a.C., sendo comandados por Judas Macabeu.) As suas terríveis visões escatológicas influenciaram os evangelhos (até Cristo se baseou nelas) e João de Ptamos.

Paulo acreditava que, durante o seu tempo de vida (antes do reinado de mil anos de Jesus Cristo), iria ser testemunha do fim do mundo. E assim decepcionou e confundiu muitos crédulos nos primórdios do cristianismo. Mas devemos ilibar Paulo pelo seu erro de cálculo escatológico, já que se baseou numa falsa promessa que Jesus Cristo (colando-se ao profeta Daniel) terá feito aos seus discípulos no Monte das Oliveiras, mesmo na véspera da sua crucificação (Mateus 24:34).

O João autor do Livro do Apocalipse (que, ao contrário do que acredita a maior parte dos cristãos, o mais certo é que não era a mesma pessoa que o seu homónimo apóstolo) foi condenado ao exílio na ilha de Patmos. Nesse ermo semi desértico teve muito tempo para urdir estórias que, através de rebuscadas e medonhas metáforas, expressavam a sua frustração o seu ódio ao império romano. Por volta de 95 a.C. (uma data vagamente estimada), João de Patmos enviou cartas a 7 igrejas da Ásia Menor (na actual Turquia).

No desfile de horrores escatológicos que a sua mente perturbada conjura e estiliza no Livro do Apocalipse (palavra que significa revelação) João recorre a um código numérico bem conhecido dos judeus para se referir à “besta” que é a encarnação máxima do mal. O seu número é o 666. A maioria dos investigadores acredita que este n.º equivale ao nome «Nero César», tal como era escrito em grego (a língua original do Novo Testamento). Mas existe um problema de desfasamento cronológico, já que João de Patmos terá escrito o livro em causa depois da morte de Nero (no ano 68 d.C.), quando o mundo romano estava dirigido pelo Imperador Domiciano. A explicação talvez seja tão prosaica quanto o facto de que todos os épicos exigem um confronto final entre titãs. O herói da estória deve possuir predicados superiores ao comum dos mortais, assim como um nemésis cujo poder destrutivo quase se equipare ao seu. O nome de Nero ainda provocava frémitos de terror e de cólera entre os cristãos. Muitos destes esperavam que Cristo regressasse em breve para repor uma nova ordem mundial ajustada ás suas convicções e conveniências, salvando-os da brutalidade ímpia dos romanos. Assim, João de Patmos parece insinuar que Nero iria igualmente erguer-se da tumba como a antítese perfeita do Messias, permitindo a Cristo e á sua legião de anjos mostrar todo o seu poder esmagando a pior das criaturas que alguma vez já tinha vivido. O governo de terror imposto pelo Imperador Nero granjeou-lhe uma reputação sobrenatural, num contexto verdadeiramente demoníaco. Tal como acontece na actualidade, as “super estrelas” (mediáticas), independentemente dos valores morais que as norteiam, adquirem um estatuto de “imortalidade” (ex.: Drácula/ Vlad Tepes, Hitler, Elvis Presley, etc, etc…). O fascino (mesmo que traumático) que provocam às multidões faz com que muitos se recusem a acreditar que são vencidos pela morte.

Os manuscritos do Mar Morto (também conhecidos como os manuscritos de Qumran) referem-se à nação judaica durante o período helénico, e , mais
concretamente, à seita dos essénios, que foi muito poderosa na Palestina no
primeiro e segundo século antes de Cristo. Esses textos dão-nos uma clara
ideia da doutrina escatológica que já dominava parte daquele povo atormentado
e belicoso. A comunidade de Qumran tinha objectivos apocalíptico–messiânico, ou seja, ansiavam por um fim do mundo apocalíptico (o "dia do
juízo final") protagonizado por um deus vingativo e cruento, enquanto se
empenhavam numa guerrilha contra os opressores romanos (até que estes
últimos, no ano 68 da nossa era, conseguiram descobrir os refúgios dos
rebeldes no deserto, aniquilando a oposição). Não era só contra os romanos
que a referida seita hebraica assestava os seus ódios; dominados por um
fundamentalismo/ortodoxia férre@, renegavam as orientações espirituais dos
seus ancestrais (nomeadamente o judaísmo "rabínico") e todos os seus
patrícios que não os seguissem incondicionalmente. Os líderes essénios
pretendiam o controlo absoluto das vidas dos seus seguidores por forma a
assegurar uma "pureza imaculada". Na sua doutrina podemos identificar um
ascetismo que repudiava a liberdade de pensamentos tanto quanto a harmonia com o meio silvestre, incluindo a animalidade humana (ex.: proibiam a defecação ao Sabbath, condicionavam a prática sexual e a alimentação), que viria a ser consolidada por alguns dos homens mais influentes do início do cristianismo :(S.) Paulo e (S.) Agostinho. (James Kugel, 1998;
Albert Baumgarten, 1998; Hank Roth 1999)
Os essénios acreditavam que o juízo final purgaria o mundo de toda a iniquidade
e, finalmente, o seu deus dar-lhes-ia a vida eterna repleta de prazeres
pietistas (começando pela ausência de todos os que pensavam e agiam de modos diferentes). Séculos mais tarde, os cristãos seguiram por esta senda de utopia intolerante, que os conduziu a um deserto espiritual...
«As noções apocalípticas podem ser encontradas (por volta do séc. IV a.C.)
no Livro de Daniel, no Livro de Enoch I e no Jubileu. Foram chamadas de
escatológicas porque prevêem o fim de uma velha era e o início de uma nova
era onde a justiça e a bondade triunfariam.»- Hank Roth 1999
as raízes destas visões apocalípticas não são fáceis de determinar com
exactidão, mas remontam pelo menos a um período compreendido entre o séc. XV a.C. e o séc. XII a.C., quando foram escritas
pelo profeta iraniano Zoroastro (na época em que o Irão estava sob domínio
persa) .
E, face ao fim do mundo, quais são os desideratos máximos dos extremistas
afectos às religiões abraâmicas? Os islamitas e o seu povo mais oprimido, os
palestinianos, sonham com a
destruição dos judeus e de Israel, para além de um califado de todas as nações
árabes, onde vigore a lei xaria, tendo o Corão como Constituição.

(Alguns destes fanáticos FDPs que chegaram ao topo do poder político-religioso nos nossos dias, têm-nos dado esclarecedores exemplos do cariz desses “paraísos” terrenos para islamitas. Veja-se o caso da Arábia saudita, do Afeganistão dos talibãns e do Sudão dos janjauides…)

Os cristãos ambicionam converter e
preparar para a segunda vinda de Jesus Cristo todas as outras confissões religiosas, bem como os ateus. (Os evangelistas estado-unidenses que têm dominado a Casa Branca durante a administração George W. Bush, reconhecem a prerrogativa bíblica de que os judeus são o povo eleito por Jeová, bem como a origem étnica de Jesus. Com arrogância paternalista, estão convencidos de que os judeus acabaram por se “desviar do caminho certo para a salvação”, mas que acabarão por reconhecer Cristo como o seu Messias no deflagrar do Armagedon. )

E os judeus pretendem reapossar/reconquistar
todo o antigo reino de Israel, honrando o pacto que os patriarcas bíblicos fizeram com Jeová e preparando a vinda do seu aguardado Messias.
Todos os que se opõem a estes objectivos "sagrados" deverão ser eliminados, pois agem contra "a vontade de Deus" e dos seus "escolhidos iluminados".

É por isso que os judeus extremistas estão dispostos até a
recorrer aos atentados terroristas e aos franco atiradores para mostrarem a sua relutância em abandonar os colonatos na Faixa de Gaza. A mesma motivação político-religiosa levou o israelita Yigal Amir a assassinar (em 1995) o seu Primeiro Ministro Yitzhak Rabin porque este último, por forma a consumar as negociações de paz, mostrou-se disposto a devolver terras aos palestinianos, o que foi considerado como uma traição inaceitável por parte dos israelitas.

Quando estes fundamentalistas assassinam civis (incluindo
os que pertencem à sua religião), o seu objectivo principal não é o de chamar à atenção para a sua causa, nem é respeitar integralmente os seus
textos sagrados (que, com todas as suas contradições, condenam essas acções
de extrema violência), pois julgam ter um objectivo político e messiânico
maior.


E não se trata apenas de uma luta pela sobrevivência étnico-cultural ou a
apropriação de recursos naturais; o que eles desejam é uma nova ordem
mundial/cósmica imposta pela destruição maciça do fogo apocalíptico - ao
qual apenas sobreviverão, purificados, os valores intemporais dos
sectários que, ao darem o seu contributo em vidas sacrificadas, se
sentem como se fossem os punhos de Deus e acreditam que serão recompensados
por apressarem o dia do juízo final.
Esta ideia já era apadrinhada por grupos hebreus da antiguidade; os fanáticos zelotes
eram demasiado impacientes (como) para esperar, e tentaram
«despoletar a redenção final forçando a mão de Deus.» (Arthur Hertzberg)

«A segregação é o plano de Deus!» Era um dos slogans mais populares nos
estados sulistas (norte americanos) durante a década de (19)60.

«Quem não é comigo é contra mim (…) -S. Mateus 12:30

O apoio incondicional da Casa Branca e do evangelismo fundamentalista que vigora nos EUA à política de apartheid israelita, obviamente que não se deve só a interesses geopolíticos e económicos. A recuperação da nação de Israel é uma das principais profecias do dogma escatológico pelo qual guiam as suas aspirações mais elevadas (a vida eterna no paraíso – interdito a todos os que pensem de modo diferente). Mas o milenarismo cristão, tal como é defendido por esses fundamentalistas, trata-se de uma doutrina (escatológica) anti-semita, pois exige aos judeus a aceitação de Jesus Cristo como o seu Messias, ou a extinção no Armagedão (Livro do Apocalipse).

Assim como muitas facções de extrema direita judaica que reivindicam uma “pureza ideológica, espiritual e racial”. Alguns deles tentam recrear um estilo de vida que julgam corresponder ao período anterior à diáspora; um regresso à terra num ambiente pouco propício para a almejada auto-suficiência. Da tecnologia moderna, o que consideram indispensável são as armas (incluindo os engenhos explosivos que usam em atentados terroristas++++) … Os grupos extremistas que aí habitam (geralmente associados aos colonatos, tais como «A Juventude do Cume» e os seguidores da ideologia Kahanista) por vezes organizam-se com objectivos escatológico-imperiais, que passam por atentados terroristas. Ou seja, pretendem causar o máximo de distúrbio na sociedade, ao ponto de deflagrar uma guerra final entre judeus e árabes, com extermínio total destes últimos e a reconquista integral da “terra prometida”. Para estes arautos do fim do mundo, não basta o “renascimento” do Estado de Israel tal como foi definido em 1948 (à custa de uma vil traição aos árabes que ajudaram os ingleses a derrotar o império otomano e os alemães); eles anseiam ardentemente pelo Grande Israel bíblico. Por isso é que os evangélicos estado-unidenses têm dispendido avultadas verbas no apoio à constituição de colonatos judeus em territórios palestinianos.

Alguns dos seguem piamente as profecias escatológicas estão convencidos de que a segunda vinda de Cristo, ou a chegada de outro Messias para os judeus, só poderá acontecer se for restaurado o Templo de Salomão (Apocalipse 11:1) ~~. O grande problema é que no local onde outrora existiu esse edifício emblemático agora existe a mesquita da Cúpula do Rochedo, cuja destruição através de algum atentado terrorista certamente colocaria (pelo menos) todo o Médio Oriente em guerra. Essa perspectiva catastrófica é prelibada por muitos tresloucados que empunham textos sagrados, vendo neles o que querem ver, com uma fidelidade agressiva a dogmas anacrónicos - e o Talmude está cheio de salmos / versos que enaltecem a vingança, como se isso fosse uma das maiores virtudes do povo de Jeová…

~~ A lenda diz que Templo de Jerusalém foi mandado edificar pelo rei Salomão .

No séc. VI a.C. o exército de Nabucodonossor toma Jerusalém e destrói o seu templo.

Este edifício sagrado conheceu o seu máximo esplendor arquitectónico, bem como o auge da afluência das massas, com o (romanizado e extremamente impopular) rei Herodes.
Em 70 d.C. os romanos voltariam a destruí-lo.

Em 638 os muçulmanos invadiram a cidade santa e, como fazem conquistadores, construíram os seus templos sobre as ruínas dos locais de culto do povo que subjugaram.

Talvez o que estes fanáticos judeus odeiam com mais intensidade do que os árabes/muçulmanos, são os seus compatriotas [israelitas] que procuram encontrar soluções convivenciais, ou mesmo harmoniosas, com os palestinianos.

Deste modo, os terroristas judeus continuam a tentar ataques de extermínio em massa e/ou alvos estratégicos muito sensíveis (do ponto de vista político-religioso e humanitário), como, por exemplo, escolas muçulmanas e as mesquitas do Monte do Templo.

++++Em Israel, o fácil acesso às armas é uma consequência da intensa militarização que caracteriza essa sociedade. (Quase toda a gente tem que fazer serviço militar, e os soldados, quando vão passar os fins-de-semana a casa junto dos seus familiares, são obrigados a levar com eles as armas de guerra – mesmo não passando de garotos…)

Alguns dos maiores atentados terroristas que a polícia israelita conseguiu abortar, estavam a ser elaborados por judeus fundamentalistas com recurso a material bélico roubado ao exército.


Com frequência ouvimos os israelitas justificarem o seu regime de apartheid e
de ocupação de terras dos palestinianos, com o argumento de que «Deus deu
esta terra aos judeus, não aos árabes!» É extremamente difícil contra
argumentar com um crente que se barrica nos seus textos sagrados, pois estão
convencidos de que são o veículo de palavras sacrossantas. Mas neste caso é
fácil perceber que estão a manipular grosseiramente (sonegando
tendenciosamente, para construírem uma meia verdade, as partes que não lhe
interessam) as "palavras de Deus" registadas nos livros do Levítico e do Êxodo. Segundo esse
texto, Deus avisou aos homens da casa de Israel de que só teriam direito às
terras de Canaã , que lhes concedia por graça, se estes cumprissem
escrupulosamente os seus mandamentos - que incluíam a não pressão dos
"estrangeiros" (ou seja, os naturais não israelitas) que aí residam,
devendo mesmo amá-los como a si mesmos. Com pertinência, lembrou aos seus
eleitos que estes também foram estrangeiros (tratados com soberba) no Egipto e
por isso tinham a obrigação de agir com justiça e com respeito na vida que
começavam a construir numa pátria nova. (Lev. 19:33-36)

Protecção aos estrangeiros)

Êxodo 22:21 ; Levítico 19: 33-37


Jeová deixa claro que a terra a Ele pertence, não passando os habitantes de
Canaã de estrangeiros e colonos/rendeiros Seus. (Lev. 25 : 23) Aquela terra já
teria vomitado outros habitantes que se mostraram indignos das dádivas divinas,
e voltará a fazê-lo com os israelitas se estes a contaminarem com
«abominações», e deus encarregar-se-á de extirpar do seu povo as almas
prevaricadoras. (Lev. 18: 28-30)
«Não oprimirás o teu próximo, nem o roubarás (…)» (Lev. 19:13)
«Não fareis injustiças no juízo: não aceitarás a pobreza, nem adularás os
poderosos; com justiça julgarás o próximo.» (Lev.19:15)
«Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás
o próximo como a ti mesmo.» (Lev.19:18)
« Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra» S. Mateus 5:39
»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»
«Há perturbantes paralelismos entre a conquista dos ameríndios pelos colonos
euro-americanos e a conquista da Palestina pelo judeus zionistas [assim como em quase todas as manifestações de colonialismo]. Ambos os
conquistadores tenham "boas razões", desde o seu ponto de vista, para
praticar a opressão e o genocídio.»
Talvez seja verdade que «o direito das pessoas às suas terás em parte deriva
da sua habilidade em defendê-las da inevitável intrusão de outras pessoas.
(...) Os euro-americanos provinham de uma Europa empobrecida e comummente
repressiva, e sentiam que mereciam algo (de) melhor. Havendo milhões deles e,
comparativamente, tão poucos indígenas, parecia, no mínimo, um desperdício
deixar um vasto continente só para uma mancheia de caçadores-recolectores.
Devido ao sofrimento dos judeus (mesmo antes do holocausto), os zionistas
sentiram que a sua necessidade por uma pátria superava os direitos de uns
árabes subdesenvolvidos. Afinal de contas, nenhum povo alguma vez possuiu os
seus territórios desde o início da humanidade. As pessoas de todas as
nações são descendentes de conquistadores.**» - Ronald Goetz
**Isto é verdade, tal como é verdade que o sedentarismo desde os primórdios
da nossa espécie foi sempre privilégio dos mais fortes e inclementes, tendo a
nossa espécie conquistado o globo porque havia sempre grupos mais fortes que
empurravam os derrotados para longe dos melhores territórios, ou porque os
recursos naturais começavam a escassear perigosamente. Os novos
conquistadores-colonialistas dizem seguir orientações divinas, mas no plano
espiritual/religioso o que realmente os difere dos povos que oprimem e exploram
é o facto de terem um deus
ex machina, pois é a superioridade tecnológica,
não moral & teológica, que dita o rumo dos acontecimentos.


Antes da al Qaeda, das cruzadas dos Bush, do apartheid genocida que Israel
impõe aos palestinianos, e da resposta do Hamás, já a história estava
abarrotada de exemplos de líderes que inspiraram os seus seguidores
(intoxicados com promessas de recompensas eternas para si e para os seus entes
queridos) a abdicarem do seu instinto de auto-preservação, da liberdade de
pensamento crítico e da oportunidade de tentarem construir uma vida estável e
feliz, quando esta estava ao seu alcance, a fim de se engajarem em projectos
assassinos que exigem o martírio messiânico, como a única maneira de
alcançar algum tipo de paraíso. A transcendência ideológica da missão
genocida é especialmente convincente quando os seus profetas acumulam as
funções de líderes religiosos e militares, bem de acordo com os heróis
bíblicos.

Para os que acalentam as visões apocalípticas, os compromissos mundanos da
convivencialidade idiossincrática e multicultural estão fora de cogitação.
A realidade é demasiado penosa para os que se sentem impotentes para impor as
suas ideologias a toda a sociedade, e não nutrem o menor respeito por aqueles
que pensam e agem fora dos seus parâmetros fundamentalistas. Assim, acreditam
que só deus os poderá vingar, redimir e recompensar. A vida que desejam só é
possível através da purificação apocalíptica - e eles querem ser os seus
arautos, sentindo o gosto de uma parcela da omnipotência destruidora que
atribuem às suas divindades.



A ressurreição purificante é um mito muito recorrente em quase todas as
culturas, suponho que desde que os nossos antepassados tiveram capacidades
cognitivas para questionar o sentido da vida. Este mito é fruto do nosso medo
da morte, mas sobretudo de que a vida não seja uma contingência cósmica,
cujo sentido não seja outro além do que escolhemos acreditar. Ninguém
encontra conforto na ideia de que existimos ao acaso excluídos de um plano
cósmico concebido por poderosas entidades metafísicas(mas antropomórficas), que acabarão por
corrigir injustiças (em que incluem as nossas limitações físicas
impostas pela natureza) e perpetuar a nossa existência e os valores morais e
espirituais que temos em mais lata consideração. Assim, a morte (ou o fim da
nossa consciência individual) deixa de ser um fim aleatório, mas inevitável,
podendo tornar-se num legítimo instrumento de redenção para os mártires.

Nas religiões abraâmicas, a expiação pela dor - cujo zénite é o martírio apocalíptico – sempre foi encarada como uma parte essencial do processo de elevação espiritual. Se os seus profetas, Messias e apóstolos sofreram horrores pela sua fé, então o sofrimento dos seus seguidores aproximam-nos da santidade – e esta só poderá ser alcançada através da renúncia aos ditames da natureza.

Cristo sacrificou a sua humanidade para obedecer aos desígnios do seu pai celeste (apesar de muito confuso, é suposto que esse sacrifício trouxe benefícios à humanidade, tendo sido cometido em nome dos nossos pecados ?!?)
«Mas alegrai-vos no facto de serdes participantes das aflições de Cristo, para que também na revelação da sua glória vos regozijeis e alegreis.» (I Pedro 4:13)

«Desde agora ninguém me inquiete; porque trago no meu corpo as marcas do Senhor Jesus.» (Paulo, Aos Gálatas 6:17)~~~



~~~~Paulo terá sido a primeira pessoa da Igreja a auto publicitar a sua dor por forma a dar credibilidade à sua fé.
Como as mulheres eram mais ligadas à natureza (ex.: por a menstruação, a
fertilidade e a gravidez serem pontuadas pelos ciclos lunares; por terem fama
de manipuladoras; por conhecerem "estranhas" mezinhas, com as quais curavam
os seus filhos, etc...), muitas freiras foram consideradas "agentes
infiltrados" ao serviço de Satanás. Ainda por cima, apesar de S. Francisco
de Assis (que morreu em 1226, sendo canonizado apenas dois anos depois) ter
sido o primeiro caso documentado de um devoto a apresentar os "estigmas de
Cristo", este raro fenómeno tinha uma predominância claramente feminina (de
7 para 1 em relação aos homens). O sacerdócio podia estar interdito às
mulheres, mas o povo geralmente via as freiras como ainda mais devotas e menos
hipócritas do que os sacerdotes. E quando estas mostravam "manifestações
do divino"(ex.: a capacidade de curar outras pessoas e os estigmas)
tornavam-se perigosos alvos de devoção.
A Igreja nunca viu com bons olhos quaisquer manifestações de mitologia vivas
fora da sua orgânica hierárquica. Era uma época em que o exacerbado fervor
religioso de um povo desiludido com a Igreja procurava novos caminhos
diferentes dos impostos por Roma. Sempre que os devotos tinham experiências
religiosas directas, em que reforçavam a fé de cada indivíduo interagindo
com as suas entidades (místicas) de culto, estavam a declarar que não
necessitavam da intermediação da Igreja.

O professor Gary Burge dá aulas de religião/teologia na Universidade de
Wheaton (Illinois). Tal como outros evangélicos fanáticos, em 1991, quando o
seu país partiu para a guerra no Golfo Pérsico, mostrou assim o seu
entusiasmo belicoso: « Se a guerra significa que se aproxima a 2ª vinda de Jesus, então que se iniciem as hostilidades! Se a guerra significa a aceleração do relógio escatológico, então vamos a isso!»
Mas quando este académico (que costumava dizer aos seus alunos «Deus é um
zionista bíblico»...) percebeu que a guerra em causa tirara a vida a mais de
200 mil iraquianos e que os subsequentes embargos impostos pela ONU ao Iraque condenavam à morte 500 crianças por dia, repensou a sua posição e acabou
por renegar o seu fundamentalismo religioso, xenófobo e imperialista.


George W. Bush & Cª LDA empunham a bíblia, inspirados por avatares
fundamentalistas e reivindicando o monopólio dos "valores cristãos",
quando as suas acções e o que predicam nada tem a ver com o que Cristo
defendeu/doutrinou e o seu exemplo de vida que sobreviveu às numerosas
manipulações deturpantes que as religiões ocidentais fizeram na
bíblia. (Bem, no fundo, acreditamos sempre no que queremos acreditar.)
O profeta andarilho da Galileia (cuja mitologia parece ser uma súmula
de mitos mítricos e budistas), tal como nos é retractado na bíblia (o único registo “histórico” que atesta a sua existência) era um rebelde cínico (na verdadeira asserção da palavra, que remete à escola filosófica de Diógenes) e
corajoso, indómito perante os poderes instituídos; agitador de
consciências oprimidas; defensor de um movimento social que, segundo
a actual cosmovisão e os respectivos valores sócio-políticos, poderia
inscrever-se no socialismo primitivista e libertário, (re)creando um
sistema moral que se integre na amoralidade igualitária e generosa da
natureza, onde a aceitação pluralista pelos cultos religiosos, o
pacifismo humanista e solidário (à excepção daquela passagem polémica encontrada em Lucas 19:27, em que Cristo ordena aos seus seguidores que assassinem os que não o aceitam como Rei dos judeus…), a humildade, a pobreza voluntária e a integridade entre o discurso e a acção eram pontos de honra. Defendia o desenvolvimento de vínculos espirituais espontâneos; e essa
espiritualidade deveria ser tão holística quanto idiossincrática, sem
mediações entre o homem e o sagrado, considerando todas as pessoas
como parcelas desse sagrado.

PB


Que bem que se está no campo em Alpiarça!...

terça-feira, março 13, 2007

Quem foi o pai da Igreja Católica? O apóstolo Pedro? O teólogo Paulo? Não, foi o Imperador Constantino.

O romano Constantino (que muito apreciava dar sermões sobre as virtudes do cristianismo e da sua pessoa aos membros do Senado, intimidando-os a seguir o seu exemplo, ou a enfrentarem os eternos suplícios do inferno…) declarou o cristianismo como a religião do Estado, consolidando a imposição de rígidas hierarquias em instituições político-religiosas que se apresentam como indispensáveis intermediárias entre Deus e os crentes – para melhor explorar e manter sob controlo os socialmente mais desfavorecidos.++
Mas vários séculos antes de Constantino já o Estado romano tentava andar de mãos dadas com a religião, fazendo do panteão de deuses um exército com capacidades de coerção e manipulação tão eficaz quanto os legionários na manutenção da “pax romana”.
Alguns exemplos de imperadores que seguiram essa estratégia:
- Júlio César afirmava-se com filho dos deuses Eneias e Vénus, e manteve a religião sob a rédea curta do Estado, chegando a auto proclamar-se Pontifex Maximus ;
- Augusto não teve o menor pudor em se promover como um deus ;
- Adriano foi ao cúmulo de completar o panteão romano com a deificação (por decreto imperial) de um seu amante morto por afogamento no rio Nilo! Nem Calígula se atreveu a ir tão longe, ao nomear o seu cavalo favorito (Inquitatus) como um sacerdote de pleno direito...
Assim, podemos concluir que Constantino, como líder do império, ao reformar a religião teve objectivos semelhantes aos de Josias (séc. VII a.C., Judá) com a implementação forçada do culto monoteísta a Jeová.




++ As prédicas de S. Paulo foram-lhe extremamente úteis nesses objectivos. (De um modo semelhante, a filosofia de Confúcio (5 séc. antes de Cristo) serviu o totalitarismo/despotismo das sucessivas dinastias chinesas, como doutrina de subordinação à autoridade (apesar de o primeiro imperador da China ter tentado erradicar o confucionismo). Confúcio defendia um respeito incondicional aos mais velhos e à unidade
familiar, como disciplina para o povo obedecer aos governantes. A família ideal para este filósofo-político tinha um forte cariz patriarcal (reservando
para as mulheres um estatuto idêntico aos dos servos) e todos deveriam honrar o soberano da nação, mesmo que se tratasse de um tirano. Era esta a forma
como Confúcio pretendia manter a ordem e a paz na sociedade.

Até o reformador cristão Calvino (1509 - 1564), um dos maiores ideólogos protestantes, durante muitos anos defendeu a ideia de que a obediência às
autoridades civis era um dever cristão. Só quando sentiu que essas autoridades ameaçavam a sua vida e a dos seus irmãos de fé devido à intolerância religiosa, é que mudou o discurso apelando à desobediência civil, argumentando que as autoridades (a monarquia, neste caso) que perseguem a religião que Calvino considerava a verdadeira, perdem o direito a ser obedecidas.





Na qualidade de verdadeiro pai da Igreja Católica Apostólica Romana, Constantino dotou o cristianismo de uma ideologia política imperialista. O crescimento desse culto foi conseguido pelo favorecimento (em detrimento das outras religiões) através do mecenato imperial e de legislação que fez aprovar especificamente para esse propósito; subornou e recompensou com postos na hierarquia imperial os neófitos mais ambiciosos e oportunistas; e a sua obsessão pela ostentação de poder e de riquezas, levou-o a mandar construir numerosas igrejas decoradas com pedras preciosas e outros luxos deslumbrantes. Assim, a popularidade do seu cristianismo cresceu (proporcionalmente ao esvaziar das virtudes que esse culto já possuíra quando os seus devotos tentavam agir de forma coerente com as principais mensagens e qualidades de Jesus Cristo) até acabar por se tornar a religião unificadora do império e a principal garantia de estabilidade política de Constantino. Por esse motivo, os imperadores que se lhe seguiram viram-se forçados a continuar a defender o cristianismo, ou melhor, a política dinástica cristã.
Constantino era um homem tão patologicamente agarrado ao poder que, entre as muitas atrocidades que cometeu para o conservar, foi o responsável pelo desencadear de uma guerra civil desnecessária e nem a sua própria família escapou às suas vingativas e paranóicas suspeitas de conspirações e de infidelidades, tendo mandado assassinar a sua cunhada, a sua esposa e o seu filho mais velho.
Como naquele tempo ainda não estava instituído o ritual expiatório da confissão, Constantino esperou até sentir que estava às portas da morte para se fazer baptizar, acreditando que tal abluiria todos os seus pecados, enviando-o directamente para o reino de deus puro como
um anjo.

O terceiro Concílio de Latrão (realizado em 1179) consolida a política de unificação da Igreja com o Estado iniciada com/por Constantino e Teodósio (este último tornara a Igreja Católica como a religião oficial do império, ao ponto de conversão passar a ser obrigatória). No seu cânone 27 aponta a obrigação dos príncipes em ajudar a Igreja a reprimir a heresia (assim como a Igreja ajudava a legitimar o poder – “concedido por Deus” – dos monarcas). Os senhores da guerra acudiram ao apelo, fornecendo os meios para assegurara protecção dos clérigos bem como para implementar as decisões eclesiásticas, por mais impopulares que fossem. A partir daí, o crime contra a fé foi oficialmente considerado crime contra o Estado.

PB

segunda-feira, março 12, 2007

Aquando dos primeiros contactos entre a expedição de Cortés e os nativos da Mesoamérica, a cupidez dos espanhóis engendrou um esquema puerilmente freudiano para roubar os seus anfitriões com a concordância destes últimos. Cortés e os seus guerreiros pediram aos nativos (que os receberam ricamente ornamentados) que lhes trouxessem ouro pois essa era a única medicina eficiente para a sua alegada doença de coração…
A versão caucasiana que se tornou na história oficial impingida nas nossas salas de aulas enaltece o feito militar de Cortés (Cortez) quase como se um punhado de espanhóis gananciosamente impiedosos e traiçoeiros tivesse poderes sobrenaturais que lhes permitiu destruir um império apenas pelos seus meios. Assim, enfatizam a ideia de uma extraordinária superioridade étnico-cultural face a uns ameríndios subdesenvolvidos, que foram vítimas da sua estupidez e medo supersticioso. Há uns 5 séculos que essa propaganda execrável pretende que acreditemos que nenhum povo ou nação entregue às trevas do paganismo e dos “genes inferiores” poderá ser páreo para a religião, a tecnologia de guerra e , aparentemente, também a divina providência que protegem o cancro ideológico eurocêntrico.
Na verdade, os espanhóis teriam pouca esperança de sobreviver a essa empreitada militar sem a ajuda de várias tribos rebeldes que estavam cansadas do jugo dos mexican (aztecas) e conheciam bem os pontos fracos destes últimos.
As doenças trazidas da Europa (com destaque para a varíola, gripe e várias doenças do gado) dizimaram mais indígenas do que o aço espanhol.
Após a conquista de Tenochtitlan (a capital-ilha dos mexican) em 1521, e tendo deitado mão a uma enorme quantidade das almejadas pedras preciosas, não tardou muito a que os espanhóis se tornassem sorumbáticos, entregues ao álcool e, por fim, presas fáceis das enfermidades fatais ( a maioria das quais levaram consigo para o “Novo Mundo”).
Até os líderes destas expedições militares colonialistas (começando por Colombo), apesar de terem conquistado um lugar de destaque nos livros de história e a sua anatomia reproduzida em monumentos, caíram em desgraça ainda em vida, morrendo consumidos pela frustração e pelo ódio de terem sido “injustiçados” pelos seus superiores hierárquicos.
À semelhança do que tinha feito (em 1454) o Papa Nicolau V, dando ao Rei português Afonso V a aprovação do Vaticano à política de saque, genocídio e escravatura que se esperava tivesse como ponta de lança o Infante D. Henrique, logo que se soube da descoberta do Continente Americano (que ainda se julgava tratar-se da Índia), o Papa Alexandre VI foi expedito em exarar um édito [papal] cujas intenções podem ser resumidas no seguinte parágrafo (extraído do documento original): «A Fé Cristã e a Religião Católica será especialmente exaltada no nosso tempo, espalhada e engrandecida por todas as partes do mundo, a salvação está ao alcance de todas as almas, as nações bárbaras serão subjugadas e conduzidas à [verdadeira] fé.» (Wayne Ellwood, 1991)
Na obra «Breve História da destruição das Índias», da autoria do padre Bartolomé de Las Casas (que remava contra a corrente ideológica que conduziu o colonialismo europeu), pululam descrições tão pungentes quanto abomináveis dos massacres perpetrados pelos espanhóis – com o aval do poder secular e do poder temporal. O fanatismo religioso desta força invasora assumia contornos grotescos. Mesmo antes das fogueiras da Inquisição começarem a queimar indígenas em massa com o intuito de purificar pelo fogo os seus corpos e almas de pagãos, já o grupo de Cortez passou dias a enforcar mexicans separados em grupos de 13 – que, de alguma forma, para os algozes simbolizava uma infame homenagem a Cristo e aos 12 apóstolos!...


Quando Pizarro e os seus (180) homens conseguiram aprisionar o imperador inca Ataualpa, este último negociou o seu resgate fazendo-lhes uma proposta irrecusável: em troca da sua liberdade ordenaria aos seus súbditos que trouxessem de todo o império ouro e prata em quantidades suficientes para encher duas divisões (uma delas era onde se encontrava aprisionado, e marcou a quantidade acordada até à altura em que conseguia esticar o braço em direcção ao teto). Demorou 7 meses, mas, ao contrário dos espanhóis, os incas cumpriram a sua parte do acordo.
Ao verem aquela imensa fortuna em ouro e prata – num total calculado em 24 toneladas, das quais 6 eram de arte sacra e de raros objectos de adorno-, os espanhóis extasiaram e descreveram-na como «saída de um sonho! Os objectos pareciam demasiado belos e resplandecentes (como) para terem sido feitos por mãos humanas!» (sic) Mas como a sua ganância rapace e o pragmatismo administrativo não podiam fazer concessões à sensibilidade estética e, menos ainda, ao respeito pela liberdade de culto, todo aquele ouro foi logo derretido e convertido em barras (das quais apenas um quinto foi enviado para Espanha…). Numa das maiores e mais explicitas demonstrações formais de xenofobia e de prepotência colonialista, Ataualpa foi executado (em 1583) sob a acusação de «ser um inca»(sic)… Como demonstração de “clemência magnânime”, os espanhóis revogaram a traiçoeira sentença de matar o imperador queimando-o vivo, contentando-se em estrangulá-lo...

Neste contexto, a hecatombe subsequente era inevitável. ( só no Brasil, em 500 anos de ocupação europeia, uma população estimada em 5 milhões de ameríndios ficou reduzida aos 200 mil actuais…)
PB

sexta-feira, março 02, 2007

Pouco importa a quantidade de informações acumuladas, sem a capacidade de formular, discutir e ensaiar novas ideias. Esta asserção é tão válida para os indivíduos como para as civilizações em ascensão.


“Entramos na cadeia de produção aos cinco anos, por vezes antes. Separam-nos por idades, em grupos manejáveis. (…) Não podemos seguir o velho modelo de educação industrial: eficiência, controlo, coação. O sistema é uma máquina que se tornou obsoleta.” – Carlos Fresneda (2002)



a UNESCO aponta Portugal como não investindo mais que 5% do PIB na educação (instrução), o que é próximo da média europeia, mas fica muito aquém da Suécia e da Dinamarca. Na Europa dos 25, apenas malta fica abaixo do nosso país no que toca à percentagem de jovens que completa o ensino secundário. Com a facilidade de trânsito que irão usufruir as populações (em média com maiores qualificações e desejosos de emigrar e/ou de acolher fábricas à procura de mão de obra barata) dos novos países aderentes (à U E), a disputa por empregos irá agravar as tensões sociais.
90% do orçamento para a educação/instrução é gasto nos ordenados dos professores, sendo principalmente as famílias dos estudantes (através das propinas) que têm arcado com o grosso das despesas de manutenção das universidades (Cabrito, 2004).



O governo exige que os departamentos de investigação das universidades se auto-financiem, o que se traduzirá na total dependência de apoios externos, nomeadamente de empresas. E assim se estrangula a pouca investigação independente de que beneficiávamos. Mas tal não é nenhuma surpresa, pos há muito que grande parte dos estudos efectuados pelas universidades são estudos de mercado destinados a permitir mais penetrações na vulnerabilidade consumista dos crédulos e eternamente insatisfeitos cidadãos.
(Como uma solução de compromisso pontual, os novos laboratórios da Universidade de Coimbra são patrocinados por uma instituição bancária.)
O Dr. Jorge Paiva é provavelmente o nosso maior botânico no activo. Mas é muito mais do que um investigador e catedrático (cujo trabalho é reconhecido internacionalmente), e um livro que aborde a educação ambiental em Portugal não poderá deixar de falar sobre ele .
É já lendária a sua entrega e capacidade de trabalho, e não há ninguém que tenha sido seu aluno que não o admire profundamente.
Manteve-se sempre fiel aos seus ideais ambientalistas com uma integridade e dignidade como quase não se vê em lado nenhum. Emprestou, de forma totalmente abnegada, os seus conhecimentos e o seu prestígio a várias ONGAs e campanhas, mas nunca lhe interessou o protagonismo mediático e sempre conseguiu esquivar-se às manipulações que o queriam submeter o poder político. Com lucidez e coragem, tem enfrentado quaisquer poderes instituídos, tendo sofrido vários atentados à sua vida quando (na década de 80) se empenhou em denunciar os interesses das celuloses e dos medeireiros.
No final dos anos 90, reformou-se do ensino para poder dedicar-se mais à investigação (no Instituto Botânico de Coimbra) e para atender a imperativos de consciência que o impelem para uma maratona de visitas a quase todas as escolas do país, tentando disseminar poderosas mensagens ambientalistas. Durante esse périplo (que ainda não findou) nunca recebeu quaisquer apoios. Até o combustível do seu automóvel (um modelo caro que se viu obrigado a comprar com o principal fito de aguentar tanta estrada) e as refeições teve que pagar do seu bolso. Prescinde ainda de receber honorários das suas acções de formação de professores promovidos pelas ONGAs e é a pessoa que mais tem investido na sensibilização ambiental dos nossos juízes.
O seu empenho como activista da ecologia é tanto mais admirável quando percebemos que o faz sem sequer nutrir esperanças de que a actual crise ambiental e social mude para melhor, e nunca perdendo o sentido de humor.
A sua actividade tem-no levado aos pontos mais remotos do globo, de onde traz sempre, a par de volumosos herbários, uma mancheia de estórias do mais fascinantes e divertidas que se possa imaginar.
É ainda colaborador de vários institutos botânicos estrangeiros, da Flora Ibérica, participando dos inventários taxonómicos de tantas outras floras por todo o mundo (ex.: Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, Malawi, Zimbabué, Timor Leste, Brasil, …).
Para mim tem representado o melhor de Portugal com um mérito inspirador só comparável ao trabalho de medicina humanitária protagonizado pela AMI (Assistência Médica Internacional, presidida pelo Dr. Fernando Nobre), que quase me restituem a fé na humanidade. Bem hajam.
Peço que o Dr. Paiva me perdoe a inconfidência, mas sinto-me na obrigação de aqui transcrever um pequeno excerto de uma das suas cartas a mim dirigidas, para que tenham consciência do tipo de consideração que o governo e as universidades reservam aos idealistas mais competentes.
« (…) Já dormi muitíssimas vezes ao relento por não ter dinheiro para uma pensão sequer. Ainda o ano passado [2003] o fiz em Timor e fi-lo muitas vezes na Plaza Mayor de Madrid, quando lá vou trabalhar para a Flora Ibérica, pois Portugal está de tanga e nunca me deram dinheiro para cobrir as minhas despesas inerentes a esse trabalho, quanto mais para os trabalhos ambientais. É o país que temos. Nas viagens que faço para a colheita de plantas nos trópicos (…) pagam-me apenas as viagens.»




As marcas e a escola
No que toca às influências culturais externas, cá vamos cumprindo o nosso triste fado de sermos espelhos (distorcidos) do que pior se passa por terras do “tio Sam”. Estou curioso para ver quanto tempo demorará até termos as escolas patrocinadas por marcas, ou se, por outro lado, os educadores portugueses saberão marcar uma fronteira de decência e dignidade, recusando-se a debicar as migalhas na mega liça comercial.
O fantasma do deficite patrocina/apoia/impulsiona as privatizações e o proxenetismo. Os Estados concedem benesses fiscais e outras regalias aos “tubarões” da economia (que esfregam as mãos de contentes ante as recessões por eles criadas, enchendo os bolsos à custa da miséria alheia e, ainda por cima, sendo aclamados pelos seus “milagres económicos” baseados na absoluta precariedade do sector dos serviços), enquanto que reduz os gastos do erário público em sectores fundamentais como a educação, a saúde e o ambiente. Mas não há político que se abstenha de alardear sobre a imprescindibilidade de equipar as escolas com programas de softwar educativo. E as associações de pais concordam entusiasmadas. E o espaço virtual da Internet vai ganhando uma preponderância maior do que as salas de aulas. E a pedagogia de carregar botões vai-se afirmando como um fim em si, tornado obsoletos/anacrónicos os restantes auxiliares pedagógicos, apesar de muitos renomados pedagogos questionarem os seus exacerbadamente propalados benefícios (ainda por comprovar)


As crianças ainda mal sabem falar e já os pais insistem em medir-lhes a inteligência pela habilidade que eventualmente tenham em reconhecer caracteres e em manipularem um teclado de computador.
Foi essa obsessão pela tecnologia de ponta que abriu as portas das escolas e estendeu uma passadeira vermelha às marcas, permitindo que estas tomassem de assalto tão cobiçado bastião – fervilhante de consumidores ávidos e ingénuos.
Como muitas escolas (mesmo desviando verbas anteriormente atribuídas à educação , ao teatro, à literatura e até ao desporto, ente outros exemplos) carecem de fundos de maneio necessários à aquisição de uma parafernália de áudio visuais, cederam ao assédio chantagista das corporações. Estas últimas fornecem-lhes os brinquedos caros, e em troca as escolas têm que prestar vassalagem às suas marcas. E não lhes chega estarem presentes em cartazes, nos autocarros, nos equipamentos desportivos, na cantina, etc…; exigindo entronizar os próprios programas educativos. Assim, aos alunos é-lhes pedido que utilizem todos os seus conhecimentos multidisciplinares para que concebam campanhas publicitárias e pesquisas de mercado tendo como figura central uma determinada marca. Esses alunos poderão (ou não) receber vários brindes adicionais (às notas académicas) e até a possibilidade de estagiarem nessas empresas.
Um dos casos que no final dos anos (19)90 fez correr mais tinta pelo seu carácter anedótico e ao mesmo tempo extremamente perturbador, foi o de um finalista da Escola Secundária de Greenbriar (Geórgia, E.U.A.) chamado Mike Cameron. Ora este adolescente foi suspenso pelo concelho directivo por ter cometido o infame atrevimento de vestir uma T-shirt com o logótipo da Pepsi no dia em que o seu liceu declarou como “Dia Oficial da Coca-Cola”!...
Mas as instituições públicas (ex.: escolas, câmaras municipais, …), pelas avultadas verbas que desembolsam podem e devem ter uma atitude de integridade musculada exigindo às empresas fornecedoras de bens e de serviços um mínimo de moralidade na sua conduta. A ética empresarial (sob vigilância independente) terá que começar a fazer parte dos contratos de trabalho.



Um ambiente “pedagógico” uniformizante , opressivo e contra natura, será sempre um terreno demasiado árido para medrarem valores mais democráticos, mais conscienciosos, mais respeitosos, mais solidários e mais felizes, que sejam os pilares de um novo humanismo ecológico. «Uma nova política de educação/instrução teria que dar prioridade à formação de uma geração de cidadãos possuindo as competências e as qualificações que as novas lógicas requerem: as da economia social, da economia solidária, da economia local, da economia cooperativa. Daria igualmente uma importância primordial à cooperação com outras comunidades, regiões e povos do mundo, no sentido de fazer recuar a actual tendência para a apropriação privada dos conhecimentos, colocando estes últimos ao serviço da promoção de um estado de bem-estar mundial que garantisse a todos o direito a uma vida digna» (Ricardo Petrella, Le Monde Diplomatique 2001)
Ao invés de os laboratórios bioinformáticos da procreática brincarem com as hélices duplas do ADN, como se estas fossem serpentinas de carnaval que alguns desejam comercializar na feira das vaidades, se queremos melhorar como indivíduos e como espécie, teremos que parar de destruir o meio ambiente e recuperar habitats; adoptar hábitos saudáveis; investir numa correcta educação e miscigenarmo-nos.


Um crescente número de pais tem vindo a discutir os postulados morais e éticos de entregar ao Estado a educação dos seus/nossos filhos, sentindo que, se não reivindicarem um papel mais activo e responsável, correm o sério risco de se tornarem meros proprietários absentistas dos seus descendentes. Como poderão desfrutar e conhecer bem as crianças entregando-as – logo a partir dos três meses! – a terceiros para que cuidem deles, mal os vendo nas sobras dos seus dias apressadamente desventurados. Se é verdade que uma nação de crianças subnutridas e carentes de educação vão construir sociedades necessariamente débeis, parece-me igualmente óbvio que as crianças que crescem num estado de semi-abandono por parte dos seus pais entregues a um mundo materialista e competitivo, não poderão tornar-se adultos equilibrados e felizes. Esse estado de orfandade afectiva (que os técnicos denominam de “défice parental”) poderá dar uma nova relevância ao papel dos avós, mas por mais disponíveis e carinhosos que estes sejam, não podem substituir o papel dos pais e dificilmente conseguem colmatar esse “síndroma do ninho vazio” (quando os pais estão fora todo o dia).

A opção pelo ensino doméstico (homeschooling) parece excessivamente contra-a-corrente para alguns pais “tresmalhados” e com demasiadas preocupações económicas poderem levar a cabo. Indubitavelmente, este é um sistema alternativo que necessita estar ligado a uma rede de apoio bem estruturada e competente. Não se pretende um isolamento pristino/imaculado das crianças, apenas se considera que deverão estar adunadas por reais interesses num ambiente não competitivo, não por uma fatalidade comum e aleatória. Estimular a criatividade e os valores solidários e ecológicos tampouco significa excluir do programa de ensino tudo o que se relacione com as disciplinas formais do currículo académico.
Provavelmente o melhor sistema de ensino doméstico que tive conhecimento (aqui no ocidente) é/foi o afecto à pedagogia Montessori.

Waldorf
A pedagogia Waldorf parece-me mais interessante pela metodologia prática+++++ do que pelos fundamentos teóricos (doutrinas algo esotéricas e cristocêntricas, onde abundam estorietas bíblicas e mitos nórdicos). Mas o que realmente me constrange e entristece é o facto de os escassos exemplos que conheço em Portugal (tanto as escolas já em funcionamento, como diversas tentativas para a implantação das mesmas que eu tenho tido a oportunidade de acompanhar) estarem pouco abertos às crianças portuguesas, sendo um privilégio (discriminatório) quase exclusivo de cidadãos de origem germânica, algo relutantes em se integrarem na nossa cultura.
Felizmente, para salvaguarda do que há de melhor na referida filosofia pedagógica, na Casa de Santa Isabel (em S. Romão, no sopé da Serra da Estrela) existe uma comunidade terapêutica (orientada pelos princípios de Rudolf Steiner~~~~~~~~~~~~) vocacionada sobretudo para crianças deficientes, que bem merece uma visita e o nosso apoio.

+++++trata-se de um sistema não competitivo que prescinde de exames regulares, pois as crianças são (se tudo correr bem) acompanhadas pelo mesmo professor ao longo dos anos. Como tal o conhecimento mútuo é suficiente. As crianças são reunidas em pequenos grupos num ambiente familiar. Nos primeiros anos, são elas que vão elaborando os seus próprios livros de estudo, como registo das experiências de aprendizagem mais marcantes, e também é-lhes dada a liberdade para escolher os temas sobre os quais irão desenvolver as actividades criativas e de investigação. Aliás, a componente prática e artística(ex.: trabalhos manuais, música, pintura, dança, ginástica,…) jogam um papel preponderante.com frequência celebram festivais sazonais.
línguas estrangeiras fazem parte do currículo logo desde o início. ~

~~~~~~~~~~~Rudolf Steiner foi um notório filósofo austríaco ( inventor da antroposofia), igualmente bem sucedido como cientistas (apologista da ciência-espiritual), pedagogo, escritor e pai da agricultura biodinâmica. É precisamente na Áustria que encontramos a maior concentração europeia de agricultores (certificados) afectos à agricultura biológica.

Nos estados Unidos brotam (e florescem!) alguns exemplos interessantíssimos que merecem a nossa atenção. Comecemos pelas “charter schools”. Tratam-se de projectos concebidos e levados a cabo pela acção conjunta de professores, pais e alunos. Estes pedem ao Estado a concessão temporária de uma escola para aí desenvolverem os seus projectos educativos alternativos. Havendo concordância de ambas as partes, as autoridades estatais outorgam-se o direito de avaliar (com uma periodicidade de 3 ou 5 anos) o sucesso destas iniciativas.
As escolas livres (free schools, no original) são de cariz libertário e, nesse país, abarcam já mais de três mil centros educativos.
Ensino doméstico (Home schooling) mais de um milhão e meio de jovens (não escolarizados, mas perfeitamente legais) estão afectos a este sistema. Os seus resultados, em termos de aquisição de conhecimentos teóricos e práticos, têm surpreendido pela positiva até os seus detractores mais ferozes. O que é mais importante é que estes jovens mostram-se mais realizados, mais felizes e mais maduros que o maralhal perdido no ensino formal.
Pais/educadores ligados pela net
Web sites úteis:
www.paideiaescuelalibre.org
www.newhorizons.org
www.rethinkingschools.org
www.selfeducation.org
www.great-ideias.org/paths.htm
www.schumachercollege.org
www.eduscol.education.fr/



centro Fernano Bernaldez Gonzalez
Ceneam

(Mas atenção que os cabos de fibra óptica não podem substituir o calor
humano; as informações que melhor se assimilam são aquelas partilhadas
pessoalmente.)
Centros de aprendizagem
Juntas escolares – inclusive algumas escolas públicas (convencionais) permitem que essas crianças se matriculem apenas em algumas disciplinas que elas e os seus pais julguem convenientes
Grupos desportivos e artísticos; actividades ar livre, intercâmbios com outras famílias,…


Respondendo a uma das perguntas que mais aflige os pais indecisos por seguir estas vias alternativas de ensino, devo deixar claro que os jovens que decidem completar os seus estudos ingressando no ensino formal costumam passar os testes de admissão com distinção.